NELSON MANDELA

O ex-presidente Sul-Africano Nelson Mandela morreu aos 95 anos de complicações de uma infecção pulmonar recorrente. O estadista foi  Prêmio Nobel e anti-apartheid Nelson Mandela era uma figura querida em todo o mundo, um símbolo de reconciliação de um país com uma história brutal do racismo. Preso por conspirar para derrubar o governo do apartheid da África do Sul Mandela foi libertado da prisão em 1990, após quase 30 anos .. Em 1994, em uma eleição histórica, ele se tornou o primeiro líder negro do país. Mandela deixou o cargo em 1999, após um único mandato e se aposentou da vida política e pública.

 

História


Nelson Rolihlahla Mandela nasceu em Transkei, África do Sul, em 18 de julho de 1918, ele foi um dos estadistas e revolucionários que lideraram a luta contra o apartheid na África do Sul mais reverenciados do mundo. Advogado qualificado na University College de Fort Hare e da Universidade de Witwatersrand, Mandela serviu como o presidente da África do Sul de 1994 e 1999. Sua carreira política começou em 1944, quando ele se juntou ao Congresso Nacional Africano (ANC), e participou da resistência contra o apartheid, em seguida . Em junho de 1961, o executivo ANC aprovou sua idéia de usar táticas violentas e incentivou os membros que queriam envolver-se na campanha de Mandela. Pouco tempo depois, ele fundou a Umkhonto we Sizwe, o braço armado do ANC, e foi nomeado seu líder. Em 1962, ele foi preso e condenado por sabotagem , e foi condenado a cinco anos de prisão rigorosa. Em 1963, Mandela foi levado para ser julgado junto com muitos membros do  Umkhonto we Sizwe por conspirar contra o governo  com o uso de violência.

Condenado à prisão perpétua

Em 12 de junho de 1964, oito dos acusados, inclusive Mandela, foram condenados à prisão perpétua.
Sua declaração a partir do cais, na abertura do julgamento o tornou extremamente popular. Ele fechou sua declaração dizendo:.. "Durante toda a minha vida tenho me dedicado à luta dos povos africanos Lutei contra a dominação branca, e eu lutei contra a dominação negra tenho acalentado o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal que espero viver e alcançar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer. Mandela serviu 27 anos na prisão, passando muitos desses anos em Robben Island Prison, fora da Cidade do Cabo. Enquanto estava na prisão, sua reputação cresceu e tornou-se amplamente conhecido em todo o mundo como o líder negro mais importante na África do Sul.
Ele se tornou um símbolo proeminente da resistência com o movimento anti-apartheid ganhou impulso na África do Sul e em todo o mundo. Na ilha, ele e outros prisioneiros foram submetidos a trabalhos forçados numa pedreira de cal. A discriminação racial era galopante, e os prisioneiros eram segregados por raça  os prisioneiros negros recebiam o menor número de rações. Em fevereiro de 1985, o presidente PW Botha ofereceu a Mandela sua liberdade sob a condição de que ele rejeitaria incondicionalmente a violência como arma política, mas Mandela rejeitou a proposta. Ele fez o seu sentimento conhecido através de uma carta que ele divulgou através de sua filha. Em 1988, Mandela foi transferido para Victor Verster Prisão e permaneceria lá até a sua libertação. Ao longo de sua prisão, governo Sul-Africano sofria pressões para libertá-lo. O slogan "Libertem Nelson Mandela" se tornou o novo grito de guerra dos ativistas anti-apartheid. Finalmente, Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990 em um evento transmitido ao vivo em todo o mundo. Após a sua libertação, Mandela voltou ao trabalho de sua vida, e se esforçava para atingir os objetivos que ele e outros tinham enunciado quase quatro décadas antes. Em 1991, a primeira conferência nacional do ANC foi realizada dentro da África do Sul desde que a organização tinha sido proibida em 1960.


Presidente Mandela

Mandela foi eleito presidente do ANC, enquanto seu amigo Oliver Tambo tornou-se presidente nacional da organização. Mandela  manteve bom relacionamento com o então presidente FW de Klerk, e foram reconhecidos e premiados conjuntamente como Prêmio Nobel da Paz em 1993. A primeira eleição multirracial da África do Sul, foi realizada em 27 de abril de 1994, e viu a tempestade ANC com uma maioria de 62 por cento dos votos, e Mandela foi declarado em maio de 1994 como o primeiro presidente negro do país. Como presidente de maio de 1994 até junho de 1999, Mandela presidiu a transição do regime de minoria e apartheid, ganhando respeito internacional por sua defesa da reconciliação nacional e internacional. Mandela recebeu muitas honrarias internacionais nacionais, incluindo o Prêmio Nobel da Paz em 1993, a Ordem do Mérito da rainha Elizabeth II e com a Medalha Presidencial da Liberdade de George W. Bush. Em julho de 2004, a cidade de Joanesburgo concedeu sua mais alta honraria, concedendo a Mandela a liberdade da cidade em uma cerimônia em Orlando, Soweto. Em 1990, ele recebeu o Prêmio Ratna Bharat do governo da Índia e também recebeu a última vez Prêmio da Paz Lênin da União Soviética. Em 1992, ele foi agraciado com o Prêmio da Paz Ataturk pela Turquia. Ele recusou o prêmio citando violações dos direitos humanos cometidas pela Turquia na época, mas depois aceitou o prêmio em 1999. Também em 1992, ele recebeu o Nishan-e-Pakistan, o maior prêmio do Paquistão. A autobiografia de Mandela, "Long Walk to Freedom", foi publicada em 1994. Ele havia começado a trabalhar nela secretamente enquanto estava na prisão.


A vida amorosa de Nelson Mandela, aparentemente correm paralelas à sua vida política  e pode ser dividido em três eras principais. O jovem ativista se casou com sua primeira esposa, Evelyn Mase, em 1944. O casal, teve quatro filhos, divorciado em 1958 - pouco antes de Mandela tornou-se um fora da lei com a proibição do ANC. O segundo casamento de Mandela  e, provavelmente, o seu mais famoso - coincidiu em grande parte com o tempo que passou preso nas mãos do regime de apartheid. Em 1958, ele caminhava pelo corredor com Winnie Madikizela, que estava a seu lado e participou ativamente para libertá-lo da prisão. Winnie se tornou uma figura poderosa em seu próprio direito, enquanto Mandela estava preso, mas uma série de escândalos envolvendo Winnie  levou a separação do casal  a sua demissão de seu gabinete em 1995, o seu divórcio oficial, em 1996. O casal teve dois filhos. Winnie Mandela também foi mais tarde condenada por seqüestro. Seu terceiro casamento, com Graça Machel - a viúva do ex-presidente Moçambique Samora Machel .Com a idade de 80 anos ele entrou em seu papel de estadista mundial
Depois de uma vida dedicada à luta contra a discriminação racial e contra as injustiças sobre a população negra, o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela morreu quinta-feira, 05 de dezembro aos 95 anos, e foi enterrado ao lado dos restos mortais de três de seus filhos  foi colocado para descansar na casa de seus ancestrais em Qunu, depois de uma despedida que misturou pompa militar e os ritos tradicionais de seu clã Xhosa abaThembu.

LÊNIN

Desde 1925, uma interminável fila estende suas dobras pela Praça Vermelha de Moscou, até um edifício cúbico e simples. É gente de todo lugar: camponeses siberianos, operários ucranianos, negros de roupas coloridas, mongóis vestidos de pele, europeus, sul-americanos e mesmo nos últimos anos turistas americanos. A fila se move lenta, e todos trazem sanduíches e revistas: chega-se de manhã e só à tarde se consegue entrar pela porta. Lá dentro, na obscuridade, num esquife de vidro e sob um foco de luz vermelha, jaz um morto embalsamado. Apenas o rosto e uma das mãos aparecem. Quiseram eternizar seu corpo, mas até as múmias lentamente se desfazem em pó. Reverente é o silêncio. Entretanto, 50 anos atrás, uma multidão agitada gritava seu nome com entusiasmo, quando ele proclamou a primeira república  socialista do mundo: "Lênin!Lênin!" Lênin ou Vladimir Ilyich Ulyanov (1870-1924) nasceu em Simbirsk no Volga (atual Ulyanovsk), e tinha 17 anos quando seu irmão terrorista membro da organização  "Vontade do Povo", foi executado por tentar assassinar o Czar Alexandre III. E nesse mesmo ano ele foi preso pela primeira vez. Largou a faculdade de Direito para estudar a obra  de Marx e Engels, e em São Petesburgo, cidade depois  rebatizada como Leningrado, escreveu seu primeiro trabalho, propondo a formação de um partido operário revolucionário. Sua atividade levou-o, até 1900, ao exílio na Sibéria, onde se casou com outra jovem revolucionária deportada: Nadezhda Krupskaya. Em 1901, já na Suíça, iniciou  publicação do Iskra (Centelha), jornal que centralizaria a luta do jovem Partido Social-Democrata Russo contra o czarismo.

1905 O ENSAIO GERAL


Na guerra com o Japão (1904-1905) o colosso russo vem abaixo, guiado por generais incompetentes e burocratas corruptos. Fome e descontentamento assolam o país. Os estudantes se manifestam, os liberais pedem a constituição, os operários se rebelam. O governo apavorado concede a constituinte. Os operários de Petrogrado criam espontaneamente  um conselho próprio: "o Soviete". Um jovem audaz, de esbravejante orátoria, é seu presidente: Trotsky, que nessa época se desentendera com Lênin e voltara ilegalmente para a Rússia. Do estrangeiro Lênin acompanha a situação e incentiva seus partidários, para que  para que participem do Soviete. Quando lhe fazem ver que à  cabeça deste está seu antigo opositor Trotsky, dá de ombros: "Que importa! Ele o merece por seu trabalho". Nessa capacidade de esquecer desavenças  pessoais e compreender  as aspirações coletivas está todo o Lênin político. A revolução é esmagada, mas Lênin prediz: "1905 Voltará!"

1914 O AÇOUGUE DOS POVOS


1914. As multidões patrióticas cobrem de flores os soldados pelas ruas de todas as cidades da Europa. Contra a inteira opinião pública inclusive a de seu partido, o "bolchevista", que se separa da ala moderada dos "menchevistas", Lênin declara que o dever dos socialistas é trabalhar  pela derrota dos próprios governos: a derrota trará a Revolução. Fazem-lhe ver a terrível impopularidade desse ponto de vista. Mas ele retruca que o marxista "não tem por objetivo agradar a opinião pública mas dizer a verdade a classe operária". E rompe com todos os que pensam diferente. Em fevereiro de 1917, sua tese é confirmada: o interminável massacre da guerra espalha um vento revolucionário pela Europa. O primeiro sintoma é o levante em Petrogrado. O Czar Nicolau II abdica e constitui-se um Governo Provisório de liberais e socialistas. Lênin, na Suíça, arde de impaciência: chegar à Rússia de qualquer modo! O governo alemão acha ótimo mandar um revolucionário para a Rússia, ele poderia provocar ali uma crise interna, e oferece-lhe transporte num trem  blindado. Os bolchevistas põem as mãos na cabeça: "Mas todo mundo vai dizer que Lênin é agente alemão!" Lênin desdenha tal precaução e toma o trem. E na própria estação de chegada faz um comício que põe seus partidários em polvorosa : desautoriza a frente única com o Governo Provisório, e lança suas palavras de ordem: paz e reforma agrária já ; derrubar o Governo; todo o poder aos conselhos de operários, soldados e camponeses.

