"E como disse ter sido preciso, para que fosse conhecida a virtude de Moisés, que o povo de Israel fosse escravo no Egito; para conhecer-se a grandeza de alma de Ciro, que estivessem dispersos, assim, moderadamente, desejando-se conhecer o valor de um príncipe italiano, seria preciso que a Itália chegasse ao ponto em que hoje se encontra . Que estivesse mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida do que as persas, mais dispersa que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada, invadida, e que houvesse, por fim , sofrido toda espécie de calamidades..."
"Deste modo, tendo ficado como sem vida, aguarda a Itália aquele que lhe possa curar as feridas e dê fim ao saque da Lombardia, aos tributos do reino de Nápoles e da Toscana, e que cure suas chagas já há muito apodrecidas. Percebe-se que ela pede a Deus que lhe mande alguém que a redima de tais crueldades e insolências de estrangeiros. Vê-se, mesmo, que se acha pronta e disposta a seguir uma bandeira, desde, que exista quem a levante" (O Príncipe, 1513)
Itália. Fins do século XV, ´´iniccio só século XVI. O reino de Nápoles ao sul, o Ducato de Milão a noroeste, a República aristocrática de Veneza a nordeste e no centro, a República de Florença e o Estado papal. Cinco estados que tentavam por todos os meios debilitar-se mutuamente e temiam submeter-se uns aos outros. Cidades temiam submeter-se uns aos outros. Cidades ricas e cultas, ativas e prósperas, mas desunidas, enfraquecidas militarmente, aberta à interferência estrangeira. No resto da Europa iniciava-se o processo de formação dos grandes Estados nacionais. A concepção medieval de um império europeu cristão, dirigido na parte temporal pelo imperador e na espiritual pelo papa, embora não desaparecesse, deixou de ter força. Já em 1383 Portugal, enveredava, com a Revolução de Avis pelos caminhos da monarquia nacional, que contribuiria para posterior expansão colonial portuguesa. Na Espanha, em 1469, com o casamento de Fernando e Isabel, uniram-se os reinos de Aragão e Castela, prenunciando a monarquia absoluta que permitiria ao país tornar-se uma potência comercial no correr do século seguinte. Na França, Carlos VIII (1483-1498) iniciou um processo de centralização do poder, fortalecendo o Governo real ás expensas dos grandes senhores feudais. Na Inglaterra, Henrique VII (1485-1509), iniciador da dinastia dos Tudor, deu o primeiro passo para um período de absolutismo. O século XVI despontava sob o signo da formação das grandes nações, voltadas para uma política consciente de exploração dos recursos internos, de encorajamento do comércio exterior, de desenvolvimento do poder central.
A ITÁLIA DIVIDIDA
As cidades italianas continuavam desunidas. Contribuiu para isso o peso de seu passado. Com o esfacelamento do Império Romano, a Europa voltara-se para uma economia de subsistência. O comércio regredira a níveis muito baixos. As cidades desapareceram. A vida deslocou-se para os campos; passou a ter seu centro no feudo, auto-suficiente e isolado do mundo exterior. A esse destino escaparam apenas algumas cidades italianas do litoral adriático entre elas Veneza. Incorporada ao Império Bizantino, manteve-se ativa, graças ao comércio marítimo com Constantinopla e, através dela, com o Oriente. Como o comércio romasse novo impulso a partir do século XII, novas cidades surgiram: Nápoles, Florença, Milão. Navios italianos cruzavam o Mediterrâneo. Florescia a indústria. Criavam-se bancos. A prosperidade trouxe o progresso da literatura e das belas artes. Os grandes burgueses mercadores tornaram-se patronos de arquitetos, pintores, escultores, músicos e poetas, que criaram a cultura do Renascimento. A prosperidade só não trouxe a paz e a união. Rivais no comércio, as ricas cidades viviam em guerras constantes. Minada pelas lutas intestinas, a península devia suportar ainda a cobiça estrangeira; a Alemanha, a França e a Espanha disputando entre si o rico despojo. Para isso tinham o caminho aberto. Nas guerras internas, as potências estrangeiras eram freqüentemente chamadas para dar apoio a uma das partes. Foi assim, por exemplo, que, ambicionando o Estado da Lombardia, Veneza recorreu ao rei francês Luís XIII. Mas, mesmo que quisessem, as cidades italianas não poderiam repelir os invasores. Nenhuma delas tinha um exército permanente. Suas tropas combatentes eram formadas por mercenários. Lutando por dinheiro, era comum que s bandeassem de lado, sempre que a recompensa fosse interessante. E como não lutassem por uma causa, os mercenários poupavam-se ao máximo. Verdadeiras encenações teatrais, as operações militares eram longas e indecisas, grandes exércitos lutavam durante dias inteiros sem que se perdesse uma só vida. Assim as disputas se arrastava e nenhum poder era suficientemente forte para se impor e unificar toda a península. Houve quem deplorasse o estado de coisas e defendesse ardorosamente a unificação da Itália: Nicolau Maquiavel (1469-1527), escritor e político florentino.
