Dizem que nasceu no ano da graça de 1266. Dizem que nasceu em Vespignano, uma pequena localidade perto de Florença. Dizem que seu pai era dono de uns alqueires de terra estendidos pelas escarpas dos Apeninos e que mais serviam para pasto que para agricultura. Assim , pequeno Ambrogiotto di Bondone cresceu nos pastos e pastor se fez. Muitas coisas dizem ainda sobre a vida de Giotto, para preencher os vazios da biografias de um dos mais humanos artistas de sua época. Mas nada foi até agora provado, nem sequer aquela lenda, quase aceita como verdade histórica, co encontro do pastor Ambrogiotto com a fama: estava ele, diz a lenda, com seus rebanhos nas encostas dos vales que cercavam as terras de Vespignano e, como, sempre, muito mais preocupado em desenhar as ovelhas numa pedra lisa, com pedaços de madeira queimada, que em cuidar delas, como um bom pastor. Um estranho passeava então pelas montanhas que ligam Toscana a Emília, duas importantes províncias italianas, e parou ao lado do menino. Talvez parasse apenas para perguntar o caminho; talvez pretendesse descansar por alguns instantes em companhia de alguém. Mas fato é que parando , viu os singelos desenhos do garoto e não mais seguiu viagem. Indagou ao rapaz se queria se aperfeiçoar na arte de pintar e, talvez, quem sabe, tornar-se pintor. Da resposta positiva ao pedido da bênção concedida pelo pai, foi apenas o tempo de chegar à casa dos di Bondone.
Mas é fato incontestável que por dez anos o jovem Giotto ficou no estúdio florentino do estranho viajante que era Cenni di Pepo em pessoa, mais conhecido na História da Arte por seu apelido, Cimabue. Dante Alighieri escreveria na sua "Divina Comédia" ("Purgatório", 11, 94-96) que Cimabue era de fato o maior pintor da época, mas só até o momento em que ele foi ultrapassado pelo seu próprio discípulo . Depois só se sabe o que pintou, onde e quando. E que ele faleceu no dia 8 de janeiro de 1337, pois assim consta das "Crônicas" de Villari, que lá pelo ano de 1373, apareceram em versão rimada, para que todos pudessem decorar, repetir e até cantar a vida dos maiores heróis daqueles tempos: dos pintores, que sem força física ou militar, conquistariam para cultura ocidental milhões de adeptos até nos séculos vindouros, e que, sem poder político nem meios de pressão, souberam humanizar o homem dentro dos conceito de amor e da serenidade. Por isso pouco importa ignoramos os detalhes da vida pessoal de Giotto ou sabermos, por exemplo, que se casou com Ciuta (isto é, Ricevuta di Lapa de Pera), de quem teve oito filhos. O que importa é sua obra, as idéias que, através dela, transmite para posteridade. E o homem que descobre.
DE ASSIS, COM AMOR
Assis é uma pequena cidade em pleno centro da antiga província montanhosa da Itália chamada Úmbria. Ali, em 1181, filho do nobre mercante Pietro di Bernardone, nasceu Francisco, jovem culto, mas tão dado às empresas bélicas que de bom grado participou, em 1202, de uma guerra contra Perugia, uma das muitas que assolavam então a Itália. Travou-se luta feroz e essa ferocidade levou Francisco a trocar a guerra pela paz e pelo amor ao próximo. Em 1209, o ex-guerreiro foi a Roma com um grupo de seus discípulos para receber do Papa o reconhecimento da ordem que, propondo-se a imitar terra na vida de Cristo, tentaria implantar o amor não apenas nos homens, mas, também, a todos os seres e coisas. Os pássaros, dizia Francisco, são nossos irmãos; também o Sol e a Lua , assim como todos os nossos semelhantes. Esses ensinamentos impressionaram tanto a Giotto que ele passou quatro anos de 1296-1300 aproximadamente, decorando a Igreja de São Francisco (então erguida na cidade natal do Santo), com uma série de afrescos dedicados à vida daquele que, como dizia, o levou a ver e sentir que a Terra era bela e os homens bons. Os 28 afrescos comprovam que é assim mesmo.