1917 O TRIUNFO DE LÊNIN


Em outubro de 1917 Lênin está foragido. O Governo colocou os bolchevistas fora da lei. Mas o povo abandonara o Governo. E na noite de 24 para 25, sob a liderança de Trtsky, eclode a insurreição. Na noite seguinte, Lênin abre o Congresso dos Sovietes de toda a Rússia para proclamar a paz imediata  e a repartição da terra. Uma imensa ovação aclama seu nome, quando ele se declara confiante na próxima vitória da revolução em toda a Europa: logo a República dos Sovietes não estaria mais sozinha. E uma das primeiras preocupações de Lênin é a fundação de uma nova organização internacional que dirija a revolução em todos os países: o Komintern (abreviação de "Internacional Comunista"), fundado em 1919, enquanto a guerra  civil e as intervenções estrangeiras convulsionam o território soviético. Todavia, as coisas não andam tão bem como de início parecia. As revoluções, uma após outra, fracassam na Europa. Alarmado, Lênin vê dentro da própria República soviética crescer uma do  deformação perigosa: a burocracia estatal, que por todos os lados empurra as massas para fora do poder. Em 1921, no Congresso do Partido, ele já denuncia esse perigo. A solução está na revolução mundial , proclama ele. Mas Lênin está cansado e sua saúde é precária. Em 1918,  num atentado, receberá dois tiros de revólver. Nunca mais se restabelecera completamente. Morre a 21 de janeiro de 1924, deixando um testamento político que durante algum tempo é ocultado por Stálin, predisse Lênin: "Esse cozinheiro só nos fará pratos apimentados."

TCHAIKOWSKY

Fim do Mundo, Quando Deus Chamava os Homens para o Céu e A Velhice de um Homem que Fala Sonhando com Sessenta Anos são os títulos dos poemas que Pyotr Ilitch Tchaikowsky compunha aos sete anos, em língua francesa. Por tão precoces aptidões, sua preceptora chamava-o "menino de vidro". Realmente era uma criança supersensível, esse segundo dos cinco filhos de Alexandra Andreievna d'Assier, senhora de origem francesa casada com Ilia Petrovitch Tchaikowsky, engenheiro de uma usina em Votkinsk, centro metalúrgico próximo à  fronteira da Sibéria, na Rússia. Nascido a 7 de maio de 1840, Pyotr viria a ser o primeiro músico dessa família, que por várias gerações tinha ocupado modestos cargos no exército e na administração Russa. E mais: viria a ser um dos músicos russos mais conhecido em todo o mundo. Desde os cinco anos Tchaikowsky dedilhava o piano, assistido pela mãe. E quando em 1850, a família se muda para São Petesburgo, depois de ter vivido dois anos em Moscou, desenvolve com bastante rapidez esses primeiros conhecimentos musicais. Cursa, aí, a Escola de Jurisprudência, de cujo coral participa, sendo tutelado, nesse período, por Modeste Vakar, um amigo da família incumbido de orientá-lo até os dezenove anos.

OS ANOS DE ANGÚSTIA


Um dos teatros de São Petesburgo levava a ópera "Don Giovanni", do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Vakar leva o pupilo ao espetáculo. A paixão de Pyotr pela música de Mozart foi instantânea. Mais tarde, descreve-o como "o Cristo da música, no qual fundem-se todos os seus precursores, tal como os raios se misturam ao próprio sol". As outras paixões do jovem era o teatro, os concertos, a participação em espetáculos amadores. Em 1854, a cólera, terr´vel infecção intestinal, rouba-lhe a mãe, com 41 anos de idade, quando ele tinha apenas catorze anos. E Tchaikowsky conheçe então sua primeira grande depressão. Ainda estudante, compõe uma ópera-cômica: Hipérbole.
Em 1859, termina os estudos de direito e ingressa no Ministério da Justiça como escriturário. A repartição era para ele uma irritação constante. E ele era na repartição um funcionário bastante extravagante. Passava todo o expediente a mascar pedaços de papel. Uma vez, enquanto conversava com um amigo, destruiu por esse processo um documento governamental de importância. Além do mais, Pyotr não suportava os comentários dos colegas de trabalho acerca de suas tendências homossexuais. Considerava-as uma tara trágica, que o expunha às críticas da sociedade. Criou-se nele um profundo sentimento de rejeição.

 E a angústia não abandonaria mais esse homem que oscilava como um pêndulo entre a euforia e a depressão profunda. Em 1861, embora a situação financeira da família já não fosse tranquilizadora, Ilia Petrovich arruinara sua fortuna depois de ficar viúvo, Tchaikowsky licencia-se do Ministério da Justiça. Na condição de secretário e tradutor de um homem de negócios, viaja pela primeira vez para o Ocidente, visitando Berlim, Hamburgo, Bruxelas, Antuérpia e Paris. Durante a viagem , decide tornar-se músico profissional, numa Rússia que não conhecia ainda tal profissão. De volta à pátria, Tchaikowsky demite-se do Ministério. Ingressa no Conservatório de São Petesburgo, fundado por Anton Grigorievitch Rubinstein. Desde o primeiro encontro, esse pianista, compositor e diretor de orquestra, que deu início a vida musical organizada na Rússia, impressiona profundamente o jovem músico. Toma aulas com ele e com N.I. Zaremba (1821-1879) e H. Laroche (1854-1904), que viria a ser crítico de música. Através dos mestres entra em contato com as escolas musicais européias de Berlim e Viena. Apaixona-se pelo trabalho de Beethoven, Weber, Mendelssohn, Chopin e Listz. E realiza suas primeiras obras: a sinfonia Sonhos de Inverno, a abertura sinfônica  A Tempestade (1865)  e dança para ópera Voievoda. Completa seus estudos no Conservatório compondo uma cantata para solo, coro e orquestra: Ode ao Júbilo.

A FACE OCIDENTAL DE TCHAIKOWSKY


O Conservatório de Moscou, fundado por Nicholas Rubinstein (1835-1881) nomeia Tchaikowsky professor de harmonia, em 1866. Aí, tem como colegas músicos europeus famosos, como K.Klindworth, H.Wieniawsky entre outros. Depois de dois anos nessa cidade, o compositor apaixona-se pela cantora Désirée Artot. Quer casar-se com ela, mas seu temperamento esquivo acaba por impedir a união. Nesse mesmo ano de 1868 entra em contato com o "Grupo dos Cinco" formado por Rimsky-Korsakow, Cesar Antonovitch Cui, Mili Alekseievitch Balakirev, Aleksandr Porphiriewitch Borodin e Modest Petrovitch Mussorgski. De tendência nacionalista, o grupo procura colocar sua música o passado histórico e as velhas tradições russas. E tenta a criação de uma música tipicamente russa. Mas Tchaikowsky formara-se num conservatório que acatava as normas da música européia. Defendia sua influência sobre a música russa. E com a mesma convicção tachava de "manifestações de ignorância" as pesquisas inovadoras feitas pelos "Cinco". Por isso as suas relações com o grupo foram sempre superficiais. Tchaikowsky simpatizava com Balakirev e Rimsky-Korsakow. Mas era declaradamente hostil a Mussorgski, que "talvez tenha mais talento que os outros, porém, é de natureza baixa, amante do grosseiro... não procura aperfeiçoar-se, e crê cegamente em seu gênio e nos heróis estúpidos de seu pequeno círculo" É o que declara, em carta à Senhora von Meck, em 1778. O Tchaikowsky conformista e o revoltado Mussorgski expressavam a complexidade dessa época da cultura russa.

O malogro com o balé Ondine é seguido pelo quase desconhecimento da estréia da abertura Romeu e Julieta. Sem público e sem dinheiro, Tchaikowsky retira-se para a casa da irmã. No período de repouso, compõe o Quarteto em Ré Maior,  Opus II. Essa obra conquista-lhe o público, e o entusiasma num intenso ritmo de trabalho. Escreve a música de cena para a peça Strovsky, em 1873, e sua terceira ópera, Oprischnk, que fala sobre à polícia secreta de Ivã o Terrível (século XVI). O êxito dessa obra coincide com o grande sucesso da sua Segunda Sinfonia,  em Moscou. E as próximas composições são músicas de cena para Branca de Neve, A Tempestade e o Quarteto N°2, em Fá Maior. Em 1874, executa o Concerto N°1, em Si Bemol Menor, Opus 23,que o popularizou definitivamente. Em 1875, apresenta sua Terceira Sinfonia, a Polonesa, e a pedido do Grande Teatro de Moscou, compõe o Lago dos Cisnes. Reerguidas suas finanças, viaja para a França para fugir à nostalgia aguda que sente em seu país. De volta a Moscou estréia o Terceiro Quartetos de Cordas. Em dezembro de 1876 Tchaikowsky recebe uma carta da riquíssima Senhora von Meck. Admiradora de sua obra, ela se propõe a doar-lhe uma pensão anual. E ambos concordam em nunca se conhecerem pessoalmente, para evitar decepções. No ano seguinte Tchaikowsky casa-se com Ivanovna Milyukova.

Depois de quinze dias de vida em comum, abandona-a e tenta suicidar-se nas águas do rio Moscou. Profundamente desequilibrado, é levado à Europa pelos irmãos. E sua esposa termina os dias num hospício. De 1877 a 1879, foram compostas suas obras mais importantes como a Quarta Sinfonia, Opus 36, dedicada a senhora von Meck, as óperas Eugene Onegin, para o romance em verso de A.Pouchkine (1799-1837), e Donzela d'Orléans.  De volta a Moscou compõe, até 1883 Missa  para Coro Misto Desacompanhado, Album de Infância e a Ópera Mazeppa. Em 1890 a Dama de Espadas e em 1891, sua última ópera  A Filha do Rei René. Em outubro de 1891, a senhora Von Meck troca Tchaikowsky por outro protegido: Claude Achille Debussy. Abalado, Tchaikowsky compõe ainda o balé A Bela Adormecida, e Quebra nozes, A Quinta Sinfonia, o poema sinfonico Hamlet  a Última Sinfonia, denominada Patética. Nesse ano vai à Inglaterra, e na Universidade de Cambridge recebe o garu honorário por seu trabalho. A essa altura , era famoso em toda a Europa. Logo depois adoece, sofrendo dores abdominais fortíssimas, uma sede incontrolável e a mais profunda depressão. Recusa-se a chamar um médico e piora dia a dia. Por fim seu irmão consegue quebrar sua resistência a tratamento. Mas Pyotr Ilitch Tchaikowsky morre a 6 de novembro de 1893. De cólera.

LUÍS VAZ DE CAMÕES

Uma dúzia de datas certas, muitos fatos duvidosos. A vida de Luís Camões, o maior poeta da língua portuguesa, chega por vezes a confundir-se com as lendas do próprio país onde nasceu. Manuel Correia, contemporâneo do "divino poeta", teria declarado no prefácio de uma das edições  de Os Lusíadas: "O autor deste livro foi Luís Vaz de Camões, português de nação nascido e criado em Lisboa..." O local de nascimento é certo,a data é que não: foi por volta de 1524. Segundo seus primeiros biógrafos, ele pertenceu a uma família de nobres estabelecida em Portugal desde a época de Dom Fernando I (segunda metade do século XIV). O próprio Camões atribui-se a condição de nobre em algumas composições po´rticas. Seu pai teria sido Simão Vaz de Camões, sua mãe morreu ao dá-lo:

 "A mãe ao próprio filha não conheça...
 Quando vim da materna sepultura
 De novo à vida, logo me fizeram
Estrelas infelices obrigado"

O fato de ter sido nobre, no entanto, não impediu que ele conhecesse a fome e a miséria, que o acompanharam até a morte.

