SÓCRATES

A vida de Sócrates transcorreu em tempos que foram os mais gloriosos mas também os mais difíceis para a cidade que lhe serviu de berço: Atenas. Dez anos antes de seu nascimento, a Grécia saíra milagrosamente daquele turbilhão que ameaçara desmoronar-lhe e dissipar sua já notável civilização: as guerras persas. Embora Esparta conservasse ainda o prestígio da cidade militar, foi justamente neste período que Atenas se apresentou ao cenário nacional como cidade marinheira, aquela Atenas que, antes de então, sempre tinha sido uma cidade rica somente de gênio e ousadia. Era composta de um povo de mercadores e de guerreiros, de marinheiros e artistas inovadores ao extremo e governada pelo grande Péricles, segundo as leis de Sólon. Nasceu Sócrates, no ano de 469 A.C., em Alopécia, às margens do Maratona. Seu pai, Sofrônico, era estatuário; a mãe, Fenarete era parteira. Sócrates nasceu com uma irresistível e exclusiva propensão para a vida de pensador; nascido para observar, conhecer, para refletir, tendo por único objetivo ampliar o conhecimento de si mesmo, Sócrates aproveitou-se do movimento político e da fermentação citadina que Péricles fomentara em Atenas, mas dela participou como douto, quase isolado completamente dos acontecimentos que se verificavam sob seus olhos. Bem mais perto de seu espírito estavam as conversações dos sábios, que de todos os pontos da Grécia afluíram para Atenas.

As primeiras memórias que de Sócrates nos restaram nele representam um pensador já maduro, tanto em anos como em realizações, quanto pela singularidade de seu modo de viver, quando já se tornara uma figura característica de Atenas. E não nos é difícil imaginá-los como o viram seus contemporâneos e concidadãos: trajado como um mendigo, quase sempre descalço, rodeado de uma multidão de discípulos, encantados pelo seu profundo verbo. Família, negócios, cargos públicos, eram coisas que não lhe interessavam. Ao sair da casa paterna, Sócrates, primeiro desposara Mileta, uma filha de Aristides e, depois em segundas núpcias, Xantipa. Suas condições econômicas deviam ser bem modestas. Entretanto, Sócrates vivia serenamente naquela miséria, aceitando-a completamente, contentando-se de uma ou outra ajuda de seus discípulos para recompensá-lo de seus ensinamentos. Quem, no entanto, não se contentava era Xantipa, muito modestamente tratada. De seu nome, a história nos transmitiu, talvez erradamente, não muito boa fama, até muito má, podemos dizer, pois seu nome se tornou símbolo e sinônimo de esposa briguenta e incomprensiva.

Sócrates, todavia, não fugiu aos deveres impostos pela vida pública. Hoplita que para nós equivale a soldado de infantaria, como todo cidadão ateniense apto às armas, Sócrates combateu valorosamente nas batalhas de Potideia e Anfípole. (Nas balatalhas Sócrates se distinguia pelo seu valor).
Os mais eminentes homens da cidade foram seus amigos e discípulos. Alcebíades e Crítias, Anaxágoras, Zenon, Protágoras e Platão, seguiram-lhe a orientação. Tamanho era o poder que Sócrates exercia sobre estes, que nenhum de seus discípulos podia afastar-se dele sem sentir-lhe a falta. Sócrates, que tanto soube atrair a si o coração dos homens, foi um filósofo em tudo e por tudo singular. Não lhe interessavam muito os problemas da matéria ou das coisas, mas sondava o coração dos homens e procurava descobrir a razão  por que eles agiam. Da sentença que se lia gravada no frontispício do templo de Apolo, em Delfos, "conhece-te a ti mesmo", Sócrates fez sua divisa e seu programa moral. Não se preocupou em escrever tudo quanto ia dizendo, todos os dias: ou melhor, Sócrates não deixou uma só palavra escrita. Tudo quanto dele sabemos nos foi transmitido  pelos seus discípulos. Sua sala de aulas não era a Academia, mas sim a rua, e sua vida era multiforme. Os assuntos de seus diálogos eram-lhe inspirados pelas ocasiões fortuitas, que, às vezes, se lhe apresentavam. Semelhante homem não poderia deixar de ter inimigos. Os filósofos odiavam-no e temiam-no ao mesmo tempo: o cômico Aristófanes reduziu-o a uma caricatura, em sua comédia "As Nuvens".