DE ROMA, COM FÉ
Era então Papa Bonifácio VIII. Homem culto, formado em direito, entendendo que, em sua época, a supremacia era da religião, dedicou-se a combater as tentativas dos reis que, em várias regiões da Europa, mas principalmente na França, tentavam libertar-se da tutela de Roma. Mas essa tutela era para o papa a própria lei. Para defendê-la, convocou um concílio; para impô-la, chegou a excomungar o rei da França. E, empenhado nas lutas temporais, quase chegou a ser preso por seus inimigos. Mas também foi este papa que trouxe a Roma o já então conhecido pintor dos Afrescos de Assis, Giotto. Em Roma, Giotto transformou seu estilo e realizou um grandioso mosaico: "Cristo Passeando sobre as Águas" (Que está na Catedral de São Pedro). Pintou também um altar para o Cardeal Stefaneschi (Hoje na galeria do Vaticano) e participou da pintura do mural que perpetuava a proclamação pelo papa no ano , jubileu , 1300 (na Igreja de São João de Latrão). Mas não esqueceu o seu São Francisco: o retrato do Santo recebendo as chagas de Cristo está hoje no Museu do Louvre, em Paris. Várias obras menores datam daqueles quatro anos, que jamais seriam esquecidos pela história da Arte.
COMO GIOTTO PINTAVA
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| Quadro"A Fuga do Egito" |
DE PÁDUA, COM SEVERIDADE
Então Milão e Veneza, bem no vale do Pó, fica a antiga cidade de Pádua. Vivia naquela cidade um usuário que, de tão conhecido, até foi estigmatizado por Dante na "Divina Comédia" como a personificação do mal. Chamava-se Enrico Scrovegni. E existiam naquela cidade também uns arruinados vestígios de um anfiteatro romano. Terreno e ruínas pertenciam ao usurário que para expiar os pecados seus e dos pais, como diziam as más línguas, ergueu ali uma capela. Chamou-a Capela dos Scrovegni, mas o povo preferiu chamá-la de Arena, como denominava o anfiteatro. Para decorá-la, ninguém melhor havia naquele período do que Giotto. Era um artista caro: dizem as crônicas que a cidade de Florença lhe outorgou uma pensão vitalícia e que o preço de seus quadros era alto. Mas o preço pouco importava a Scrovegni. Assim, Giotto chegou a Pádua. Talvez com intenção, escolheu como tema de seus afrescos o "Último Juízo" e "A Vida e a Paixão de Cristo". Com a mesma intenção, quem sabe, pintou também a severa personificação das Virtudes e dos Vícios, para que a tivesse em mente o rei da usura local. Fosse como fosse, mais uma obra imorredoura pode ser criada em Pádua por mestre Giotto
DE FLORENÇA, COM ALEGRIA
Depois de tantos triunfos, Giotto chega a Florença, cidade quase natal onde se tornou famoso e que acolheu como filho. Alguns altares, alguns crucifixos para as igrejas florentinas, a decoração com pinturas murais de várias capelas familiares, dos Bardi, Spinelli, Peruzzi, na famosa Igreja de Santa Cruz, e eis que o rei de Nápoles lhe outorga o título honorífico de membro da casa real e o convida para o Sul da península. Mas, por alguma razão até agora desconhecida, nenhuma das suas obras daquele período chegou às nossas mãos, foram perdidas ou até destruídas todas elas. Depois de Nápoles, volta às regiões pátrias. Uma passagem por Bolonha, uma curta estada em Milão, uma visita a Assis, e Giotto, sempre acolhido triunfalmente como um verdadeiro herói, volta a Florença. A cidade toda concentra-se então num esforço supremo: erigir uma catedral digna da riqueza material e espiritual da sua população. E Giotto, embora jamais se ocupasse da arquitetura, é nomeado o capomaestro supervisor da construção. Desenhou então o campanário, mas jamais pode vê-lo. Faleceu antes do término.