UM POBRE NOBRE


Na Europa do século XVI, o poderio das famílias nobres apoiava-se exclusivamente no relacionamento com a corte, através da qual se obtinham os altos cargos administrativos na metrópole ou nas colônias. Esses postos constituíam as maiores fontes de enriquecimento. Os nobres que não conseguissem tal relacionamento ou que não tivessem um patrimônio hereditário considerável estavam condenados à pobreza. Nessa época, não eram raros os fidalgos miseráveis. No entanto, o orgulho na nobreza sobrevivia, por mais dramática que fosse a situação financeira. Para essa aristocracia  de corte, a riqueza não era critério que estabelecesse hierarquia social. Acreditavam pertencer a uma classe superior, pelo nome e posição. Relutavam em ser comerciantes ou em realizar trabalhos "vulgares". Almejavam, quase sempre, a carreira militar. Esse tipo de mentalidade iria refletir-se profundamente na personalidade de Camões. De berço nobre e pobre, não experimentaria outras atividades senão as de soldado e funcionário administrativo no Oriente, além daquela que deixaria seu nome para posteridade: a de poeta.

NUMA MÃO A PENA, NOUTRA A ESPADA


Aprender ofícios manuais ou dedicar-se ao comércio: essas eram as ´´unicas possibilidades oferecidas a um "vilão" pobre de Lisboa, no século XVI. Já os nobres sem dinheiro podiam seguir, como última saída não humilhante, a carreira eclesiástica; além de oferecer cultura humanística, esse caminho permitia usufruir as regalias de membro da Igreja. A erudição de Camões indica que ele provavelmente estudou Letras e Artes num colégio sacerdotal em Coimbra, onde ficava a única universidade portuguesa. Aí teria estudado os autores Gregos, assim como Virgílio, Horácio e Petrarca. Nas horas de folga começou a escrever cantigas e  a dedilhar galanteios na viola. Fidalgas, burguesas , "damas de aluguer", todas se apaixonavam por ele. Aos poucos, foi-se aproximado da corte, onde conheceu personalidades influentes. Escrevia poemas, sonetos, canções e todos o aplaudiam. Sua preparação literária o habilitaria ao acesso, com o favor dessa gente, a bons cargos no funcionalismo. No entanto, não escolheu esse caminho. Espada em punho, partiu, partiu com uma expedição a Ceuta, na África, a fim de lutar contra os mouros. Que razão o teria levado a tal empreitada? Trocar a oportunidade de enriquecimento junto ao reino por uma vida arriscada, longe dos amigos importantes que o admiravam! Aí entra a lenda, começam as suposições. A frente militar, cheia de riscos, servia na época como local de desterro. Alguns biógrafos da época aludem ao desterro de Camões como um castigo imposto por um poderoso nobre, que não poderia ver sua filha namorando um poeta pobre. alguns manuscritos falam numa Catarina de Ataíde. Ou seria Violante de Ataíde? Vários nomes surgem em sua história, muitas Catarinas, é difícil saber qual o verdadeiro amor do poeta:

"Todas formosas são, mas eu queria
 Viola ante que o lírio nem que rosa!"

Em 1552 Camões volta a Lisboa. Na luta, perdera o olho direito, mas disso não se lastima:

"E não presuma alguém que algum defeito
Quando na coisa amada se apresenta
Possa diminuir o amor perfeito..."

Sem nenhuma esperança de reconquistar o amor que o levara ao desterro, Camões retoma a antiga vida de jovem despreocupado, compondo poesias, conquistando novos amores e fazendo vários inimigos, até que, durante uma procissão de Corpus Christi, vê-se envolvido numa briga. Tentando defender uma amigo, fere um homem. Preso, consegue obter o perdão pela ofensa, mas sob uma condição: exilar-se nas Índias. Homem de trinta anos já conhecido como autor de versos e autos, Camões seria talvez o único escritor de formação humanística de seu tempo a atravessar os mares. Aventuras nas Índias só interessavam a fidalgos, que partiam  com alguma nomeação importante, ou a pobres diabos que procuravam fugir da estreiteza da vida que lhes era concedida no reino. Mas para Camões não havia escolha; e talvez até a índia representasse um meio de fugir à pobreza. ás vésperas da partida, o poeta é um homem sem ofício certo, que fala o que bem entende, numa linguagem irrespeitosa; enfim, um artista à margem da sociedade.


MORRE A AMADA  MAS SALVA-SE A OBRA


No exílio, Camões divide seu tempo entre as funções de soldado, poeta e amante. Participa de uma expedição em terra e de um cruzeiro pelo mar Vermelho. Depois de lutar em várias batalhas, chega a Macau, colônia portuguesa na China, em 1558. No começo do exílio, iniciara uma epopéia poética. Agora, ela  está quase terminada. Episódios de sua própria vida, deuses gregos, assim como feitos heróicos do passado  português, inspiraram-no para a composição em versos da história de seu povo. À epopéia dos lusos deu o nome de Os Lusíadas. Uma viagem para o Oriente significava, na época, bom negócio. Um dos primeiros biógrafos de Camões, no entanto preferiu acreditar que sua viagem a essa região tenha sido castigo. E uma fatalidade aguardava o poetas. Não na ida, mas na viagem de regresso. O barco em que viajava naufragou na foz do rio Mekong. Camões salvou-se também sua obra. Segundo a lenda, ele teria nadado até a costa sem deixar que o original de Os Lusíadas se perdesse. Num manuscrito do cronista Diogo de Couto, encontra-se a descrição do naufrágio e da salvação: "Salvaram-se todos despidos, e o Camões, por dita, escapou com  Os Lusíadas e... ali se afogou uma moça china". Essa moça, Dinamene, teria sido outro amor do poeta, aquela que o inspirou em um de seus mais conhecidos sonetos:

                 "Alma minha gentil que te partiste tão cedo desta vida descontente..."

NEM UM LENÇOL PARA MORTALHA


Em 1568, Diogo de Couto desembarcou em Moçambique (África) onde encontrou Camões vivendo de esmola. Sua epopéia, Os Lusíadas , já estava terminada. Agora o poeta trabalhava nas Líricas. Depois de um ano, os amigos conseguiram levá-lo de volta a Portugal, onde começaram a tratar de editar Os Lusíadas . Em 1572 o livro já estava na rua; num só ano foram feitas várias edições. El-Rei Dom Sebastião concedeu-lhe uma ajuda  de 15 000 réis anuais, mas acabou esquecendo de cumprir a promessa. No final de Os Lusíadas  o poeta oferecia-se para narrar em versos os feitos de Dom Sebastião na África. Este, no entanto, recusou a tarefa a outro. Triste e só, Camões caiu de novo na miséria. Relatam seus mais antigos biógrafos que seu escravo, trazido da Índia, pedia esmola á noite para sustentar o patrão. Tamanha era sua pobreza que , ao morrer, em 1580, não tinha sequer  um lençol com o qual  o amortalhassem , tendo sido enterrado em campa rasa. Mais tarde em 1594, um amigo, Dom Gonçalo Coutinho, mandou escupir-lhe uma lápide com os dizeres " Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos Poetas de seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu". Pouco depois , também a pátria morria: Portugal era incorporado à Espanha. Em 1755 um terremoto destruiria a sepultura, a lápide, os despojos de Camões. Mas, como disse o escritor espanhol Cervantes, autor de Dom Quixote, ficaram Os Lusíadas, "o tesouro de Portugal"

SÍNTESE DO RENASCIMENTO PORTUGUÊS


A vida aventurosa e cheia de dificuldades d Luís Vaz de Camões não impediu que ele assimilasse uma cultura de altíssimo nível. Conheceu a literatura antiga e a moderna da Itália e da Espanha. Familiarizou-se com a cosmografia e a geografia. Nos cronistas da época, estudou profundamente a história de seu país e sua gente. Em matéria de poesia, Camões dominou, como nenhum outro poeta português, todos os gêneros. Fez versos tradicionais, populares, líricos, redondilhas, sonetos, canções, odes, elegias, comédias, autos. Foi o primeiro português a tentar uma epopéia clássica. Com sua obra diversificada e complexa, Camões oferece uma síntese do Renascimento literário português. Sob os ecos do humanismo italiano, o Renascimento em Portugal encontrou seu ponto culminante na criação do Colégio das Artes de Coimbra, fundado em 1548. Entre os preceitos da escola, os mais signficativos e que melhor definem o vulto de Camões dentro da literatura são os seguintes: o estudo e o trabalho devem ter primazia sobra a inspiração; é necessário conhecer e tentar imitar os clássicos; crítica e autocrítica são indispensáveis, assim como o estímulo a poetas que tentem escrever uma epopéia nacional. A obra lírica de Camões oscila entre dois pontos: o lirismo confessional, onde ele, onde ele dá vazão à sua experiência íntima, e a poesia puramente artística, onde pretende desligar-se das próprias emoções para tingir o domínio da harmonia poética em si. O amor, para o poeta, é , é uma aspiração que engrandece e apura o espírito. Não deve  concretizar-se, pois corre o risco de extinguir-se: tem que ser sempre sofrimento e desejo insatisfeito. A alegria é o próprio tormento e o amor é um jogo de contrastes. No entanto, pertence ao gênero épico a obra mais importante de Camões: Os Lusíadas. Maior epopéia portuguesa e uma das grandes obras da literatura universal, esse poema tem como um eixo central a expedição de Vasco da Gama às Índias, mas reporta-se aos episódios mais importantes do passado de Portugal, resumindo assim sua história. Além disso, os conhecimentos de zoologia, geografia, astronomia e outras ciências, presentes no poema, fazem dele uma espécie de síntese do saber da época. Constituído por versos decassílabos heróicos (versos de dez sílabas com acento na sexta décima) e dividido em dez cantos, Os Lusíadas é ainda hoje apreciado e estudado por seus vários  recursos estilísticos e pela maestria de sua linguagem.

GIUSEPPE VERDI MÚSICO

Tinham longas barbas e por isso foram chamados de longobardos pelos surpresos cidadão do Império Romano, quando surgiram no vale do ri Pó, no início do século VI, vindos das florestas germânicas do norte. No fundo, talvez ninguém se espantasse, pois era costume bárbaro ter barbas longas e cabelos compridos, e mesmo que alguém se espantasse, não ousaria dizê-lo, nem demonstrar desprezo: os bárbaros longobardos eram muito mais fortes e, em pouco tempo, estabeleceram um reino no vale do rio Pó, com capital em Pavia. O papa, Gregório, o Grande, viu logo que nada poderia contra os poderosos intrusos. Eram cristãos, assimilavam facilmente os costumes da gente que vieram dominar, e assim foi reconhecida como legítima a sua presença no norte da Itália. Mesmo quando Carlos Magno incorporou o reino longobardo ao seu império, no fim do século VIII, os longobardos, ou lombardos, como passaram a ser chamados, mantiveram separados seus costumes, suas tradições e a sua identidade nacional. E quando os germanos do norte atacaram a península italiana, em 1176, os lombardos, já totalmente latinizados, não o hesitaram em se opor aos invasores, que derrotaram em batalha travada perto da cidade de Legnano. Sete séculos depois, esse fato histórico inspirou um grande compositor para compor uma vibrante ópera com o intuito de incentivar os seus compatriotas da Itália do Norte à luta contra os invasores germânicos que lhes ocuparam a pátria. O compositor chamava-se Giuseppe Verdi e a ópera, simplesmente  "Á Batalha de Legnano". Os austríacos ocupavam então toda a parte  lombarda da Itália, e o rei da Sardenha, que pretendia unificar todo o país, declarou-lhes guerra. O nome do rei: Vittorio Emmanuele. Sia aspiração, compartilhada pela nação inteira, da planície lombarda às costas calabresas: ser o rei da Itália unida. Vittorio Emmanuele Re D'Italia:  as inicias formavam o nome VERDI. O compositor e sua ópera tornaram-se os mais populares símbolos da luta pela indepêndencia e unificação da Itália.

