Tinham longas barbas e por isso foram chamados de longobardos pelos surpresos cidadão do Império Romano, quando surgiram no vale do ri Pó, no início do século VI, vindos das florestas germânicas do norte. No fundo, talvez ninguém se espantasse, pois era costume bárbaro ter barbas longas e cabelos compridos, e mesmo que alguém se espantasse, não ousaria dizê-lo, nem demonstrar desprezo: os bárbaros longobardos eram muito mais fortes e, em pouco tempo, estabeleceram um reino no vale do rio Pó, com capital em Pavia. O papa, Gregório, o Grande, viu logo que nada poderia contra os poderosos intrusos. Eram cristãos, assimilavam facilmente os costumes da gente que vieram dominar, e assim foi reconhecida como legítima a sua presença no norte da Itália. Mesmo quando Carlos Magno incorporou o reino longobardo ao seu império, no fim do século VIII, os longobardos, ou lombardos, como passaram a ser chamados, mantiveram separados seus costumes, suas tradições e a sua identidade nacional. E quando os germanos do norte atacaram a península italiana, em 1176, os lombardos, já totalmente latinizados, não o hesitaram em se opor aos invasores, que derrotaram em batalha travada perto da cidade de Legnano. Sete séculos depois, esse fato histórico inspirou um grande compositor para compor uma vibrante ópera com o intuito de incentivar os seus compatriotas da Itália do Norte à luta contra os invasores germânicos que lhes ocuparam a pátria. O compositor chamava-se Giuseppe Verdi e a ópera, simplesmente "Á Batalha de Legnano". Os austríacos ocupavam então toda a parte lombarda da Itália, e o rei da Sardenha, que pretendia unificar todo o país, declarou-lhes guerra. O nome do rei: Vittorio Emmanuele. Sia aspiração, compartilhada pela nação inteira, da planície lombarda às costas calabresas: ser o rei da Itália unida. Vittorio Emmanuele Re D'Italia: as inicias formavam o nome VERDI. O compositor e sua ópera tornaram-se os mais populares símbolos da luta pela indepêndencia e unificação da Itália.
NABUCODONOSOR CONTRA A POLÍCIA
Como bons latinos, os longobardos da Idade Média lutaram contra os invasores germânicos; como bons cristãos, participaram ativamente da luta pela reconquista da Terra Santa, então sob o domínio muçulmano. Verdi conhecia os sentimentos dos italianos da Lombardia em relação aos seus antepassados. Surgiu, como novo incentivo à luta pela libertação, uma outra ópera, igualmente aplaudida: "Os Lombardos na Primeira Cruzada". Mas a polícia austríaca não pretendia tolerar por muito tempo essas atividades de protesto, encobertas pela forma artística, e Verdi recorreu a outros temas. Surgiu a ópera "Nabucodonosor", na qual narrava a escravidão do povo judeu e a sua luta pela liberdade. Talvez os austríacos não entendessem os intuitos do compositor, mas os italianos compreenderam logo. Foi mais um sucesso de Verdi. E "Joana d'Arc" foi outro, dentro da mesma linha: lembrava aos italianos a luta dos franceses contra a ocupação inglesa durante o século XIV.
UM COMPOSITOR NO PARLAMENTO
Mas nem sempre a vida de Verdi se desenvolveu entre triunfos e aplausos. Quando nasceu, em 1813, na cidade de Roncole, o ducado de Parma foi ocupado pelos franceses, e Giuseppe Fortunino Francesco foi obrigatoriamente registrado como Joseph Fortunin François. Isso em nada modificaria o seu destino, não fosse a pobreza da casa paterna. Basta dizer que, apesar do seu indiscutível talento e dos estudos musicais que lhe ministrara Ferdinando Povesi, regente da orquestra local de Roncole, Verdi não foi aceito pelo Conservatório de milão. Depois, quando atingiu o auge da fama, o diretor do Conservatório foi criticado pela falta de visão que teria fechado o caminho do maior músico italiano do século XIX, não fosse a persistência dele próprio. Dele, e da mulher, Margherita, filha do seu primeiro benfeitor, Antônio Barezzi. Mas foi exatamente quando acabava de escrever a sua primeira ópera, "Oberto, conde de San Bonifácio", que, um após o outro, morreram-lhe o filho Scilo, a filha Virgínia e a esposa, em 1840. Do amor à família que se desfez nasceu, então, o ardente amor pela pátria, que levou Verdi à glória. Quando, em 1859, se reunia pela primeira vez o parlamento da Itália que ressurgia, unificada, no cenário político europeu, entre os deputados eleitos pelo voto popular encontrava-se Giussepe Verdi, o patriota e compositor.
Desde a revolução de 1848, satisfeito com a evolução dos acontecimentos, abandonou o gênero patriótico de óperas. Escreveu então "Rigoletto", "II trovatore", "La traviata", "Un ballo in maschera", e só em 1871 deixou levar-se pela grandiosidade da inauguração do Canal de Suez, dedicando-lhe "Aída", com que atingiu o auge de sua carreira, sempre auxiliado por sua nova companheira, a soprana Giuseppina Strepponi, com quem se casou em 1859. A sua influência, ao que parece, conduziu o compositor aos temas shakespearianos. Assim surgiram as óperas "Otello" e "Falstaff". Perdeu a esposa em 1897, após anos de convívio feliz. Três anos depois falecia, a 27 de janeiro de 1901, em Milão, com a idade de 88 anos, cercado do respeito de toda a Itália, que o pranteou num sincero e longo luto nacional

