Leopold Mozart e Andreas Schachtner guardaram seus instrumentos. O ofício na corte do príncipe arcebispo de Saalzburgo terminara. Chegando à casa de Leopold, os dois músicos surpreenderam o pequeno Wolfgang Mozart, de cinco anos de idade, muito concentrado sobre uma folha cheia de borrões. Intrigado, Leopold perguntou ao filho o que estava fazendo. O menino respondeu simplesmente: "Estou escrevendo um concerto para cravo". A tirada divertiu seus curiosos espectadores. Entretanto, examinando de perto o insólito manuscrito, ambos se entreolharam perplexos: em meio a manchas e rabiscos no pentagrama, havia notas ordenadas com perfeição. O menino estava realmente compondo. A peça, concluída alguns meses depois, não era um concerto, mas o Minueto e Trio em Sol Maior, para Cravo.
INFÂNCIA DE UM PRODÍGIO
Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart foi batizado em Salzburgo, Áustria, a 28 de janeiro de 1756, dia seguinte do seu nascimento. Filho de músico, Wolferl, como era carinhosamente chamado, já aos quatro anos de idade descobriu o cravo e se maravilhou. Sua única irmã, Marianne, apelidada de Nannerl, cinco anos mais velha que ele, havia começado a tomar lições desse instrumento. Wolfgang acompanhava os exercícios entusiasmado. Seu interesse despertou a atenção do pai Leopold, que passou a dar-lhe aulas. O pequeno aluno aprendia depressa. Gostava de tocar as músicas de sua própria invenção. Improvisar, porém, logo deixou de satisfazê-lo. Começou, então, a anotar as idéias melódicas que lhe ocorriam. Acompanhando o rápido progresso do filho, Leopold convenceu-se de que ele possuía uma musicalidade incomum, que merecia ser desenvolvida e explorada mais intensamente. Com o pensamento no futuro, dedicou-se à formação musical de Wolfgang, que passou a um regime de estudo rigoroso e sistemático. Nannerl, por sua vez, já era exímia instrumentista.
Viagens, melhores professores e pláteias mais refinadas certamente contribuíram para a evolução de seus filhos, pensou Leopold. Munique , capital da Baviera, foi o local escolhido para as primeiras exibições dos dois pequenos prodígios, fora de Salzburgo, no início de 1762. A escolha provou ser acertada: o governante local recebeu-os para um recital que teve ótima repercussão. O êxito encorajou o pai empresário a empreender viagens mais ambiciosas. No mesmo ano, partiu para Viena, com os dois filhos. Os primeiros recitais dados por Wolfgang e Nannerl tornaram-nos figuras unanimente elogiadas pela refinada sociedade vienense. Não demorou um convite para que se apresentassem na corte.
DEPOIS DA QUEDA, O BEIJO
Palácio de Schoenbrunn, Viena. A alta aristocracia austríaca lota o luxuoso salão, aguardando o início do sarau patrocinado pela Imperatriz Maria Teresa. Um menino-prodígio vai tocar. Chegada a hora, Wolfgang entra resolutamente no salão. E acontece o imprevisto. No meio do caminho escorrega no assoalho polido, perde o equilíbrio e estatela-se no chão. A Princesinha Maria Antonieta vem logo em seu socorro. Ajudado por aquela que seria mais tarde a rainha da França, o garoto põe-se de pé e, com ingênua simplicidade, agradece a gentileza: "Você é a mais bondosa de todas. Quando eu crescer , quer casar comigo?" Em seguida, muito desembaraçadamente, beija Maria Antonieta. E ainda sob a surpresa e o riso dos presentes, dirige-se ao cravo e começa a tocar . No dia seguinte, é o assunto nos salões de Viena. Mas ele não poderá repetir as apresentações, porque logo depois de uma escarlatina o deixará de cama por um bom tempo. E o volúvel público de Viena esquece-o tão facilmente como o descobrira. Depois de um período de repouso em Salzburgo, Leopold e os filhos partem para Munique, e daí para Frankfurt, onde se apresentam em vários recitais. Mas o êxito parece ter subido a cabeça de Leopold. Ele apresenta seus filhos como se fossem fenômenos, mais empenhado em assombrar o público do que em revelar seu valor artístico. As viagens continuam. Mozart compões cada vez com mais empenho.