NABUCODONOSOR CONTRA A POLÍCIA


Como bons latinos, os longobardos da Idade Média lutaram contra os invasores germânicos; como bons cristãos, participaram ativamente da luta pela reconquista da Terra Santa, então sob o domínio muçulmano. Verdi conhecia os sentimentos dos italianos da Lombardia em relação aos seus antepassados. Surgiu, como novo incentivo à luta pela libertação, uma outra ópera, igualmente aplaudida: "Os Lombardos na Primeira Cruzada". Mas a polícia austríaca não pretendia tolerar por muito tempo essas atividades de protesto, encobertas pela forma artística, e Verdi recorreu a outros temas. Surgiu a ópera "Nabucodonosor", na qual narrava a escravidão do povo judeu e a sua luta pela liberdade. Talvez os austríacos não entendessem os intuitos do compositor, mas os italianos compreenderam logo. Foi mais um sucesso de Verdi. E "Joana d'Arc" foi outro, dentro da mesma linha: lembrava aos italianos a luta dos franceses contra a ocupação inglesa durante o século XIV.

UM COMPOSITOR NO PARLAMENTO


Mas nem sempre a vida de Verdi se desenvolveu entre triunfos e aplausos. Quando nasceu, em 1813, na cidade de Roncole, o ducado de Parma foi ocupado pelos franceses, e Giuseppe Fortunino Francesco foi obrigatoriamente registrado  como Joseph Fortunin François. Isso em nada modificaria o seu destino, não fosse a pobreza da casa paterna. Basta dizer que, apesar do seu indiscutível talento e dos estudos musicais que lhe ministrara Ferdinando Povesi, regente da orquestra local de Roncole, Verdi não foi aceito pelo Conservatório de milão. Depois, quando atingiu o auge da fama, o diretor do Conservatório foi criticado pela falta de visão que teria fechado o caminho do maior músico italiano do século XIX, não fosse a persistência dele próprio. Dele, e da mulher, Margherita, filha do seu primeiro benfeitor, Antônio Barezzi. Mas foi exatamente quando acabava de escrever a sua primeira ópera, "Oberto, conde  de San Bonifácio", que, um após o outro, morreram-lhe o filho Scilo, a filha Virgínia e a esposa, em 1840. Do amor à família que se desfez nasceu, então, o ardente amor pela pátria, que levou Verdi à glória. Quando, em 1859, se reunia pela primeira vez o parlamento da Itália que ressurgia, unificada, no cenário político europeu, entre os deputados eleitos pelo voto popular encontrava-se Giussepe Verdi, o patriota e compositor.

Desde a revolução de 1848, satisfeito com a evolução dos acontecimentos, abandonou o gênero patriótico de óperas. Escreveu então "Rigoletto", "II trovatore", "La traviata", "Un ballo in maschera", e só em 1871 deixou levar-se pela grandiosidade da inauguração do Canal de Suez, dedicando-lhe "Aída", com que atingiu o auge de sua carreira, sempre auxiliado por sua nova companheira, a soprana Giuseppina Strepponi, com quem se casou em 1859. A sua influência, ao que parece, conduziu o compositor aos temas shakespearianos. Assim surgiram as óperas "Otello" e "Falstaff". Perdeu a esposa em 1897, após anos de convívio feliz. Três anos depois falecia, a 27 de janeiro de 1901, em Milão, com a idade de 88 anos, cercado do respeito de toda a Itália, que o pranteou num sincero e longo luto nacional

ALFRED NOBEL

Nos primeiros anos de século XIX,  Estocolmo era uma cidade silenciosa, não muito grande, habitada, na maior parte, por abastados comerciantes suecos e noruegueses, que dominavam todo o movimento de permutas comercias entre a Europa do Norte e a Rússia. Era uma cidade que se ia estendendo progressivamente, enquanto as primeiras indústrias surgiam no limiar dos vastos bosques, e nos estaleiros trabalhava-se àlacremente em torno das "modernas" construções navais. Justamente neste período de evolução e de desenvolvimento nascia, em 21 de outubro de 1833, Alfred Nóbel. O pai, um engenheiro muito estimado pela sua viva inteligência e empreendimento, dedicara-se, desde vários anos, ao estudo de explosivos, de sua composição química e seus efeitos. E, entre outras coisas, conseguira fabricar o primeiro tipo de uma "mina submarina", um engenho de guerra sobre o qual já haviam posto os olhos diversas nações a fim de se apropriarem da invenção. Era ainda muito criança o pequeno Alfred Nobel, quando a Rússia ofereceu a seu pai a possibilidade de transferir-se para São Petesburgo, a fim de ali construir um estabelecimento para a produção, em grande estilo, de minas. Era o destino de Alfredo Nóbel:nascer, crescer e viver entre explosivos de toda espécie! E era  natural que, ao tornar-se adulto, se dedicasse ao estudo dessa matéria. Iniciados os estudos em Estocolmo, precisou , precisou prossegui-los em São Petesburgo, quando o pai resolveu transferir-se para lá mas conclui-os nos Estados Unidos, aonde fora enviado, para aperfeiçoar-se em engenharia mecânica.

A profunda genialidade de Alfred não demorou muito em revelar-se. Guiado pela experiência e pelo amor paterno e iniciados os estudos nessa particular matéria, que parecia ser uma tradição familiar, bem cedo o rapaz teve seu nome no noticiário dos jornais e revistas especializadas, devido a algumas invenções nos vários campos da mecânica. Não alcançara ainda os vinte anos, quando tirou uma patente para um gasômetro especial e um novo tipo de medidor de água. Infelizmente, um triste período estava por chegar aos Nóbel. Cessadas as Guerras que haviam atormentado as primeiras décadas do século, desaparecidas as exigencias de caráter militar, que haviam induzido a Rússia a chamar para junto de si o inventor sueco, a própria Rússia decidiu suspender a fabricação de minas submarinas e fechar o estabelecimento. Não lhes restava outra coisa senão retornar á Suécia e prosseguir, na sua pátria, as experiências. Alfred, com o pai, e o irmão, resolveu tentar a fabricação da "nitroglicerina", coisa que ninguém até então conseguira, devido aos  sérios perigos existentes na fabricação da mesma. Tratava-se, realmente, de um explosivo sensibílissimo, estudado pouco antes pelo químico italiano Ascânio Sobrero (1812-1888), autor da aplicação na dinamite na agricultura.

Parecia que o êxito já sorrisse aos arrojados inventores, quando, uma grave desgraça levou à família Nóbel. A imprudência de alguns operários, que trabalhavam no estabelecimento recém-criado , provocou uma terrível explosão, que fez voar pelos ares toda a fábrica, matando vários homens, entre os quais o irmão de Alfredo. Este foi o momento mais crítico, tanto do ponto de vista moral como econômico para o jovem cientista. Sozinho, sem qualquer auxílio, sem dinheiro, Nóbel foi obrigado, para prosseguir os estudos, a alugar um barco e transformá-lo em laboratório, recomeçando, com fé e coragem, as experiências sobre a nitroglicerina. Seu primeiro sucesso  foi a abertura de uma fábrica, na Alemanha, seguida ebm depressa por outra , na Suécia. Mas o atormentava incessantemente o grave perigo latente, nesse tipo de explosivo tão sensível. Foi assim que lhe veio a idéia de misturar a nitroglicerina com uma substância bastante absorvente e inerte. Nascia, assim, graças a Alfred Nóbel, a dinamite, muito mais segura no emprego do que a nitroglicerina, explosivo que seria empregado, no futuro, tanto para fins bélicos como pacíficos. A patente tem a data de 10 de setembro de 1867. A descoberta põe em polvorosa o mundo todo, porque se viu logo que vantagens importantíssimas a dinamite trazia consigo. Especialmente para a construção  de túneis, galerias, trabalhos nas minas, a dinamite se revelou apta a resolver os mais difíceis problemas.

Para poder satisfazer a todas as encomendas que lhe chegavam de todos os recantos do mundo, Nóbel precisou construir mais fábricas, na Europa. Mas o sucesso não o desviou dos estudos nem das experiências: acrescentando aos explosivos obtidos outros materiais, consegue fabricar outros tipos de explosivos, como a "dinamite gelatina" e a "balistite", cuja patente foi cedida ao governo italiano, após o francês ter recusado. Este último fato, aparentemente sem importância, marca, ao invés, o início de uma série de acontecimentos que revolucionaram a vida de Nóbel. Justamente quando sua descobertas principiam a proporcionar-lhe lucros cada vez mais altos, até torna-lo  um dos homens mais ricos de seu tempo, uma campanha hóstil é inciada, na França, contra o inventor. Os jornais, os políticos, os meios industriais e comerciais atribuem a Nóbel a responsabilidade dos horrores de uma nova guerra, fingindo olvidar as maravilhosas obras que a dinamite  e outros explosivos, inventados pelo cientista sueco, haviam tornado possível, quando empregados em obras pacíficas. Fingiam ignorar que Nóbel trabalhara para a ciência e não para a guerra e se esqueciam de que ele mesmo embora iludido, esperara conseguir, com sua obra e seu gênio, afastar o perigo de novos conflitos. Como teria sido possível executar trabalhos do porte da perfuração do monte Sempione, da galeria do Gotardo, o primeiro com 20 quilômetros de comprimento e o segundo com 15, sem a dinamite?

Em 1831, Nóbel encontra-se em Paris. Certa manhã ao abrir o jornal, lê, estarrecido, a notícia de sua morte, em grandes manchetes. Tinha sido, evidentemente, uma notícia falsa do começo ao fim, porém, o que mais o choca e o inunda de mágoa é assistir ao coro unânime dos ásperos comentários da imprensa francesa. Houve quem chegasse a defini-lo "gênio maléfico", outros o chamavam de "autodidata da destruição", e quase com uma sensação de alivio, todos afirmavam: "finalmente desapareceu do mundo civilizado um homem que transcorreu sua vida a fim de encorajar a humanidade para a guerra e chegar a destruí-la" Nóbel, ante uma tão injusta difamação, resolve abandonar imediatamente a França e estabelece residência em São Remo, onde continua seus estudos, realizando novas descobertas, mesmo em outros setores da química e da física. A ação de seus inimigos, porém ferira-lhe a alma de tal modo que sua saúde ficou abalada. Em 1895, após ter dedicado toda sua existência ao progresso da ciência, percebe que, em redor de si criara-se uma atmosfera de aversão e de injusta incrompeensão. Ele faz  testamento e resolve fundar, com sua imensa riqueza, uma instituição que se tornaria universalmente famosa, sob o nome de "Prêmio Nóbel". Tomara tal resolução, ao que parece, para afastar, com a  admiração da posteridade, o ódio que seus contemporâneos da posteridade, o ódio que seus contemporâneos nutriam contra ele. No ano seguinte, em 1896, Alfredo Nóbel, entre o desencadear das polêmicas sobre sua pessoa, as quais pareciam não ter fim, entrega a alma ao Criador, em São Remo.

