Fim do Mundo, Quando Deus Chamava os Homens para o Céu e A Velhice de um Homem que Fala Sonhando com Sessenta Anos são os títulos dos poemas que Pyotr Ilitch Tchaikowsky compunha aos sete anos, em língua francesa. Por tão precoces aptidões, sua preceptora chamava-o "menino de vidro". Realmente era uma criança supersensível, esse segundo dos cinco filhos de Alexandra Andreievna d'Assier, senhora de origem francesa casada com Ilia Petrovitch Tchaikowsky, engenheiro de uma usina em Votkinsk, centro metalúrgico próximo à fronteira da Sibéria, na Rússia. Nascido a 7 de maio de 1840, Pyotr viria a ser o primeiro músico dessa família, que por várias gerações tinha ocupado modestos cargos no exército e na administração Russa. E mais: viria a ser um dos músicos russos mais conhecido em todo o mundo. Desde os cinco anos Tchaikowsky dedilhava o piano, assistido pela mãe. E quando em 1850, a família se muda para São Petesburgo, depois de ter vivido dois anos em Moscou, desenvolve com bastante rapidez esses primeiros conhecimentos musicais. Cursa, aí, a Escola de Jurisprudência, de cujo coral participa, sendo tutelado, nesse período, por Modeste Vakar, um amigo da família incumbido de orientá-lo até os dezenove anos.
OS ANOS DE ANGÚSTIA
Um dos teatros de São Petesburgo levava a ópera "Don Giovanni", do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Vakar leva o pupilo ao espetáculo. A paixão de Pyotr pela música de Mozart foi instantânea. Mais tarde, descreve-o como "o Cristo da música, no qual fundem-se todos os seus precursores, tal como os raios se misturam ao próprio sol". As outras paixões do jovem era o teatro, os concertos, a participação em espetáculos amadores. Em 1854, a cólera, terr´vel infecção intestinal, rouba-lhe a mãe, com 41 anos de idade, quando ele tinha apenas catorze anos. E Tchaikowsky conheçe então sua primeira grande depressão. Ainda estudante, compõe uma ópera-cômica: Hipérbole.
Em 1859, termina os estudos de direito e ingressa no Ministério da Justiça como escriturário. A repartição era para ele uma irritação constante. E ele era na repartição um funcionário bastante extravagante. Passava todo o expediente a mascar pedaços de papel. Uma vez, enquanto conversava com um amigo, destruiu por esse processo um documento governamental de importância. Além do mais, Pyotr não suportava os comentários dos colegas de trabalho acerca de suas tendências homossexuais. Considerava-as uma tara trágica, que o expunha às críticas da sociedade. Criou-se nele um profundo sentimento de rejeição.
E a angústia não abandonaria mais esse homem que oscilava como um pêndulo entre a euforia e a depressão profunda. Em 1861, embora a situação financeira da família já não fosse tranquilizadora, Ilia Petrovich arruinara sua fortuna depois de ficar viúvo, Tchaikowsky licencia-se do Ministério da Justiça. Na condição de secretário e tradutor de um homem de negócios, viaja pela primeira vez para o Ocidente, visitando Berlim, Hamburgo, Bruxelas, Antuérpia e Paris. Durante a viagem , decide tornar-se músico profissional, numa Rússia que não conhecia ainda tal profissão. De volta à pátria, Tchaikowsky demite-se do Ministério. Ingressa no Conservatório de São Petesburgo, fundado por Anton Grigorievitch Rubinstein. Desde o primeiro encontro, esse pianista, compositor e diretor de orquestra, que deu início a vida musical organizada na Rússia, impressiona profundamente o jovem músico. Toma aulas com ele e com N.I. Zaremba (1821-1879) e H. Laroche (1854-1904), que viria a ser crítico de música. Através dos mestres entra em contato com as escolas musicais européias de Berlim e Viena. Apaixona-se pelo trabalho de Beethoven, Weber, Mendelssohn, Chopin e Listz. E realiza suas primeiras obras: a sinfonia Sonhos de Inverno, a abertura sinfônica A Tempestade (1865) e dança para ópera Voievoda. Completa seus estudos no Conservatório compondo uma cantata para solo, coro e orquestra: Ode ao Júbilo.