Em abril de 399, sob o pórtico do Arconte Re, aquele dos nove Arcontes a quem competia receber as acusações de crimes contra a religião, foi afixada esta acusação: "Acuso Sócrates como réu de irreligião, porque desconhece os deuses pátrios, e porque, em seus discursos, pratica a arte de demonstrar o falso e o justo como verdadeiro e injusto, e essa arte vai injustamente ensinando aos moços." A acusação estava assinada por Miletos, Anitos e Lícon. Na presença de 500 eleatas e de uma multidão de atenienses, Miletos sustentou sua acusação. Sócrates foi condenado à morte. Mas a sentença não podia ser imediatamente executada. Fazia pouco tempo que o navio sagrado, todo enfeitado de guirlandas, partira para Delos, em missão votiva: durante sua viagem, para obter dos deuses aspectos propícios, era proibido derramar sangue e executar sentença de morte. A vida de Sócrates dependia da sorte do barco. E este regressou trinta dias depois. Os amigos os discípulos, queriam salvá-lo da morte iminente e preparam-lhe uma fuga, mas Sócrates, coerente com o seu conceito de dever recusou segui-los. Que era para ele a liberdade física, diante da conquista  da liberdade eterna? Que era para ele a morte, já que acreditava na sobrevivência da alma, aquela alma que costuma comparar com um manto que se conserva bem, apertado de encontro ao corpo?

Certa noite, espalhou-se o boato de que o navio fora avistado por alguns romeiros, que o haviam deixado no promontório Súnio, o ponto extremo da Ática. Naquela mesma manhã, Críton foi ao cárcere e, à tarde , chegou o navio. Acorreram à cadeia todos os discípulos que se encontravam em Atenas.. Chegou o carcereiro, com a cicuta. Sócrates perguntou se poia dispor de alguma gota de veneno, para fazer uma libação aos Deuses, mas o carcereiro lhe respondeu que prepara a dose exata. Sócrates ingeriu a bebida mortal na maior serenidade. Em seu redor, pela última vez, sentaram-se os discípulos, e ainda uma vez, a última Socrates falou. O mestre exortou Fédon a não chorar. Sentindo que toxico já estava exercendo sua ação, Sócrates deitou-se no leito. Um pobre velho de 80 anos, que resistência poderia oferecer a morte?

Os ensinamentos de Sócrates foram consubstanciados para a história do pensamento humano, pelo seu discípulo Platão, o maior filósofo da antiguidade. Antes de Sócrates, os filósofos procuravam conhecer a physis, ou a natureza das coisas exteriores. Disse Sócrates: "Existe, não obstante, matéria infinitamente mais digna de meditação dos filósofos do que estas árvores e pedras e mesmo que todas aquelas estrelas: é o espírito do homem. Que é o homem e que poderá tornar-se?"

Entrou a sondar a alma humana, desvendando idéias preconcebidas e pondo em dúvida sua convicções. Se os homens se referiam à justiça, ele, calmo, perguntava: "Que é isso? Que significais com as palavras abstratas, por meio das quais explicais tão facilmente os problemas da vida e da morte? Que compreendeis por honra, virtude, moralidade patriotismo? Que compreendei por vós mesmos? Era essas as questões morais e filosóficas que Sócrates gostava de tratar. Alguns dos submetidos a este "método socrático", a estes pedidos de definições precisas e esclarecimentos das coisas e análise exata, redarguiam que ele mais perguntava do que respondia, deixando os espíritos ainda mais confusos do que antes. Todavia, Sócrates legou à Filosofia duas respostas muito precisas a dois dos nossos mais difíceis problemas: Qual a significação da virtude? e- Qual o melhor governo?

Nenhuma assunto poderia ter mais vital importância para os jovens atenienses daquela geração. Os sofistas lhes haviam destruído a primitiva fé nos Deuses do Olimpo e no código moral. Um individualismo desintegrador enfraquecera o caráter ateniense, tornando por fim a cidade presa dos espartanos, severamente educados. Dominava a cidade um governo feito com discussões do povo, a leviana escolha, demissão e execução de generais, e a escolha, sem seleção, de lavradores e mercadores por meio da ordem alfabética. Como salvar aquela geração? Sócrates tinha sua própria fé religiosa: acreditava em Deus e esperava, com a humildade habitual, que a morte não o destruiria totalmente: São de Sócrates estas palavras : "Ateu é quem diz que existe um só Deus" Isso tudo contrariava os filósofos e os mandões da época. Por isso, Sócrates foi obrigado a tomar cicuta.


"Fez descer a filosofia das nuvens e obrigou-a a permanecer entre os homens, a penetrar-lhe domesticamente os lares e a conversar com eles sobre sua normas de viver e sobre a boa ou má conduta de existência" (Cícero, falando de Sócrates sobre seu trabalho filosófico)