LÊNIN

Desde 1925, uma interminável fila estende suas dobras pela Praça Vermelha de Moscou, até um edifício cúbico e simples. É gente de todo lugar: camponeses siberianos, operários ucranianos, negros de roupas coloridas, mongóis vestidos de pele, europeus, sul-americanos e mesmo nos últimos anos turistas americanos. A fila se move lenta, e todos trazem sanduíches e revistas: chega-se de manhã e só à tarde se consegue entrar pela porta. Lá dentro, na obscuridade, num esquife de vidro e sob um foco de luz vermelha, jaz um morto embalsamado. Apenas o rosto e uma das mãos aparecem. Quiseram eternizar seu corpo, mas até as múmias lentamente se desfazem em pó. Reverente é o silêncio. Entretanto, 50 anos atrás, uma multidão agitada gritava seu nome com entusiasmo, quando ele proclamou a primeira república  socialista do mundo: "Lênin!Lênin!" Lênin ou Vladimir Ilyich Ulyanov (1870-1924) nasceu em Simbirsk no Volga (atual Ulyanovsk), e tinha 17 anos quando seu irmão terrorista membro da organização  "Vontade do Povo", foi executado por tentar assassinar o Czar Alexandre III. E nesse mesmo ano ele foi preso pela primeira vez. Largou a faculdade de Direito para estudar a obra  de Marx e Engels, e em São Petesburgo, cidade depois  rebatizada como Leningrado, escreveu seu primeiro trabalho, propondo a formação de um partido operário revolucionário. Sua atividade levou-o, até 1900, ao exílio na Sibéria, onde se casou com outra jovem revolucionária deportada: Nadezhda Krupskaya. Em 1901, já na Suíça, iniciou  publicação do Iskra (Centelha), jornal que centralizaria a luta do jovem Partido Social-Democrata Russo contra o czarismo.

1905 O ENSAIO GERAL


Na guerra com o Japão (1904-1905) o colosso russo vem abaixo, guiado por generais incompetentes e burocratas corruptos. Fome e descontentamento assolam o país. Os estudantes se manifestam, os liberais pedem a constituição, os operários se rebelam. O governo apavorado concede a constituinte. Os operários de Petrogrado criam espontaneamente  um conselho próprio: "o Soviete". Um jovem audaz, de esbravejante orátoria, é seu presidente: Trotsky, que nessa época se desentendera com Lênin e voltara ilegalmente para a Rússia. Do estrangeiro Lênin acompanha a situação e incentiva seus partidários, para que  para que participem do Soviete. Quando lhe fazem ver que à  cabeça deste está seu antigo opositor Trotsky, dá de ombros: "Que importa! Ele o merece por seu trabalho". Nessa capacidade de esquecer desavenças  pessoais e compreender  as aspirações coletivas está todo o Lênin político. A revolução é esmagada, mas Lênin prediz: "1905 Voltará!"

1914 O AÇOUGUE DOS POVOS


1914. As multidões patrióticas cobrem de flores os soldados pelas ruas de todas as cidades da Europa. Contra a inteira opinião pública inclusive a de seu partido, o "bolchevista", que se separa da ala moderada dos "menchevistas", Lênin declara que o dever dos socialistas é trabalhar  pela derrota dos próprios governos: a derrota trará a Revolução. Fazem-lhe ver a terrível impopularidade desse ponto de vista. Mas ele retruca que o marxista "não tem por objetivo agradar a opinião pública mas dizer a verdade a classe operária". E rompe com todos os que pensam diferente. Em fevereiro de 1917, sua tese é confirmada: o interminável massacre da guerra espalha um vento revolucionário pela Europa. O primeiro sintoma é o levante em Petrogrado. O Czar Nicolau II abdica e constitui-se um Governo Provisório de liberais e socialistas. Lênin, na Suíça, arde de impaciência: chegar à Rússia de qualquer modo! O governo alemão acha ótimo mandar um revolucionário para a Rússia, ele poderia provocar ali uma crise interna, e oferece-lhe transporte num trem  blindado. Os bolchevistas põem as mãos na cabeça: "Mas todo mundo vai dizer que Lênin é agente alemão!" Lênin desdenha tal precaução e toma o trem. E na própria estação de chegada faz um comício que põe seus partidários em polvorosa : desautoriza a frente única com o Governo Provisório, e lança suas palavras de ordem: paz e reforma agrária já ; derrubar o Governo; todo o poder aos conselhos de operários, soldados e camponeses.

1917 O TRIUNFO DE LÊNIN


Em outubro de 1917 Lênin está foragido. O Governo colocou os bolchevistas fora da lei. Mas o povo abandonara o Governo. E na noite de 24 para 25, sob a liderança de Trtsky, eclode a insurreição. Na noite seguinte, Lênin abre o Congresso dos Sovietes de toda a Rússia para proclamar a paz imediata  e a repartição da terra. Uma imensa ovação aclama seu nome, quando ele se declara confiante na próxima vitória da revolução em toda a Europa: logo a República dos Sovietes não estaria mais sozinha. E uma das primeiras preocupações de Lênin é a fundação de uma nova organização internacional que dirija a revolução em todos os países: o Komintern (abreviação de "Internacional Comunista"), fundado em 1919, enquanto a guerra  civil e as intervenções estrangeiras convulsionam o território soviético. Todavia, as coisas não andam tão bem como de início parecia. As revoluções, uma após outra, fracassam na Europa. Alarmado, Lênin vê dentro da própria República soviética crescer uma do  deformação perigosa: a burocracia estatal, que por todos os lados empurra as massas para fora do poder. Em 1921, no Congresso do Partido, ele já denuncia esse perigo. A solução está na revolução mundial , proclama ele. Mas Lênin está cansado e sua saúde é precária. Em 1918,  num atentado, receberá dois tiros de revólver. Nunca mais se restabelecera completamente. Morre a 21 de janeiro de 1924, deixando um testamento político que durante algum tempo é ocultado por Stálin, predisse Lênin: "Esse cozinheiro só nos fará pratos apimentados."