Dele permanecem as grandes descobertas e invenções, sua vida de cientista e estudioso, o exemplo de uma personalidade forte e corajosa e, afinal , a instituição por ele  almejada, com toda sua riqueza. Trata-se de prêmios a ser distribuídos todos os anos, sem distinção de nacionalidade, para a mais importante  descoberta no campo da fisíca, da química e da medicina; para obra literária que mais se distinguiu pelas suas tendências e ideais elevados e para quem mais e melhor trabalhou pela confraternização dos povos, pela supressão dos exércitos permanentes , numa palavra , pela paz! O prêmio é concretizado numa espécie de diploma simbólico e numa importância em dinheiro considerável. A distribuição dos prêmios é feita por diversas instituições. Nóbel deixou seu legado para o mundo apesar de suas invenções ainda serem usadas em guerras, suas descobertas proporcionou evoluções grandiosas no campo da ciência. Alfred Nóbel é um verdadeiro gênio da humanidade.

SÓCRATES

A vida de Sócrates transcorreu em tempos que foram os mais gloriosos mas também os mais difíceis para a cidade que lhe serviu de berço: Atenas. Dez anos antes de seu nascimento, a Grécia saíra milagrosamente daquele turbilhão que ameaçara desmoronar-lhe e dissipar sua já notável civilização: as guerras persas. Embora Esparta conservasse ainda o prestígio da cidade militar, foi justamente neste período que Atenas se apresentou ao cenário nacional como cidade marinheira, aquela Atenas que, antes de então, sempre tinha sido uma cidade rica somente de gênio e ousadia. Era composta de um povo de mercadores e de guerreiros, de marinheiros e artistas inovadores ao extremo e governada pelo grande Péricles, segundo as leis de Sólon. Nasceu Sócrates, no ano de 469 A.C., em Alopécia, às margens do Maratona. Seu pai, Sofrônico, era estatuário; a mãe, Fenarete era parteira. Sócrates nasceu com uma irresistível e exclusiva propensão para a vida de pensador; nascido para observar, conhecer, para refletir, tendo por único objetivo ampliar o conhecimento de si mesmo, Sócrates aproveitou-se do movimento político e da fermentação citadina que Péricles fomentara em Atenas, mas dela participou como douto, quase isolado completamente dos acontecimentos que se verificavam sob seus olhos. Bem mais perto de seu espírito estavam as conversações dos sábios, que de todos os pontos da Grécia afluíram para Atenas.

As primeiras memórias que de Sócrates nos restaram nele representam um pensador já maduro, tanto em anos como em realizações, quanto pela singularidade de seu modo de viver, quando já se tornara uma figura característica de Atenas. E não nos é difícil imaginá-los como o viram seus contemporâneos e concidadãos: trajado como um mendigo, quase sempre descalço, rodeado de uma multidão de discípulos, encantados pelo seu profundo verbo. Família, negócios, cargos públicos, eram coisas que não lhe interessavam. Ao sair da casa paterna, Sócrates, primeiro desposara Mileta, uma filha de Aristides e, depois em segundas núpcias, Xantipa. Suas condições econômicas deviam ser bem modestas. Entretanto, Sócrates vivia serenamente naquela miséria, aceitando-a completamente, contentando-se de uma ou outra ajuda de seus discípulos para recompensá-lo de seus ensinamentos. Quem, no entanto, não se contentava era Xantipa, muito modestamente tratada. De seu nome, a história nos transmitiu, talvez erradamente, não muito boa fama, até muito má, podemos dizer, pois seu nome se tornou símbolo e sinônimo de esposa briguenta e incomprensiva.

Sócrates, todavia, não fugiu aos deveres impostos pela vida pública. Hoplita que para nós equivale a soldado de infantaria, como todo cidadão ateniense apto às armas, Sócrates combateu valorosamente nas batalhas de Potideia e Anfípole. (Nas balatalhas Sócrates se distinguia pelo seu valor).
Os mais eminentes homens da cidade foram seus amigos e discípulos. Alcebíades e Crítias, Anaxágoras, Zenon, Protágoras e Platão, seguiram-lhe a orientação. Tamanho era o poder que Sócrates exercia sobre estes, que nenhum de seus discípulos podia afastar-se dele sem sentir-lhe a falta. Sócrates, que tanto soube atrair a si o coração dos homens, foi um filósofo em tudo e por tudo singular. Não lhe interessavam muito os problemas da matéria ou das coisas, mas sondava o coração dos homens e procurava descobrir a razão  por que eles agiam. Da sentença que se lia gravada no frontispício do templo de Apolo, em Delfos, "conhece-te a ti mesmo", Sócrates fez sua divisa e seu programa moral. Não se preocupou em escrever tudo quanto ia dizendo, todos os dias: ou melhor, Sócrates não deixou uma só palavra escrita. Tudo quanto dele sabemos nos foi transmitido  pelos seus discípulos. Sua sala de aulas não era a Academia, mas sim a rua, e sua vida era multiforme. Os assuntos de seus diálogos eram-lhe inspirados pelas ocasiões fortuitas, que, às vezes, se lhe apresentavam. Semelhante homem não poderia deixar de ter inimigos. Os filósofos odiavam-no e temiam-no ao mesmo tempo: o cômico Aristófanes reduziu-o a uma caricatura, em sua comédia "As Nuvens".

Em abril de 399, sob o pórtico do Arconte Re, aquele dos nove Arcontes a quem competia receber as acusações de crimes contra a religião, foi afixada esta acusação: "Acuso Sócrates como réu de irreligião, porque desconhece os deuses pátrios, e porque, em seus discursos, pratica a arte de demonstrar o falso e o justo como verdadeiro e injusto, e essa arte vai injustamente ensinando aos moços." A acusação estava assinada por Miletos, Anitos e Lícon. Na presença de 500 eleatas e de uma multidão de atenienses, Miletos sustentou sua acusação. Sócrates foi condenado à morte. Mas a sentença não podia ser imediatamente executada. Fazia pouco tempo que o navio sagrado, todo enfeitado de guirlandas, partira para Delos, em missão votiva: durante sua viagem, para obter dos deuses aspectos propícios, era proibido derramar sangue e executar sentença de morte. A vida de Sócrates dependia da sorte do barco. E este regressou trinta dias depois. Os amigos os discípulos, queriam salvá-lo da morte iminente e preparam-lhe uma fuga, mas Sócrates, coerente com o seu conceito de dever recusou segui-los. Que era para ele a liberdade física, diante da conquista  da liberdade eterna? Que era para ele a morte, já que acreditava na sobrevivência da alma, aquela alma que costuma comparar com um manto que se conserva bem, apertado de encontro ao corpo?

Certa noite, espalhou-se o boato de que o navio fora avistado por alguns romeiros, que o haviam deixado no promontório Súnio, o ponto extremo da Ática. Naquela mesma manhã, Críton foi ao cárcere e, à tarde , chegou o navio. Acorreram à cadeia todos os discípulos que se encontravam em Atenas.. Chegou o carcereiro, com a cicuta. Sócrates perguntou se poia dispor de alguma gota de veneno, para fazer uma libação aos Deuses, mas o carcereiro lhe respondeu que prepara a dose exata. Sócrates ingeriu a bebida mortal na maior serenidade. Em seu redor, pela última vez, sentaram-se os discípulos, e ainda uma vez, a última Socrates falou. O mestre exortou Fédon a não chorar. Sentindo que toxico já estava exercendo sua ação, Sócrates deitou-se no leito. Um pobre velho de 80 anos, que resistência poderia oferecer a morte?

Os ensinamentos de Sócrates foram consubstanciados para a história do pensamento humano, pelo seu discípulo Platão, o maior filósofo da antiguidade. Antes de Sócrates, os filósofos procuravam conhecer a physis, ou a natureza das coisas exteriores. Disse Sócrates: "Existe, não obstante, matéria infinitamente mais digna de meditação dos filósofos do que estas árvores e pedras e mesmo que todas aquelas estrelas: é o espírito do homem. Que é o homem e que poderá tornar-se?"

Entrou a sondar a alma humana, desvendando idéias preconcebidas e pondo em dúvida sua convicções. Se os homens se referiam à justiça, ele, calmo, perguntava: "Que é isso? Que significais com as palavras abstratas, por meio das quais explicais tão facilmente os problemas da vida e da morte? Que compreendeis por honra, virtude, moralidade patriotismo? Que compreendei por vós mesmos? Era essas as questões morais e filosóficas que Sócrates gostava de tratar. Alguns dos submetidos a este "método socrático", a estes pedidos de definições precisas e esclarecimentos das coisas e análise exata, redarguiam que ele mais perguntava do que respondia, deixando os espíritos ainda mais confusos do que antes. Todavia, Sócrates legou à Filosofia duas respostas muito precisas a dois dos nossos mais difíceis problemas: Qual a significação da virtude? e- Qual o melhor governo?

Nenhuma assunto poderia ter mais vital importância para os jovens atenienses daquela geração. Os sofistas lhes haviam destruído a primitiva fé nos Deuses do Olimpo e no código moral. Um individualismo desintegrador enfraquecera o caráter ateniense, tornando por fim a cidade presa dos espartanos, severamente educados. Dominava a cidade um governo feito com discussões do povo, a leviana escolha, demissão e execução de generais, e a escolha, sem seleção, de lavradores e mercadores por meio da ordem alfabética. Como salvar aquela geração? Sócrates tinha sua própria fé religiosa: acreditava em Deus e esperava, com a humildade habitual, que a morte não o destruiria totalmente: São de Sócrates estas palavras : "Ateu é quem diz que existe um só Deus" Isso tudo contrariava os filósofos e os mandões da época. Por isso, Sócrates foi obrigado a tomar cicuta.


"Fez descer a filosofia das nuvens e obrigou-a a permanecer entre os homens, a penetrar-lhe domesticamente os lares e a conversar com eles sobre sua normas de viver e sobre a boa ou má conduta de existência" (Cícero, falando de Sócrates sobre seu trabalho filosófico)

ARQUIMEDES

No ano 212 antes de Cristo, toda Roma se acotovelava pelas ruas e praças a fim de aplaudir a volta do cônsul Marcelo, que, apôs três anos de penosíssimo assédio, conseguira, finalmente, submeter ao jugo da República a poderosa cidade de Siracusa. Entretanto, no semblante de Marcelo poder-se-ia vislumbrar uma sombra de melancolia: contrariando suas ordens, um soldado romano matara aquele que, tendo inventado  novos sistemas de fortificações e máquinas bélicas de enorme poder, fizera de Siracusa uma rocha quase que inexpugnável. O incauto soldado encontrara um ancião de setenta e cinco anos, completamente abstraído ao que se passava  em seu redor, entretido em cálculos e fórmulas e, irritado ao ver tamanha indiferença, ignorando a identidade do sábio, assestara-lhe um golpe mortal. Esse homem, esse inimigo de Marcelo, que, tal como todos os Romanos, tanto admirirava e desejava  preserva-lhe a vida, era Arquimedes, o insigne cientista, a quem , séculos mais tarde , o próprio Galileu Galilei chamaria de seu Mestre. Ele ao que parece, de família humilde, como escreveu Cicerone em sua "Tusculante", talvez ligado por laços de parentesco ao tirano, como afirmou Plutarco. Depois de haver aprendido tudo quanto lhe podiam ensinar os doutos de Siracusa, que eram assaz versados em matemática e filosofia ( as duas ciências da antiguidade eram quase sempre estudadas em conjunto), Arquimedes viveu por algum tempo em Alexandria, no Egito, o mais importante centro cientifico da antiguidade, de modo  que, ao voltar para Siracusa, podia considerar-se o mais ilustrado e culto cidadão da urbe.