A EXPERIÊNCIA VIVIDA
Interessado nos problemas de seu tempo, Maquiavel participou ativamente da política de Florença. Com 29 anos, tornou-se secretario da segunda Chancelaria, uma espécie de ministério, da República de Florença durante o Governo de Piero Soderini (1498-1512). Tinha a seu cargo questões militares e de ordem interna. Realizou várias missões diplomáticas de importância envolvendo a França, Alemanha, os Estados papais e diversas cidades italianas como Milão, Pisa e Veneza. Em 1512, a família dos Medici recupera o poder perdido em 1494, quando se constituíra a república florentina. Destituído de seu cargo, Maquiavel recolhe-se ao exílio voluntário. Em 1526, ensaia uma volta: é encarregado pelo Papa Clemente VII de inspecionar as fortificações de Florença e organizar um exército permanente para sua cidade, sob o comando de Giovanni Dalle Bande Nere. A empresa malogra, e Maquiavel retira-se da vida pública.
A VIDA PASSADA A LIMPO
Abandonando a ação, não se desinteressou da política. Ela esteve sempre no centro de suas preocupações, refletida numa obra muito vasta. Numa propriedade próxima a San Casciano, no campo, inicia sua atividade de escritor político, historiador e literato. Em 1513, começa a trabalhar nos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, uma análise de República romana, onde procura, nas experiências do passado, uma solução para os problemas da Itália contemporânea. Da sua correspôndencia com o amigo Vetori, nasce a idéia de um novo livro . Interrompe a feitura dos Discursos, para escrever sua maior obra : "O Príncipe (1513), dedicado a Lourenço de Medici, antigo governante de Florença. Nela estão contidos os conhecimentos adquiridos e a experiência vivida. Disseca a formação e a conservação dos principados, o papel do governante supremo , o príncipe, sua capacidade de manter-se no poder por recursos políticos ou pela força. Em 1516, Maquiavel escreveu "Diário em Torno de Nossa Língua", procurando demonstrar a superioridade do dialeto florentino sobre os demais dialetos da Itália. Seguiram-se sete volumes da "Arte da Guerra" (1520), em forma de diálogo, onde expõe as vantagens das milícias nacionais sobre as tropas mercenárias e realiza um exaustivo estudo de estratégia e tática militar. Mas parou aí. O analista político se transforma em dramaturgo para criticar a sociedade e os costumes de seu tempo, em duas comédias: "A Mandrágora (1518) e Clizia (1525)", baseada em "Casina de Plauto", autor romano do século III a.C. Depois de "Clizia", Maquiavel tentou a novela, escrevendo "Belphagor", uma sátira ao casamento. Em 1527, Maquiavel morre deixando incompleto a História de Florença, iniciada em 1520. Obra de fôlego, deveria abranger desde a queda do Império Romano até a morte de Lourenço de Medici.
A CIÊNCIA POLÍTICA
Maquiavelismo, na linguagem comum, é sinônimo de astúcia, perfídia e maquiavélico é o indivíduo que não escolhe os meios para atingir os seus propósitos. Injusta homenagem ao escritor florentino, que nada mais fez do que sistematizar a experiência de formação dos grandes estados nacionais modernos e a atuação concreta dos governantes que os criaram. Todo seu trabalho visava a Itália. A aspiração do povo italiano , segundo ele, era a unificação política, a criação de uma nação moderna poderosa. E o importante era realizar o desejado projeto, sob qualquer forma de Governo, monarquia ou república, e por quaisquer meios, inclusive a violência. Maquiavel considerava os fatores morais, religiosos e econômicos que operavam na sociedade como forças que um governante hábil poderia e deveria utilizar para construir um estado nacional forte. Legítimo seria o Governo que realiza-se a aspiração do povo.
Assim , o príncipe deveria ser capaz de estender seu domínio sobre todas as cidades italianas, acabando de vez com a discórdia. Tal empresa só poderia ser levada a cabo com um exército nacional, sob o comando supremo do príncipe , que substituísse as precárias forças mercenárias. Maquiavel morreu sem ver seu sonho realizado: a unificação da Itália só se completaria no século XIX. Sua obra não foi capaz de transformar a realidade italiana. As cidades continuaram em disputas e a península presa fácil das nações estrangeiras. Mas ao estudar a atuação dos homens do passado e de sua época e propor formas racionais de ação, mudou a política em ciência.

