QUEM FOI KARL MARX

"É um homem de vida extremamente desorganizada: não tem hora para levantar nem para se deitar. Frequentemente, passa  as noites em claro. Depois, ao meio-dia, deita-se num sofá e dorme até anoitecer, sem se preocupar com as pessoas que estão sempre entrando em sua casa. "Sua esposa é uma mulher culta e simpática, que se acostumou à miséria e a essa vida boêmia. Tem duas filhas e um filho, menino muito bonito. "Quando as pessoas entram na casa, são envolvidas por uma nuvem de fumaça e se vêem obrigadas a caminhar cautelosamente, como se estivessem numa caverna. Nada disso o constrange, nem à sua mulher; os dois recebem os visitantes com amabilidade, trazendo-lhes fumo e alguma coisa para beber. Uma conversa inteligente e amável acaba, então, por compensar as deficiências da casa, tornando suportável sua falta de conforto." Esse relatório, feito por um agente policial que frequentou a casa de Karl Marx em Londres, em 1852, termina dizendo que a descrição era "um quadro fiel da vida familiar do chefe comunista Karl Marx." Efetivamente, não se tratava de uma descrição tão fiel assim, já que omitia  detalhes  importantes sobre as reais condições em que o filósofo vivia em Londres. Certamente, o policial desconhecia uma carta escrita por Marx a seu amigo Engels, nesse mesmo ano de 1852: "Minha mulher está doente. Minha filha Jenny está doente. Heleninha (a fiel criada de sua mulher) está com uma espécie de febre nervosa. Não pude, e não posso, chamar o médico, por falta de dinheiro para os remédios. Há oito dias que alimento minha família unicamente com pão e batata. E não sei se vou poder comprar o pão e batata para hoje." Mas de qualquer forma, o relatório fixa um instante da vida de Marx, servindo como documento valioso para recompor o mosaico de sua biografia.

HEGEL, O MESTRE


Estamos em 1835, em Treves, cidade ao sul da Prússia Renana, junto as fronteiras da França. Karl Marx nasceu aí, dezessete anos atrás. Agora, ele está concluindo o curso no ginásio local, feito com alguma dificuldade: seu pai, livre-pensador familiarizado com os teóricos da Revolução Francesa; e sua mãe, mulher de espírito limitado, sempre voltadas para problemas de ordem prática, viviam em situação incômoda. O governo absolutista de Frederico Guilherme III perseguia os judeus, e os pais de Karl eram descendentes de judeus. Karl Marx  é um rapaz calado. Um de seus poucos amigos é Edgard von Westphalen, cuja casa frequenta com regularidade. É aí que ele se enamora de Jenny, irmã de Edgard, que virá a ser sua companheira pelo resto da vida. Nos últimos meses de 1835, Karl estuda direito, História, Filosofia, Arte e Literatura na Universidade de Bonn. Depois, vai para a de Berlim, onde estão na ordem do dia as idéias de Hegel, destacado filósofo idealista alemão. Os discípulos de Hegel estão divididos. Há os que se prendem aos elementos conservadores  das idéias dos filósofo: são os "hegelianos da direita" Marx logo toma partido, preferindo alinhar-se com os "hegelianos de esquerda", que procuram analisar as questões sociais com base no método historicista do mestre.

 A filosofia  absorve Karl com a mesma intensidade que seu amor por Jenny. Ele imagina, então, conjugar as duas coisas: se conseguir um lugar como catedrático lecionará filosofia e ganhará o bastante parea casar-se. De 1838 a 1840, dedica-se à elaboração de sua tese, enquanto lê avidamente as obras de Hegel, Spinoza, Kant, Leibniz e Epicuro. Finalmente, em 1841, segue para a Universidade de Iena, onde defende com brilhantismo seu trabalho A Diferença Entre a Filosofia de Demócrito e a de Epicuro. A tese é boa, mas Karl não é nomeado. Por motivos políticos, as universidades não aceitavam mestres que seguissem as idéias de Hegel. Sem desanimar, Karl resolve dedicar-se ao jornalismo. Faz um artigo para  Anais Alemães, publicação dirigida por um amigo, Arnold Ruge. Mas a censura impede a publicação da matéria. Karl Marx pretende casar-se precisa ganhar dinheiro. Tenta agora colaborar na Gazeta Renana, da cidade de Colônia. Seus trabalhos agradam e em outubro de 1842 ele muda para lá ; logo assumirá a direção do jornal. Mas por puco tempo: após violento artigo contra o absolutismo russo, o governo prussiano fecha o jornal.