Embora fosse especialmente apaixonado pelos estudos de geometria e astronomia (ele chegou a enunciar teoremas importantes acerca da esfera  e do cilindro, e a efetuar cálculos adequados para determinar a medida do círculo , a definir  como suficiente aproximação os diâmetros da Lua e do Sol, sua distancia da Terra, a ordem e a distância dos planetas), genialíssimo, inventor, dotado de espírito surpreendentemente prático, e disso  bem se apercebeu Hirião, que sempre o quis  perto de si, confiando-lhe incumbências geralmente de suma gravidade. Havia ele voltado fazia pouco tempo  de Siracusa, quando Hirião o encarregou de superintender a construção de um navio, o maior que fora visto até então, destinado a presentear Ptolomeu Evergeta. Com o auxílio de um verdadeiro exército de operários, Arquimedes arcabouçou um navio de tamanho porte que, somente pra a construção do casco, necessitou  de tanta madeira quanta seria necessária para a construção de sessenta galeras, e a fez rica de jardins, de palestras,  de piscinas, de cocheiras, além de dotada de armamento propositadamente confeccionado. Ao atônito Hirião que, terminada a construção , fora admirar o novo barco, Arquimedes reservara, entretanto, uma surpresa ainda maior: partindo de um princípio de física por ele pela primeira vez formulado, segundo o qual dado um ponto de apoio é possível levantar qualquer peso, Arquimedes conseguira montar um sistema de cabestrantes e roldanas móveis, denominado "trocóideo", que lhe permitia lançar ao mar o navio, sem a ajuda de ninguém, mas valendo-se unicamente de suas próprias forças. Após a invenção da "trocóideo", que era um conjunto de engenhos usados ainda hoje, surgiu outra, pouco tempo depois, de que se beneficiou todo o Egito. Convidado pelos Ptlolomeus para  dirigir os trabalhos  que estavam executando no Vale do Nilo , a fim de prevenir  os danos ingentíssimos que o rio provocava em suas inundações anuais, Arquimedes não só provindenciou em dotar as margens com diques e ligar os dois lados do rio por meio de numerosas pontes, mas introduziu, também, o uso de um engenho especial por ele inventado e chamado "cóclea" que se demonstrou  de grande utilidade, seja para irrigar os terrenos  mais distantes do Nilo, seja para secar  aqueles  que durante muito tempo permaneciam  submersos pelas águas lamacentas.

A um curioso episódio, que lhe ocorrera quando estava em Siracusa, Arquimedes deveu a intuição de um dos mais fecundos princípios  da hidrostática. Hirião, suspeitando que um ourives, ao qual encomendara uma coroa de ouro uma certa quantidade de prata, consultou, um dia, Arquimedes sobre a maneira de descobrir essa fraude, sem danificar a coroa. O ilustre cientista meditou longamente sobre o problema , mas não conseguiu encontrar alguma solução. Certo dia, enquanto se encontrava na banheira, ocorreu-lhe perceber que seu corpo, imerso na água, perdia consideravelmente peso e que, quanto mais mergulhava, muito mais água era deslocada. Destas observações, como fulmínea intuição, deduziu um famoso princípio,  conhecido como " Príncipio de Arquimedes", segundo om qual "todos os corpos , imersos num líquido , perdem uma parte de seu peso, proporcional à quantidade do líquido deslocado. Narra-se que Arquimedes, no auge do entusiasmo que lhe causou tal descoberta, saiu da banheira e se lançou pela rua gritando EUREKA, EUREKA, ! (ACHEI, ACHEI!). Na verdade, ele descobrira a maneira de determinar o peso o ouro e da prata , tomando como unidade de medida a água , processo que permitiu descobrir o engano do ourives sem prejudicar a coroa.

Além deste principio, que ele só já bastaria para garantir a Arquimedes uma fama imperecível, no campo da física ( sobre ele se baseiam , de fato , todas as regras que orientam as construções dos objetos que flutuam), muitas foram as descobertas e as invenções do grande siracusano. Recordemos, por exemplo, o relógio solar, cuja a invenção lhe é atribuída por muitos autores, o órgão hidráulico (um instrumento musical acionado pela água), a roda dentada o parafuso sem fim  e algumas invenções mecânicas aptas para facilitar as operações cirúrgicas e, finalmente, detalhe curioso na vida de um cientista o "lóculo arquimedeo", um jogo muito em voga no passado , do qual deriva o famoso "puzzle", que é um jogo de paciência. Atribui-se ainda, a ele um sistema de lentes , cujos reflexos ao sol tinham a faculdade de provocar incêndios a distância, visando, com isso, destruir as galeras romanas inimigas. Muitos dos numerosos tratados escritos por Arquimedes chegaram até nossos dias. Embora fragmentados e em certos pontos ilegíveis devido ás avarias do tempo, pela sua prosa nítida e concisa, relevam-nos ter sido somente escritos por um cientista do porte de Arquimedes, que, em sua mocidade, aprofundara os estudos literários. Entre esses preceitos, destacavam-se: "Os princípios da matemática" , "Da esfera e do cilindro", "A medida do círculo", nos quais são ventilados problemas de álgebra e de geometria, e expostos teoremas ainda hoje ensinados nos cursos elementares e médios. "Dos Flutuantes", em que se anunciam princípios fundamentais de hidrostática, e "O arenário", compêndio de ciência astronômica

QUEM FOI KARL MARX

"É um homem de vida extremamente desorganizada: não tem hora para levantar nem para se deitar. Frequentemente, passa  as noites em claro. Depois, ao meio-dia, deita-se num sofá e dorme até anoitecer, sem se preocupar com as pessoas que estão sempre entrando em sua casa. "Sua esposa é uma mulher culta e simpática, que se acostumou à miséria e a essa vida boêmia. Tem duas filhas e um filho, menino muito bonito. "Quando as pessoas entram na casa, são envolvidas por uma nuvem de fumaça e se vêem obrigadas a caminhar cautelosamente, como se estivessem numa caverna. Nada disso o constrange, nem à sua mulher; os dois recebem os visitantes com amabilidade, trazendo-lhes fumo e alguma coisa para beber. Uma conversa inteligente e amável acaba, então, por compensar as deficiências da casa, tornando suportável sua falta de conforto." Esse relatório, feito por um agente policial que frequentou a casa de Karl Marx em Londres, em 1852, termina dizendo que a descrição era "um quadro fiel da vida familiar do chefe comunista Karl Marx." Efetivamente, não se tratava de uma descrição tão fiel assim, já que omitia  detalhes  importantes sobre as reais condições em que o filósofo vivia em Londres. Certamente, o policial desconhecia uma carta escrita por Marx a seu amigo Engels, nesse mesmo ano de 1852: "Minha mulher está doente. Minha filha Jenny está doente. Heleninha (a fiel criada de sua mulher) está com uma espécie de febre nervosa. Não pude, e não posso, chamar o médico, por falta de dinheiro para os remédios. Há oito dias que alimento minha família unicamente com pão e batata. E não sei se vou poder comprar o pão e batata para hoje." Mas de qualquer forma, o relatório fixa um instante da vida de Marx, servindo como documento valioso para recompor o mosaico de sua biografia.

HEGEL, O MESTRE


Estamos em 1835, em Treves, cidade ao sul da Prússia Renana, junto as fronteiras da França. Karl Marx nasceu aí, dezessete anos atrás. Agora, ele está concluindo o curso no ginásio local, feito com alguma dificuldade: seu pai, livre-pensador familiarizado com os teóricos da Revolução Francesa; e sua mãe, mulher de espírito limitado, sempre voltadas para problemas de ordem prática, viviam em situação incômoda. O governo absolutista de Frederico Guilherme III perseguia os judeus, e os pais de Karl eram descendentes de judeus. Karl Marx  é um rapaz calado. Um de seus poucos amigos é Edgard von Westphalen, cuja casa frequenta com regularidade. É aí que ele se enamora de Jenny, irmã de Edgard, que virá a ser sua companheira pelo resto da vida. Nos últimos meses de 1835, Karl estuda direito, História, Filosofia, Arte e Literatura na Universidade de Bonn. Depois, vai para a de Berlim, onde estão na ordem do dia as idéias de Hegel, destacado filósofo idealista alemão. Os discípulos de Hegel estão divididos. Há os que se prendem aos elementos conservadores  das idéias dos filósofo: são os "hegelianos da direita" Marx logo toma partido, preferindo alinhar-se com os "hegelianos de esquerda", que procuram analisar as questões sociais com base no método historicista do mestre.

 A filosofia  absorve Karl com a mesma intensidade que seu amor por Jenny. Ele imagina, então, conjugar as duas coisas: se conseguir um lugar como catedrático lecionará filosofia e ganhará o bastante parea casar-se. De 1838 a 1840, dedica-se à elaboração de sua tese, enquanto lê avidamente as obras de Hegel, Spinoza, Kant, Leibniz e Epicuro. Finalmente, em 1841, segue para a Universidade de Iena, onde defende com brilhantismo seu trabalho A Diferença Entre a Filosofia de Demócrito e a de Epicuro. A tese é boa, mas Karl não é nomeado. Por motivos políticos, as universidades não aceitavam mestres que seguissem as idéias de Hegel. Sem desanimar, Karl resolve dedicar-se ao jornalismo. Faz um artigo para  Anais Alemães, publicação dirigida por um amigo, Arnold Ruge. Mas a censura impede a publicação da matéria. Karl Marx pretende casar-se precisa ganhar dinheiro. Tenta agora colaborar na Gazeta Renana, da cidade de Colônia. Seus trabalhos agradam e em outubro de 1842 ele muda para lá ; logo assumirá a direção do jornal. Mas por puco tempo: após violento artigo contra o absolutismo russo, o governo prussiano fecha o jornal.

FILÓSOFO E REVOLUCINÁRIO

 

Mesmo sem emprego, casa-se com Jenny em junho de 1843, mudando-se meses depois para Paris. Aí une-se de novo a Ruge, fundando com ele uma revista, Anais Franco-Alemães. Na revista, que não passou do primeiro número, saem dois artigos de Friedrich Engels, a quem Marx conhecera em Colônia. Também natural da Prússia Renana, dois anos mais moço que Marx, Engels é, como ele "hegeliano de esquerda". São muitas as afinidades: nasce entre os dois uma sólida amizade. Dessa amizade resultarão numerosas obras escritas em comum, e uma intensa atividade política. Ao lado dos artigos de Engels, os Anais trazem dois trabalhos de Marx, que já revelam o filósofo-político que vai ser: Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e Sobre a Questão Judaica.  No primeiro, ele sustenta  que as considerações hegelianas sobre o Direito eram inócuas, porque não indicavam meios práticos de superar os problemas humanos que abordavam. No segundo, afirmava que a verdadeira emancipação humana exigia transformações não apenas nas leis, mas do sistema social de produção e distribuição de riqueza. Era um Marx cada vez mais empolgado pelos problemas políticos e sociais , um estudioso que agora devorava os livros de Rousseau, Montesquieu e Maquiavel, um revolucionário que tomava contato com o movimento socialista dos operários franceses. E, ao analisar minuciosamente o sistema econômico capitalista, que encontrava sua maior expressão na Inglaterra, ele escolhe definitivamente uma caminho para o resto de sua vida: a pregação constante da revolução proletária. Na teoria, desenvolve suas tese políticas, na prática participa ativamente dos movimentos operários.