UM GÊNIO FASCINA A ITÁLIA
Após várias excursões, a família Mozart volta finalmente para casa, em novembro de 1765. No sossego do lar, Wolfgang compões ininterruptamente durante dois anos. Agora com onze anos, parte para Viena, em companhia do pai e da irmã, como sempre. Malfadada viagem. Além de contraírem varicela, que grassava na capital, Wolfgang e Nannerl não contam aí com o apoio dos imperadores e Leopold não obtem os lucros que esperava. Mas para o jovem Mozart a estada tem suas vantagens. Trava vários conhecimentos importantes e conquista a simpatia do príncipe arcebispo de Salzburgo, sendo contratado para servir na capela arquiepiscopal. Pouco depois, pede licença ao arcebispo e parte para a Itália, país da ópera. Torna-se membro da Academia Filarmônica Bolonhesa, embora tenha sete anos menos que os 21 exigidos pelo regulamento. As façanhas musicais de Wolfgang na Itália transformam-no em mito. Depois de receber do papa a "Cruz do Esporim de Ouro", volta a Salzburgo.
MAS O MENINO CRESCEU
Concertos, sinfonias, sonatas, óperas, missas e peças sacras mais curtas, minuetos e divertimentos avolumavam a obra de Mozart, agora homem feito, que se assina Wolfgang Amadeus Mozart. Desaparece o menino-prodígio, surge o homem: um grande músico. No seio da sociedade européia do século XVIII o musico é um criado. A serviço de um rei, um príncipe ou um bispo usa libré e toma suas refeições na copa junto com a criadagem. Casa-se ou viaja segundo as disposições de seu amo. Mozart é mestre de capela do Conde de Colloredo e começa a revoltar-se contra a situação. Exasperado, não suporta mais as humilhações pelas quais o conde lhe faz passar. Irritado, pede demissão a Colloredo em 1777 e parte, levando sua mãe. Viajam por Munique, Augsburgo, Mannheim. Nesta última cidade, conhece a jovem Aloysia Weber, por quem se apaixona. Chegando a Paris em 1778, descobre que o pequeno prodígio fora esquecido. O mundo musical da capital fancesa fecha-se a esse novo Mozart, adulto. Ele sofre com isso. Mas sofre muito mais com a morte de sua mãe depois de uma breve doença.
Então abandona Paris, e reencontra Aloysia em Munique. Rodeada de admiradores, ela o despreza. Cheio de sofrimento, retorna a Salzburgo e ao trabalho com Colloredo. Mas ficará aí por pouco tempo. Discute com o conde e acaba rompendo definitivamente. Quer ser livre, está cansado de trabalhar sob encomenda. Instala-se em casa dos Weber e casa-se com uma irmã de Aloysia, Constanze. Arranja alunos e acumula afazeres para sobrevier. A tragédia é uma constante na vida de Mozart. Em 1784, morre seu primeiro filho, com pouco mais de um ano de idade. Mas isso é apenas o começo de um novo ciclo de infelicidades que se seguirão. Repudiado pela corte e pelo público, que não compreende suas óperas, vê-se cheio de dívidas. Atormentado pelas frequentes doenças de Constanze e por sua própria saúde em declínio, tenta retomar sua vida errante. Praga, Dresden, Leipzig, Berlim.
O FIM DA VIDA
Poucos sucessos, fracassos retumbantes. Em 1791, nova indisposição obriga Constanze a passar algum tempo em Baden, numa estância. Saudoso solitário, Mozart continua compondo. Contudo as dificuldades financeiras são terríveis. Um grupo de húngaros oferece-se para contribuir anualmente com uma elevada quantia, a fim de que ele possa manter uma existência digna. Mas é tarde demais. Com o organismo minado por uma nefrite crônica sofre progressivo inchamento das pernas , que o obriga a recolher-se à cama. Mesmo deitado trabalha, na partitura de um réquiem, encomendado por misterioso personagem. Na noite de 4 de dezembro de 1791, Wolfgang Amadeus Mozart morre, sem terminar o réquiem, Sussmayer, seu fiel discípulo , completará a obra, segundo a orientação dada pelo seu compositor em seus últimos momentos.
Ao amanhecer, sob um céu ameaçador, o modesto caixão é conduzido pelas ruas por dois homens, seguidos pelo cortejo fúnebre. Mas uma violenta tempestade de neve faz com que os acompanhantes desistam da longa marcha até o cemitério. Sozinhos, os dois homens prosseguem, depositando o corpo na capela mortuária, de onde é removido, à tarde, para ser enterrado em vala comum. Quando Constanze Mozart tenta localizar o túmulo do marido para colocar uma cruz sobre ele, ninguém sabe informar-lhe o local. De Joannes Chrysostomus Wofgangus Theophilus Mozart restam o nome e uma obra a maior importância da história da música.
Mozart compôs 650 obras em toda sua vida. Ele morreu aos 35 anos de idade!