FILÓSOFO E REVOLUCINÁRIO

 

Mesmo sem emprego, casa-se com Jenny em junho de 1843, mudando-se meses depois para Paris. Aí une-se de novo a Ruge, fundando com ele uma revista, Anais Franco-Alemães. Na revista, que não passou do primeiro número, saem dois artigos de Friedrich Engels, a quem Marx conhecera em Colônia. Também natural da Prússia Renana, dois anos mais moço que Marx, Engels é, como ele "hegeliano de esquerda". São muitas as afinidades: nasce entre os dois uma sólida amizade. Dessa amizade resultarão numerosas obras escritas em comum, e uma intensa atividade política. Ao lado dos artigos de Engels, os Anais trazem dois trabalhos de Marx, que já revelam o filósofo-político que vai ser: Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e Sobre a Questão Judaica.  No primeiro, ele sustenta  que as considerações hegelianas sobre o Direito eram inócuas, porque não indicavam meios práticos de superar os problemas humanos que abordavam. No segundo, afirmava que a verdadeira emancipação humana exigia transformações não apenas nas leis, mas do sistema social de produção e distribuição de riqueza. Era um Marx cada vez mais empolgado pelos problemas políticos e sociais , um estudioso que agora devorava os livros de Rousseau, Montesquieu e Maquiavel, um revolucionário que tomava contato com o movimento socialista dos operários franceses. E, ao analisar minuciosamente o sistema econômico capitalista, que encontrava sua maior expressão na Inglaterra, ele escolhe definitivamente uma caminho para o resto de sua vida: a pregação constante da revolução proletária. Na teoria, desenvolve suas tese políticas, na prática participa ativamente dos movimentos operários.

DE PAÍS EM PAÍS OS TEMPOS CRÍTICOS


Em fins de 1844, desde a proibição dos Anais da Alemanha, Marx começa a escrever para o  Vorwaerts, que sai regularmente  em Paris. Mas as opiniões emitidas na revista irritam o governo de Frederico Guilherme IV, imperador da Prússia: pressionado, o governo francês expulsa os principais colaboradores da publicação, entre eles Marx. Em fevereiro de 1845, ele é obrigado a sair da França, bem como Engels. Seguem para a Bélgica; em Bruxelas, Marx instala-se com a família. Marx e Engels não descansam. Enquanto escrevem teses sobre o socialismo, mantêm contatos com o movimento operário europeu. Fundam a Sociedade dos Trabalhadores Alemães, adquirem um semanário e acabam por ligar-se a uma entidade comunista secreta de operários alemães, a Liga dos Justos, que tem filiais por toda a Europa. No 2° Congresso da Liga, realizado em novembro de 1847 em Londres, recebem a incumbência de redigir um manifesto. Em Bruxelas, com base em um trabalho de Engels (Os Princípios do Comunismo). Marx escreve o "Manifesto Comunista", que  envia a Londres em janeiro de 1848. Na obra, violenta crítica ao capitalismo, expõe concisamente a história do movimento operário, faz objeções a determinados setores do socialismo e termina com um apelo, pela união dos operários do mundo inteiro.

Pouco tempo depois, Marx e sua mulher são presos e, em seguida expulsos da Bélgica. Em maio  de 1848, depois de breve estada em Paris, Karl Marx já está seguindo com Engels para Colônia, de onde também serão expulsos um ano depois. Mais uma breve passagem por Paris; e daí, Karl, Jenny e três filhos vão para Londres, na mais completa falta de recursos. Ainda sim , ele consegue editar seis números de uma revista mensal, a Nova Gazeta Renana , ao mesmo tempo que não descuida da atividade política. Entre 1850 e 1866, Marx e sua família passarão por terríveis privações. Em parte, a crise é minorada pelos parcos rendimentos que Karl Marx obtém da colaboração com vários jornais, inclusive o norte-americano New York Trinbune, tudo dolorosamente agravado pela morte de três filhos: Guido, Francisco e Edgard. Marx só consegue atenuar seu sofrimento  - 'só agora sei mesmo o que é uma verda", atirando-se ao estudo e a suas obras. Mas a situação financeira chega à um ponto insuportável, não obstante a ajuda que Engels lhe dá sempre que pode. Karl Marx é obrigado a candidatar-se a uma vaga de escriturário  na Companhia de Estradas de Ferro, mas o lugar lhe é negado, por causa da sua má caligrafia. Apesar dessa crise consegue publicar, em 1867, o primeiro volume de sua mais importante obra, O Capital, em que sistematiza suas críticas à economia capitalista.

A INTERNACIONAL E A MORTE


Em 1864, fora fundada, com esforços de Marx, a Associação Internacional dos Trabalhadores, em Londres, que fica conhecida posteriormente como a Primeira Internacional. A entidade expandiu-se por toda a Europa, cresceu muito e acabou dividida, depois de longo processo de dissidências internas. Em 1876, foi oficialmente dissolvida. Mas ai idéias da Internacional orientaram diversos partidos socialista que começavam a surgir. Ao escrever "Crítica ao Programa de Gotha, Karl Marx condenava o programa que o partido socialista Alemão adotara em 1875. Mostrava-se mais que nunca atento às consequencial da irradiação das idéias que formulara, ao criar a Internacional. Mas, a partir daí, sua atividade política começa a sofrer sensível redução. Em 1881, receberá mais um duro golpe: morre Jenny, a companheira e amiga, que o seguiu corajosa e infatigavelmente ao longo de sua agitada vida. Dois anos depois novo abalo: agora quem morre é a outra Jenny , sua filha. Seu estado de saúde, que já era precário, agrava-se ainda mais. Uma inflamação na garganta o impede de falar e de alimentar-se normalmente. E aos 65 anos de idade , no dia 14 de março de 1883, morre Karl Marx, o filósofo revolucionário cujas idéias influíram decisivamente nos caminhos que, daí por diante, a História Universal tomaria.