" Se não tivesse sido tão tão volúvel e inconstante, teria feito um grande proveito na erudição e nas letras". A frase é de Giorgio Vasari, pintor menor, mais o maior historiador da arte do Renascimento, em cuja época viveu, e refere-se a um artista daquele tempo, oriundo da localidade de Vinci, perto de Florença, e chamado Leonardo. A critica é justa: realmente de tão volúvel e inconstante Leonardo foi pintor, escultor, matemático, arquiteto, urbanista, físico, astrônomo, engenheiro, naturalista, químico, geólogo, cartógrafo, estrategista, criador de engenhos bélicos e inventor de instrumentos musicais. Os estúdios da Renascença reconhecem nele uma das figuras mais importantes de seu tempo. Sua obra, de uma diversificação assombrosa, é toda marcada pela genialidade. E sua figura humana aproximou-se como nenhuma outra daquele imaginário Homem Universal, o ideal da época renascentista.
O HUMANISMO QUE MODERNIZOU O MUNDO
Quando se fala em Renascença, há quem imagine que se trata de um fenômeno súbito: que de repente no século XIV, teria ocorrido na Europa uma ressureição do interesse pela cultura clássica da Grécia e de Roma, moldando a partir de então, durante um grande período, toda criação filosófica, cientifica e artística. No entanto, não foi bem assim. O chamado Renascimento resultou de um movimento que começaram muito antes, por volta do século XIII. Foi então que alguns artistas e pensadores, embora ainda tímida e inconscientemente, se tornaram pioneiros da Renascença ao reverenciarem os ideais artísticos da antiguidade. A tendencia evoluiu e, embora sem perder as marcas do classicismo do qual surgira, aos poucos foi adquirindo outro espirito e ganhou caracteristicas próprias.. E não ficou restrita apenas às letras, artes e ciências, passou a influenciar também a educação, a politica e a própria religião, numa ampla revolução cultural que traçou o primeiro esboço do que viria a ser o mundo moderno.
Em oposição à glorificação do celeste e do extraterreno, que caracteriza a Idade Média, passou a vigorar um acentuado humanismo, o homem surgiu como centro dos interesses. Viver a vida e conhecê-la tanto quanto o possível generalizou-se como atitude. Dessa forma, os europeus, que durante séculos se haviam conformado em sonhar com a futura vida eterna, começaram a descobrir o valor da vida no dia-a-dia, ao nível da terra.
BOM PROFESSOR MELHOR ALUNO
Era esse o clima que existia na Ítalia no ano de 1452, quando em Vinci, pequena aldeia toscana perto de Florença, nasceu o menino Leonardo. E foi influenciado por esse espirito que Leonardo da Vinci cresceu e se iniciou em arte, no estúdio de Andrea del Verrocchio. Tão bom mestre era Verrocchio e tão bom aluno saiu-se o rapaz que aos 25 anos de idade pôde juntar-se aos artistas que trabalhavam para Lourenço de Medici, o famoso mecenas que governava Florença. Já conhecido como pintor, Leonardo deixou a casa de Medici e começou a trabalhar para outras figuras importantes. Era protegido de Ludovico Sforza, duque de Milão, serviu como estrategista de César Bórgia e ainda, por encomenda do Papa Leão X, realizou uma série de brilhantes estudos de óptica. Durante a ocupação da Ítalia pelos franceses, da Vinci projetou para o governador Charles d'Amboise uma residência cujo o arrojo lhe valeu um convite do próprio rei francês, Francisco I. Na França, da Vinci passou seus últimos anos, os mais tranquilos. Ali morreu em 1519 com 67 anos de idade.
ARTE
Embora genial em diversos campos, foi na pintura que da Vinci mais se distinguiu. Pintou poucos quadros, mais todos eles verdadeiras obras-primas, como "Anunciação", a "Virgem dos Rochedos" o retrato da "Mona Lisa", considerado o quadro mais conhecido do mundo. De tempos em tempos , Leonardo se dedicava à escultura, mas embora fizesse muitos esboços, poucas foram as obras que chegou a concluir.
URBANISMO
Até o renascimento, ninguém pensava em urbanismo. As cidades não passavam de insalubres amontoados de casas. Ruas, havia poucas. Esgotos, menos ainda no projeto que fez para a cidade de Milão, da Vinci baniu os muros, traçou canais de esgoto, previu ruas superpostas para pedestres e pista livre para veículos. As casas seriam amplas e ventiladas e haveria praças e jardins para todos, como mostram estes esboços, provando o seu gênio como urbanista.