DE PAÍS EM PAÍS OS TEMPOS CRÍTICOS


Em fins de 1844, desde a proibição dos Anais da Alemanha, Marx começa a escrever para o  Vorwaerts, que sai regularmente  em Paris. Mas as opiniões emitidas na revista irritam o governo de Frederico Guilherme IV, imperador da Prússia: pressionado, o governo francês expulsa os principais colaboradores da publicação, entre eles Marx. Em fevereiro de 1845, ele é obrigado a sair da França, bem como Engels. Seguem para a Bélgica; em Bruxelas, Marx instala-se com a família. Marx e Engels não descansam. Enquanto escrevem teses sobre o socialismo, mantêm contatos com o movimento operário europeu. Fundam a Sociedade dos Trabalhadores Alemães, adquirem um semanário e acabam por ligar-se a uma entidade comunista secreta de operários alemães, a Liga dos Justos, que tem filiais por toda a Europa. No 2° Congresso da Liga, realizado em novembro de 1847 em Londres, recebem a incumbência de redigir um manifesto. Em Bruxelas, com base em um trabalho de Engels (Os Princípios do Comunismo). Marx escreve o "Manifesto Comunista", que  envia a Londres em janeiro de 1848. Na obra, violenta crítica ao capitalismo, expõe concisamente a história do movimento operário, faz objeções a determinados setores do socialismo e termina com um apelo, pela união dos operários do mundo inteiro.

Pouco tempo depois, Marx e sua mulher são presos e, em seguida expulsos da Bélgica. Em maio  de 1848, depois de breve estada em Paris, Karl Marx já está seguindo com Engels para Colônia, de onde também serão expulsos um ano depois. Mais uma breve passagem por Paris; e daí, Karl, Jenny e três filhos vão para Londres, na mais completa falta de recursos. Ainda sim , ele consegue editar seis números de uma revista mensal, a Nova Gazeta Renana , ao mesmo tempo que não descuida da atividade política. Entre 1850 e 1866, Marx e sua família passarão por terríveis privações. Em parte, a crise é minorada pelos parcos rendimentos que Karl Marx obtém da colaboração com vários jornais, inclusive o norte-americano New York Trinbune, tudo dolorosamente agravado pela morte de três filhos: Guido, Francisco e Edgard. Marx só consegue atenuar seu sofrimento  - 'só agora sei mesmo o que é uma verda", atirando-se ao estudo e a suas obras. Mas a situação financeira chega à um ponto insuportável, não obstante a ajuda que Engels lhe dá sempre que pode. Karl Marx é obrigado a candidatar-se a uma vaga de escriturário  na Companhia de Estradas de Ferro, mas o lugar lhe é negado, por causa da sua má caligrafia. Apesar dessa crise consegue publicar, em 1867, o primeiro volume de sua mais importante obra, O Capital, em que sistematiza suas críticas à economia capitalista.

A INTERNACIONAL E A MORTE


Em 1864, fora fundada, com esforços de Marx, a Associação Internacional dos Trabalhadores, em Londres, que fica conhecida posteriormente como a Primeira Internacional. A entidade expandiu-se por toda a Europa, cresceu muito e acabou dividida, depois de longo processo de dissidências internas. Em 1876, foi oficialmente dissolvida. Mas ai idéias da Internacional orientaram diversos partidos socialista que começavam a surgir. Ao escrever "Crítica ao Programa de Gotha, Karl Marx condenava o programa que o partido socialista Alemão adotara em 1875. Mostrava-se mais que nunca atento às consequencial da irradiação das idéias que formulara, ao criar a Internacional. Mas, a partir daí, sua atividade política começa a sofrer sensível redução. Em 1881, receberá mais um duro golpe: morre Jenny, a companheira e amiga, que o seguiu corajosa e infatigavelmente ao longo de sua agitada vida. Dois anos depois novo abalo: agora quem morre é a outra Jenny , sua filha. Seu estado de saúde, que já era precário, agrava-se ainda mais. Uma inflamação na garganta o impede de falar e de alimentar-se normalmente. E aos 65 anos de idade , no dia 14 de março de 1883, morre Karl Marx, o filósofo revolucionário cujas idéias influíram decisivamente nos caminhos que, daí por diante, a História Universal tomaria.





MOZART: UMA VIDA PELA MÚSICA

Leopold Mozart e Andreas Schachtner guardaram seus instrumentos. O ofício na corte do príncipe arcebispo de Saalzburgo terminara. Chegando à casa de Leopold, os dois músicos surpreenderam o pequeno Wolfgang Mozart, de cinco anos de idade, muito concentrado sobre uma folha cheia  de borrões. Intrigado, Leopold perguntou ao filho o que estava fazendo. O menino respondeu simplesmente: "Estou escrevendo um concerto para cravo". A tirada divertiu seus curiosos espectadores. Entretanto, examinando de perto o insólito manuscrito, ambos se entreolharam perplexos: em meio a manchas e rabiscos  no pentagrama, havia notas ordenadas com perfeição. O menino estava realmente compondo. A peça, concluída alguns meses depois, não era um concerto, mas o Minueto e Trio em Sol Maior, para Cravo.

INFÂNCIA DE UM PRODÍGIO


Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart foi batizado em Salzburgo, Áustria, a 28 de janeiro de 1756, dia seguinte do seu nascimento. Filho de músico, Wolferl, como era carinhosamente chamado, já aos quatro anos de idade descobriu o  cravo e se maravilhou. Sua  única irmã, Marianne, apelidada de Nannerl, cinco anos mais velha que ele, havia começado a tomar lições desse instrumento. Wolfgang acompanhava os exercícios entusiasmado. Seu interesse despertou a atenção do pai Leopold, que passou a dar-lhe aulas. O pequeno aluno aprendia depressa. Gostava de tocar as músicas de sua própria invenção. Improvisar, porém, logo deixou de satisfazê-lo. Começou, então, a anotar as idéias melódicas que lhe ocorriam. Acompanhando o rápido progresso do filho, Leopold convenceu-se de que ele possuía uma musicalidade incomum, que merecia ser desenvolvida e explorada mais intensamente. Com o pensamento no futuro, dedicou-se à formação musical  de Wolfgang, que passou a um regime de estudo rigoroso e sistemático. Nannerl, por sua vez, já era exímia  instrumentista.

Viagens, melhores professores e pláteias mais refinadas certamente contribuíram para a evolução de seus filhos, pensou Leopold. Munique , capital da Baviera, foi  o local escolhido para as primeiras exibições dos dois pequenos prodígios, fora de Salzburgo, no início de 1762. A escolha provou ser acertada: o governante local recebeu-os para um recital que teve ótima repercussão. O êxito encorajou o pai empresário a empreender viagens mais ambiciosas. No mesmo ano, partiu para Viena, com os dois filhos. Os primeiros recitais dados por Wolfgang e Nannerl tornaram-nos figuras unanimente elogiadas pela refinada sociedade vienense. Não demorou um convite para que se apresentassem na corte.


DEPOIS DA QUEDA, O BEIJO


Palácio de Schoenbrunn, Viena. A alta aristocracia austríaca lota o luxuoso salão, aguardando o início do sarau patrocinado pela Imperatriz Maria Teresa. Um menino-prodígio vai tocar. Chegada a hora, Wolfgang entra resolutamente no salão. E acontece o imprevisto. No meio do caminho escorrega no assoalho polido, perde o equilíbrio e estatela-se no chão. A Princesinha Maria Antonieta vem logo em seu socorro. Ajudado por aquela que seria mais tarde a rainha da França, o garoto põe-se de pé e, com ingênua simplicidade, agradece a gentileza: "Você é a mais bondosa de todas. Quando eu crescer , quer casar comigo?" Em seguida, muito desembaraçadamente, beija Maria Antonieta. E ainda sob a surpresa e o riso dos presentes, dirige-se ao cravo e começa a tocar . No dia seguinte, é o assunto nos salões de Viena. Mas ele não poderá repetir as apresentações, porque logo depois de uma escarlatina o deixará de cama por um bom tempo. E o volúvel público de Viena esquece-o tão facilmente como o descobrira. Depois de um período de repouso em Salzburgo, Leopold e os filhos  partem para Munique, e daí para Frankfurt, onde se apresentam em vários recitais. Mas o êxito parece ter subido a cabeça de Leopold. Ele apresenta seus filhos como se fossem  fenômenos, mais empenhado em assombrar o público do que em revelar seu valor artístico. As viagens continuam. Mozart compões cada vez com mais empenho.

UM GÊNIO FASCINA A ITÁLIA


Após várias excursões, a família Mozart volta finalmente para casa, em novembro de 1765. No sossego do lar, Wolfgang compões ininterruptamente durante dois anos. Agora com onze anos, parte para Viena, em companhia do pai e da irmã, como sempre. Malfadada viagem. Além de contraírem varicela, que grassava na capital, Wolfgang e Nannerl não contam aí com o apoio dos imperadores e Leopold  não obtem os lucros que esperava. Mas para o jovem Mozart a estada tem suas vantagens. Trava vários conhecimentos importantes e conquista a simpatia do príncipe arcebispo de Salzburgo, sendo contratado para servir na capela arquiepiscopal. Pouco depois, pede licença ao arcebispo e parte para a Itália, país da ópera. Torna-se membro da Academia Filarmônica Bolonhesa, embora tenha sete anos menos que os 21 exigidos pelo regulamento. As façanhas musicais de Wolfgang na Itália transformam-no em mito. Depois de receber do papa a "Cruz do Esporim de Ouro", volta a Salzburgo.

MAS O MENINO CRESCEU


Concertos, sinfonias, sonatas, óperas, missas e peças sacras mais curtas, minuetos e divertimentos avolumavam a obra de Mozart, agora homem feito, que se assina Wolfgang Amadeus Mozart. Desaparece o menino-prodígio, surge o homem: um grande músico. No seio da sociedade européia do século XVIII o musico é um criado. A serviço de um rei, um príncipe ou um bispo usa libré e toma suas refeições na copa junto com a criadagem. Casa-se ou viaja segundo as disposições de seu amo. Mozart é mestre de capela do Conde de Colloredo e começa a revoltar-se contra a situação. Exasperado, não suporta mais as humilhações pelas quais o conde lhe faz passar. Irritado, pede demissão a Colloredo em 1777 e parte, levando sua mãe. Viajam por Munique, Augsburgo, Mannheim. Nesta última cidade, conhece a jovem Aloysia Weber, por quem se apaixona. Chegando a Paris em 1778, descobre que o pequeno prodígio fora esquecido. O mundo musical da capital fancesa fecha-se a esse novo Mozart, adulto. Ele sofre com isso. Mas sofre muito mais com a morte de sua mãe depois de uma breve doença.

Então abandona Paris, e reencontra Aloysia em Munique. Rodeada de admiradores, ela o despreza. Cheio de sofrimento, retorna a Salzburgo e ao trabalho com Colloredo. Mas ficará aí por pouco tempo. Discute com o conde  e acaba rompendo definitivamente. Quer ser livre, está cansado de trabalhar sob encomenda. Instala-se em casa dos Weber e casa-se com uma irmã de Aloysia, Constanze. Arranja alunos e acumula afazeres para sobrevier. A tragédia é uma constante na vida de Mozart. Em 1784, morre seu primeiro filho, com pouco mais de um ano de idade. Mas isso é apenas o começo de um novo ciclo de infelicidades que se seguirão. Repudiado pela corte e pelo público, que não compreende suas óperas, vê-se cheio de dívidas. Atormentado pelas frequentes doenças de  Constanze e por sua própria saúde em declínio, tenta retomar sua vida errante. Praga, Dresden, Leipzig, Berlim.

