LEWIS CARROLL NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Um coelho alucinado que olha constantemente para o relógio. Um rato eternamente com sono. Uma rainha (a dama de copas) tirana e furiosa. Esses são alguns dos extraordinários personagens de "Alice no País das Maravilhas", o livro para crianças que já foi traduzido para todas a línguas, até o esperanto. Há quase um século a menina Alice corre o mundo, em seguida por seu cortejo de seres estranhos, animais e pessoas. Em seu mundo fantástico, o absurdo é possível: basta-lhe fechar os olhos e ela de transforma ora numa gigante de pescoço comprido como o de uma girafa, ora numa anã de cabeça enorme. "Alice no País das Maravilhas" nasceu na Inglaterra, no século XIX. Foi a primeira de uma série de obras dedicadas ao público infantil. Mas embora tenha sido escrita para crianças, Alice ultrapassou sua própria esfera . Por seu conteúdo fantástico e o absurdo  constituem o centro de tudo, essa  obra tem sido considerada como precursora de uma importante corrente que surgiria mais tarde na literatura: o surrealismo.

O AMIGO DAS CRIANÇAS


Ao pensarmos no criador de Alice, e no seu mundo, imaginamos logo um homem excêntrico. No entanto, como um típico inglês, de aparência respeitável, tímido e sério, o autor de Alice nada tinha de excêntrico. Filho de um clérigo de província, Lewis Carrol, cujo nome verdadeiro é Charles Lutwidge Dodgson, nasceu no prebistério de Daresbury, em Cheshire, Inglaterra, em  1822. Estudou na Escola de Cristo, em Oxford, recebendo o diploma de matemático em 1845. Em Oxford permaneceria até 1881, trabalhando como professor e conferêncista. A morte de sua mãe, em 1851, abalou-o profundamente. Saudoso, relembrava constantemente os tempo de infância. Foi assim que o matemático de mais de trinta anos viu despertar um novo interesse. Passou a dedicar-se ao estudo do comportamento infantil. Sentia-se bem na companhia de crianças, gostava de desenhá-las e fotografá-las. Já com os adultos não tinha grande facilidade de comunicação, tendo poucos amigos entre eles. Passava a maior parte de suas horas livres em companhia das crianças das famílias MacDonald e Liddel. Para elas Lewis Carroll  inventava longas  e incríveis estórias onde tudo podia acontecer. Certa vez, ao sair a passeio de barco com as meninas da família Liddell-Lorina, Edite e Alice, começou a inventar uma estória cujo personagem principal era a mais nova das pequenas acompanhantes, Alice. A reação das crianças diante de sua narrativa  incentivou-o a publicá-la. E nasceu "Alice no País das Maravilhas", seguida depois de "Alice Através do Espelho", criada em situação semelhante. Nesta última estória , o centro do tema é uma partida de xadrez; os personagens são as peças.

As obras publicadas anteriormente por Charles Lutwidge Dodgson eram de gênero bem diverso: Um programa para um plano de geometria aplicada- Euclides e seus rivais modernos- Matemática
 Curiosa, usando , em todas seu nome verdadeiro. Sob o pseudônimo pelo qual seri conhecido na posteridade começou publicando inúmeras pequenas estórias sobre Oxford, como: Dinâmica de uma partícula, Parques desertos e Novo belfry. Mais tarde, escreveu poesias: O caçador de serpentes, Fantasmagoria e Outros poemas, rima? Razão? e a Coletânea de versos. Também em sua obra poética Lewis introduziu uma forma original de verso: utilizava o sobrenatural e o absurdo como tema, num estilo que foi imortalizado na Canção do Jardineiro Maluco. Mas foi "Alice no País das Maravilhas" que o consagrou. Projetada para um universo fantástico, Alice é apenas a menina inglesa típica educada no culto das boas maneiras e que observa, impertubável, as singularidades do próximo. Lewis Carroll faz com que sua personagem saia do mundo real para se perder dentro de outra  realidade, a do sonho e da lenda. No entanto, ela sabe perfeitamente que para retornar ao mundo real basta "abrir os olhos". Mas por que iria fazê-lo se esse outro país que lhe parece "País da Maravilhas", é muito mais divertido?

Alice não perde a consciência; sabe, durante  todo o tempo, que está brincando, no jogo do absurdo, e jamais se deixa prender ou assustar. As transformações em seu corpo, ora grande, ora pequeno , e as que acontecem ao seu redor não à amedrontam, despertando, ao contrário, sua curiosidade. Ao criar os personagens do seu livro, Lewis baseou-se em pessoas conhecidas. Não somente em Alice Lidell, mas também em figuras da sociedade da aristocracia da Inglaterra. Há quem diga que a rainha do "País das Maravilhas" não é outra senão a Rainha Vitória, violentamente satirizada. O primeiro capítulo de Alice foi ilustrado pelo próprio autor, que o presenteou à sua pequena inspiradora Alice Liddell. O manuscrito original tinha apenas 18 mil palavras. Por sugestão do seu editor, George MacDonald, Lewis revisou-o, ampliando-o para publicação. A versão definitiva foi então ilustrada novamente, por Sir John Tenniel. Obtendo enorme repercussão, não apenas entre as crianças mas ente o povo em geral, a obra impressionou a tal ponto que inúmeras de suas frases constituem hoje lugares-comuns na língua inglesa e seus personagens tornaram-se parte do folclore.