AEROLOGIA
O domínio dos ares, sempre foi uma paixão de Leonardo da Vinci, que dedicou à aerologia uma grande parte de sua vida. Após estudar a fundo as aves, em busca de conhecimento sobre o vôo, o inventor idealizou um engenho muito parecido com elas. Mas esse precursor dos planadores levou da Vinci à conclusão que o homem nunca iria voar como os pássaros (batendo asas). De qualquer forma, porém poderia pousar tranquilamente como eles, achava Leonardo. E criou um pára-quedas de "12 braças quadradas por 12 de alto". E já preparava estudos de um engenho voador mecânico. Além dessas criou várias outras máquinas aéreas, propelidas mecanicamente. Uma delas o parafuso aéreo, constitui uma antevisão do helicóptero. Nele, quatro homens, à força dos músculos, moviam o eixo ligado a hélice.
HIDRÁULICA
Baseado no principio de Arquimedes, Leonardo inventou uma bomba hidráulica para elevar água, criando assim, o primeiro dos dispositivos de elevação, hoje muito em uso. Imaginou também uma bomba de poço e uma roda hidráulica. Esta, por sinal, abriu caminho para as turbinas, que só muito mais tarde o mundo veio a conhecer. Em matéria de hidráulica, assim como em todas outras ciências, Leonardo discutia qualquer verdade estabelecida. Antes de aceitar uma ideia , fazia questão de testa-la de varias formas, para tirar sua própria conclusões. Seu empirismo foi, mais tarde, imitado por Galileu Galilei, físico e Francis Bacon filósofo. Além de engenheiro aeronáutico e hidráulico, Leonardo foi também engenheiro civil. Já naquela época, previu a futura técnica de construção de pontes metálicas.
GUERRA
Apesar de fascinado pela vida, o criador de Mona Lisa foi também um entusiasta da guerra e da idealização de maquinas de morte. O carro de assalto que imaginou era uma concepção originalissíma: coberto de toras de madeira, movia-se por um mecanismo propelido por homens ou animais disparando sobre os inimigos com armas que se deslocavam sobre a abertura superior. Leonardo criou também sistemas defensivos muito eficientes para que os que o contrataram como estrategista. Um deles era uma fortificação formada por duas muralhas, separada por foços e dotada de galerias subterrâneas. A guarnição desses redutos disparava sobre o inimigo com canhões de canos múltiplos, também de sua criação, os quais desfechavam rajadas, como mais tarde as metralhadoras. E dispunham ainda de gigantescas catapultas colocadas sobre fortes estruturas de rodas inclinadas
ANATOMIA
Por causa da anatomia, Leonardo da Vinci quase se viu em maus lençóis: foi descoberto dissecando cadáveres, o que era considerado crime. Graças as suas dissecações entretanto, fez descobertas importantissimas, que registrou em inúmeros desenhos e no Tratado de Anatomia que escreveu. As proporções do corpo humano, seus diversos sistemas, as leis do seu funcionamento, tudo isso foi estudado e minuciosamente descrito por da Vinci.
NÁUTICA
Também em náutica, da Vinci revelou uma visão prodigiosa. Para vencer a resistência da água, estudou novos perfis de casco, a fim de tornar as embarcações mais parecidas com os peixes. E projetou vários modelos de barco, entre os quais um movido a rodas de pás, como os vapores que surgiram 300 anos depois.
MECÂNICA
Projetar engenhos mecânicos, durante a Renascença, não dava prestigio a ninguém. Ao contrario era visto como atividade indigna de um cientista. Leonardo da Vinci, porém, nunca se preocupou com essa opinião. A grua que inventou dispunha de cabrestante com freio dentado e equilibrava-se por meio de uma caixa de contrapeso. No isqueiro que projetou para ascender canhões da Vinci criou uma corrente tão sólida, que continua em uso até hoje, nos mecanismos que exercem grandes esforços. Sua draga palustre de pás escavatrizes funcionava por um princípio idêntico ao utilizado pelas escavadeiras hidráulicas de hoje. E a tal ponto chegou a capacidade de antecipação de Leonardo, que idealizou, com 500 anos de antecedencia , o patriarca dos macacos de automóvel.