O FIM DA VIDA


Poucos sucessos, fracassos retumbantes. Em 1791, nova indisposição obriga Constanze a passar algum tempo em Baden, numa estância. Saudoso solitário, Mozart continua compondo. Contudo as dificuldades financeiras são terríveis. Um grupo de húngaros oferece-se  para contribuir anualmente com uma elevada quantia, a fim de que ele possa manter uma existência digna. Mas é tarde demais. Com o organismo minado por uma nefrite crônica sofre progressivo inchamento das pernas , que o obriga a recolher-se à cama. Mesmo deitado trabalha, na partitura de um réquiem, encomendado por misterioso personagem. Na noite de 4 de dezembro de 1791, Wolfgang Amadeus Mozart morre, sem terminar o réquiem, Sussmayer, seu fiel discípulo , completará a obra, segundo a orientação dada pelo seu compositor em seus últimos momentos.
Ao amanhecer, sob um céu ameaçador, o modesto caixão é conduzido pelas ruas por dois homens, seguidos pelo cortejo fúnebre. Mas uma violenta tempestade de neve faz com que os acompanhantes desistam  da longa marcha até o cemitério. Sozinhos, os dois homens prosseguem, depositando o corpo na capela mortuária, de onde é removido, à tarde, para ser enterrado em vala comum. Quando Constanze Mozart tenta localizar o túmulo do marido para colocar uma cruz sobre ele, ninguém sabe informar-lhe o local. De Joannes Chrysostomus Wofgangus Theophilus Mozart restam o nome e uma obra a maior importância da história da música.

                Mozart compôs 650 obras em toda sua vida. Ele morreu aos 35 anos de idade!

WINSTON CHURCHILL

"Lutaremos até o fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e nos oceanos. Lutaremos com crescente confiança e com crescente poderio no ar. Defenderemos nossa ilha a qualquer custo! Não esmoreceremos, nem falharemos! Jamais nos entregaremos!". Inglaterra, 4 de julho de 1940. A guerra à Alemanha havia sido declarada em setembro do ano anterior. Quem fala é  Winston Churchill, que acabara de ser nomeado primeiro-ministro, apesar da forte oposição de grande parte dos políticos, inclusive da maioria de seus correligionários do Partido Conservador.

MILITAR E JORNALISTA


O aristocrata Lord Randolph Henry Spencer, conhecido político, e Jenny Jerome, filha do proprietário do jornal americano New York Times, certamente auguravam futuro brilhante para seu filho, nascido a 30 de setembro de 1874 na rica mansão que eles possuíam nas proximidades da cidade de Oxford. Mas quando Winston Leonard Spencer Churchill ingressou no colégio de Harrow, as esperanças de seus pais quase foram por terra. O jovem não passava de aluno medíocre e indisciplinado. Henry e Jenny tiveram novo alento, contudo. Em 1893, Winston segue para a Academia Militar de Sandhurst e, aí, faz um curso excelente. Ao deixar a escola em 1895, ano da morte de seu pai, é considerado brilhante oficial. Aliás, tem a quem sair: descendente de um grande militar, John Churchill, homem que nos primeiros anos do século XVIII comandou o exército inglês na luta contra os franceses, na guerra havida por causa da sucessão espanhola. Mas é como jornalista que Winston tomará seu primeiro contato com a Guerra. Assim que completa o curso em Sandhurst, ele pede licença ao exército e viaja para Cuba, onde trabalhará como correspondente do Daily Graphic durante a insurreição local contra a metrópole espanhola. De volta, reincorpora-se ao exército e participa de uma série de operações militares na Índia, na repressão de tribos que se rebelavam contra o colonialismo inglês. E em 1898, Winston Churchill esta no Sudão, como oficial da 21° Divisão de Lanceiros e correspondente do Morning Post, na luta contra o Reino dos Dervixes, federação religiosa que se opunha aos britânicos.

EM BUSCA DE NOVA VIDA


De volta à Inglaterra, resolve tentar a política. Desconhecido do eleitorado, candidata-se a deputado pelo distrito de Oldham, e perde. Em 1899, retoma as atividades jornalísticas , seguindo para a África do Sul.
Aí, cai prisioneiro dos bôeres, colonos holandeses que entraram na guerra contra a Inglaterra. Depois de uma fuga cheia de peripécias, descrita como a mais emocionante de toda a Guerra, os bôeres pões sua cabeça a premio. Mas Winston consegue safar-se e a tingir as linhas britânicas. Já não é mais um jornalista desconhecido. De novo em seu país, consegue eleger-se, em 1900, para a Camara dos Comuns, como deputado do Partido Conservador. É o inicio de uma intensa e contraditória carreira política. Churchill, ocupará diversos outros cargos importantes no governo Inglês, ora ao lado dos conservadores, ora dos liberais, ora ainda em aliança com os trabalhistas.

Em 1904, abandona as fileiras do Partido Conservador. Em 1909 torna-se ministro liberal e denuncia "a ausência de qualquer padrão minimo de vida e de conforto para os trabalhadores". Só em 1924 é readmitido no Partido Conservador. Continuou, porém , a ser combatido pelos correligionários, que consideram subversiva sua legislação social. A ala radical dos conservadores se opõe à nomeação de Churchill para o cargo de primeiro-ministro.

O HOMEM QUE PREVÊ A GUERRA


1911, outubro. Winston Churchill é nomeado primeiro lorde do Almirantado, ou seja, é o comandante supremo da Marinha. Ele dirá " De nosso poderio naval depende a existência da Grã-Bretanha". Como deputado, havia muito tempo Churchill vinha prevendo a deflagração de uma guerra européia, e defendera tenazmente uma política externa enérgica, insistindo em que a Inglaterra devia preparar-se para um conflito iminente. Como comandante supremo da Marinha, trata de modernizar a esquadra: os navios deixam de utilizar o vapor e são dotados de motores de explosão. Ao desencadear-se a I Guerra Mundial, ele ordena secretamente que as naves inglesas tomem posição para combate, ao mesmo tempo, mobiliza as reservas, apesar da oposição que lhe fazem os demais membros do Gabinete, essa mesma oposição que o fará renunciar ao posto em 1915, depois de diversos choques de opinião sobra a estratégia que a Inglaterra deveria adotar o conflito. A fastado do cargo, Churchill, não se afastará da guerra. Apresenta-se como voluntário e serve alguns meses como oficial no front francês. Depois , de volta à Inglaterra, retorna à Camara dos Comuns. No Parlamento, antevendo a importância da força aérea na guerra, luta pela criação de um ministério da aeronáutica. Um ano antes do fim da guerra, o Primeiro Ministro Lloyd George o convoca para o cargo de ministro das Munições.

GUERRA. AERONÁUTICA, FINANÇAS


Terminada a I Guerra Mundial em 1918, nem tudo são vitórias para a Inglaterra. Morreram 750 mil ingleses, a Irlanda do Sul, católica, revolta-se contra à agressão inglesa. No entanto, a Inglaterra consegue reter a Irlanda do Norte, à parte mais rica da ilha. Movimentos de independencia surgem em várias colônias britânicas, e no Oriente Próximo, há muito tempo outro tipo de guerra, surda, porém perigosa, vem sendo travada pelo domínio das jazidas petrolíferas, entre empresas inglesas e americanas. Mas o que realmente preocupa Churchill, agora acumulando as funções de ministro da Guerra e da Aeronáutica, é a vitória da Revolução Soviética (1917) e suas possíveis  consequências no operariado mundial. Para ele, esse era o problema político mais sério que o governo inglês teria de enfrentar. Mas o Gabinete de Lloyd George cai; Churchill volta então à militância política, tentando reeleger-se deputado, ao mesmo tempo que se entrega à literatura, começando a escrever A Crise Mundial , história da grande guerra de que participara. Derrotada nas urnas por duas vezes, só voltará à Câmara dos Comuns em 1924, e, em breve, estará de novo no Governo, desta vez como ministro das Finanças do Gabinete Baldwin.

Sua gestão vai até 1929, e é das piores. Tentando valorizar a libra, determina uma série de medidas que provocam terrível deflação monetária e, com ela, uma crise sem precedentes. Excluído do Governo nesse ano, com a derrota dos conservadores Churchill retoma a atividade literária, completando  A Crise Mundial  e escrevendo ainda algumas obras autobiográficas e a história de seu ancestral John Churchill.

O ALMIRANTADO DE NOVO


Preocupado com o comunismo, Churchill até 1934 proclama sua simpatia por  Mussolini e pelo fascismo posto em prática na Itália. Ele afirma que "a Itália tem demonstrado um modo de combater a força subversiva, modo que pode atrair a massa do povo a uma real cooperação com o Estado". Mas a ascensão do nazismo alemão e as aproximações de Mussolini com Hitler o fazem mudar de idéia. Quando a Alemanha, depois de ter invadido a Tchecoslováquia, ameaça entrar na Polônia, Paris e Londres garantem a esta sua ajuda militar. Hitler invade a Polônia a 1° de setembro de 1939. Dois dias depois, França e Inglaterra declaram guerra à Alemanha, e é nesse mesmo dia 3 de setembro de 1939, que  Winston Churchill entra para o gabinete de guerra, voltando ao Almirantado,  o mesmo cargo que ocupara ao tempo da I Guerra Mundial.

SANGUE, TRABALHO SUOR E LÁGRIMAS


A 10 de maio de 1940, o Primeiro ministro Chamberlain renuncia. E para ocupar seu lugar, foi escolhido Winston Churchill. Em seu primeiro discurso, diante dos Comuns, pronuncia a frase que irá tornar-se famosa " Nada tenho a oferecer senão sangue suor e lágrimas". A França fora invadida e a Inglaterra luta praticamente sozinha até o dia 22 de junho de 1941, quando os alemães atacam a Rússia. Apesar de feroz inimigo dos comunistas. Churchill não hesita em aliar-se a Stálin. E da mesma forma apóia a luta de Tito contra os alemães na Iugoslávia. Depois da vitória dos Aliados, ele estará presente às conferências que decidirão os destinos da Europa. E é no decorrer delas que cederá seu lugar a Clement Attle, já que os conservadores tinham sido derrotados nas eleições realizadas depois da guerra. Afastado do poder, Churchill não renuncia à política. Passa a defender a idéia de uma aliança atlântica e da criação de uma força militar multinacional. O comunismo volta a preocupá-lo. Em, 1951, os conservadores derrotam os trabalhistas. E eis o Churchill novamente como primeiro ministro, esforçando-se por estabelecer entre seu país e os Estados Unidos estreita cooperação, tal como acontecera durante a II Guerra Mundial. Mas em 1955 Churchill retira-se definitivamente da vida pública. Agora, vai dedicar-se à literatura, que lhe dera um Prêmio Nobel em 1953, e à pintura. Termina a sua História da Segunda Guerra Mundial  e escreve História dos Povos de Língua Inglesa. Serão dez anos de descanso, depois de uma vida inteira de intensa atividade. Ele morrerá no dia 24 de Janeiro de 1965, com 91 anos de idade.