No ano antes de Cristo, na província de Lu, cortada pelo rio Luan, perto da cidade de Lu-lung, na família K'ung nascia um menino. Passou a chamar-se Fu-tzu, o que significa em chinês, mestre, pois era o desejo dos pais que se tornasse sábio. Mas jamais K'ung Fu-tzu chegou a sê-lo. A pobreza interessava-o mais que a sabedoria. Estudá-la, na China de então, era estudar a própria humanidade, e foi assim que K'ung Fu-tzu chegou a compreender a razão e a essência da vida: a virtude e a sabedoria. A virtude consistia em amar os seus semelhantes. A sabedoria significava compreendê-los. No entanto, era muito difícil conciliar ambas as coisas e foi em vão que K'ung Fu-tzu tentou divulgar estes conceitos, pretendendo persuadir algum governante a adotar o ideal de justiça. Jamais realizou esse objetivo que se propôs. E talvez nunca tenha imaginado que anos depois de sua morte , em 479 a.C., aquilo que ensinava aos pobres da cidade e das aldeias, se transformaria numa das mais populares doutrinas da Ásia oriental, a ponto de influenciar a cultura e civilização de centenas de milhões de pessoas. Os europeus, ao tomarem contato com os ensinamentos de K'ung Fu-tzu, julgaram que se tratava de uma religião.
Chamaram-na, do nome europeizado de K'ung Fu-tzu, Confúcio, de confucionismo. Mas a doutrina jamais chegou a ser religião no sentido ocidental do termo. Primeiro, porque não tem Deus: venera os ancestrais, reconhece a superioridade dos sábios, mas é só. Segundo, porque não tem templos: cada lar é o templo onde se honram os antepassados da família ( e só muito temo depois, para maior comodidade, é que se iniciou a construção dos templos locais, mas sem o sentido do lugar destinado à veneração de um ser supremo). Terceiro, porque não tem sacerdotes: o chefe da família é automaticamente o sacerdote da família. E quarto porque desconhece qualquer dogma ou livro santo: pode um só livro conter toda a sabedoria do mundo? E será possível excluir os sábios que podem surgir no futuro?Decerto , existe céu, sobrenatural e misteriosa fonte da verdade e da bondade. Mas a sua essência escapa ao homem, que somente pode aproximar-se dela através da educação e do estudo, e não o céu , ou como diríamos nós: não a religião, é a autoridade suprema , pois só através do estudo é que o homem é capaz de desvendar, se bem que em parte, a essência da vida. A essência da vida é jen. Jen é uma palavra chinesa, monossilábica, como quase todas elas, e de significado múltiplo . Jen quer dizer: humanidade, bondade, compreensão, amor. O conceito do jen emana dos ancestrais, mas muda com o tempo. Nada sendo imutável, nada pode ser dogmático. A renovação dos valores é um dos pontos mais importantes do confucionismo.
Chamado de "doutrina da essência", o confucionismo não podia deixar de evoluir. E foi o próprio neto do seu criador , Tzu Ssu (483-402 a.C.), que conjugou os princípios do jen com o "valor básico da existência: a harmonia". Só dentro da harmonia, dizia, é que pode existir a renovação positiva do homem. Mas, acreditando na bondade inata do homem , a doutrina parecia desconhecer a existência dos elementos negativos e nocivos da vida. Esta parte foi complementada no século II a.C. com a introdução da filosofia Yin Yang. A vida humana, dizia então o filósofo Tung Chungshu, desenrola-se, decerto , dentro da harmonia e almejando o jen , mas sempre dentro da grande luta cósmica entre a força negativa yin e força positiva yang. É bom seguir yang e aproximar-se do jen, mas nenhum pecado existe ao seguir yin, pois ambos fazem parte do Universo. E, a partir desta colocação do problema , o confucionismo foi proclamado doutrina oficial. Isso ocorreu em 136 a.C. Foram criadas universidades para formar sábios que seriam a base da sociedade . A doutrina foi introduzida nas escolas, a fim de que todos pudessem aperfeiçoar-se e atingir o jen. Mas, evoluindo , incorporou mais um princípio , li, a razão , e já no século XVI, após o contato com os europeus , mais um, chi, força; assim passou a justificar todos os atos do homem, mesmo aqueles em que era negado o jen. A evolução do confucionismo foi barrada e pai, a terra é minha mãe, todos os homens são meus irmãos, todas os homens são meus irmãos, todas as coisas são minhas companheiras" E só se chega à perfeição quando se consegue unir em si o céu e a terra, os homens e as coisas, e viver a vida em sua plenitude, respeitando a plenitude dos outros, compreendendo que tudo no mundo é ligado com tudo e que tudo o que existe vem a ser a mesma coisa
Por André Felipe