A FACE OCIDENTAL DE TCHAIKOWSKY
O Conservatório de Moscou, fundado por Nicholas Rubinstein (1835-1881) nomeia Tchaikowsky professor de harmonia, em 1866. Aí, tem como colegas músicos europeus famosos, como K.Klindworth, H.Wieniawsky entre outros. Depois de dois anos nessa cidade, o compositor apaixona-se pela cantora Désirée Artot. Quer casar-se com ela, mas seu temperamento esquivo acaba por impedir a união. Nesse mesmo ano de 1868 entra em contato com o "Grupo dos Cinco" formado por Rimsky-Korsakow, Cesar Antonovitch Cui, Mili Alekseievitch Balakirev, Aleksandr Porphiriewitch Borodin e Modest Petrovitch Mussorgski. De tendência nacionalista, o grupo procura colocar sua música o passado histórico e as velhas tradições russas. E tenta a criação de uma música tipicamente russa. Mas Tchaikowsky formara-se num conservatório que acatava as normas da música européia. Defendia sua influência sobre a música russa. E com a mesma convicção tachava de "manifestações de ignorância" as pesquisas inovadoras feitas pelos "Cinco". Por isso as suas relações com o grupo foram sempre superficiais. Tchaikowsky simpatizava com Balakirev e Rimsky-Korsakow. Mas era declaradamente hostil a Mussorgski, que "talvez tenha mais talento que os outros, porém, é de natureza baixa, amante do grosseiro... não procura aperfeiçoar-se, e crê cegamente em seu gênio e nos heróis estúpidos de seu pequeno círculo" É o que declara, em carta à Senhora von Meck, em 1778. O Tchaikowsky conformista e o revoltado Mussorgski expressavam a complexidade dessa época da cultura russa.
O malogro com o balé Ondine é seguido pelo quase desconhecimento da estréia da abertura Romeu e Julieta. Sem público e sem dinheiro, Tchaikowsky retira-se para a casa da irmã. No período de repouso, compõe o Quarteto em Ré Maior, Opus II. Essa obra conquista-lhe o público, e o entusiasma num intenso ritmo de trabalho. Escreve a música de cena para a peça Strovsky, em 1873, e sua terceira ópera, Oprischnk, que fala sobre à polícia secreta de Ivã o Terrível (século XVI). O êxito dessa obra coincide com o grande sucesso da sua Segunda Sinfonia, em Moscou. E as próximas composições são músicas de cena para Branca de Neve, A Tempestade e o Quarteto N°2, em Fá Maior. Em 1874, executa o Concerto N°1, em Si Bemol Menor, Opus 23,que o popularizou definitivamente. Em 1875, apresenta sua Terceira Sinfonia, a Polonesa, e a pedido do Grande Teatro de Moscou, compõe o Lago dos Cisnes. Reerguidas suas finanças, viaja para a França para fugir à nostalgia aguda que sente em seu país. De volta a Moscou estréia o Terceiro Quartetos de Cordas. Em dezembro de 1876 Tchaikowsky recebe uma carta da riquíssima Senhora von Meck. Admiradora de sua obra, ela se propõe a doar-lhe uma pensão anual. E ambos concordam em nunca se conhecerem pessoalmente, para evitar decepções. No ano seguinte Tchaikowsky casa-se com Ivanovna Milyukova.
Depois de quinze dias de vida em comum, abandona-a e tenta suicidar-se nas águas do rio Moscou. Profundamente desequilibrado, é levado à Europa pelos irmãos. E sua esposa termina os dias num hospício. De 1877 a 1879, foram compostas suas obras mais importantes como a Quarta Sinfonia, Opus 36, dedicada a senhora von Meck, as óperas Eugene Onegin, para o romance em verso de A.Pouchkine (1799-1837), e Donzela d'Orléans. De volta a Moscou compõe, até 1883 Missa para Coro Misto Desacompanhado, Album de Infância e a Ópera Mazeppa. Em 1890 a Dama de Espadas e em 1891, sua última ópera A Filha do Rei René. Em outubro de 1891, a senhora Von Meck troca Tchaikowsky por outro protegido: Claude Achille Debussy. Abalado, Tchaikowsky compõe ainda o balé A Bela Adormecida, e Quebra nozes, A Quinta Sinfonia, o poema sinfonico Hamlet a Última Sinfonia, denominada Patética. Nesse ano vai à Inglaterra, e na Universidade de Cambridge recebe o garu honorário por seu trabalho. A essa altura , era famoso em toda a Europa. Logo depois adoece, sofrendo dores abdominais fortíssimas, uma sede incontrolável e a mais profunda depressão. Recusa-se a chamar um médico e piora dia a dia. Por fim seu irmão consegue quebrar sua resistência a tratamento. Mas Pyotr Ilitch Tchaikowsky morre a 6 de novembro de 1893. De cólera.
