No ano 212 antes de Cristo, toda Roma se acotovelava pelas ruas e praças a fim de aplaudir a volta do cônsul Marcelo, que, apôs três anos de penosíssimo assédio, conseguira, finalmente, submeter ao jugo da República a poderosa cidade de Siracusa. Entretanto, no semblante de Marcelo poder-se-ia vislumbrar uma sombra de melancolia: contrariando suas ordens, um soldado romano matara aquele que, tendo inventado novos sistemas de fortificações e máquinas bélicas de enorme poder, fizera de Siracusa uma rocha quase que inexpugnável. O incauto soldado encontrara um ancião de setenta e cinco anos, completamente abstraído ao que se passava em seu redor, entretido em cálculos e fórmulas e, irritado ao ver tamanha indiferença, ignorando a identidade do sábio, assestara-lhe um golpe mortal. Esse homem, esse inimigo de Marcelo, que, tal como todos os Romanos, tanto admirirava e desejava preserva-lhe a vida, era Arquimedes, o insigne cientista, a quem , séculos mais tarde , o próprio Galileu Galilei chamaria de seu Mestre. Ele ao que parece, de família humilde, como escreveu Cicerone em sua "Tusculante", talvez ligado por laços de parentesco ao tirano, como afirmou Plutarco. Depois de haver aprendido tudo quanto lhe podiam ensinar os doutos de Siracusa, que eram assaz versados em matemática e filosofia ( as duas ciências da antiguidade eram quase sempre estudadas em conjunto), Arquimedes viveu por algum tempo em Alexandria, no Egito, o mais importante centro cientifico da antiguidade, de modo que, ao voltar para Siracusa, podia considerar-se o mais ilustrado e culto cidadão da urbe.
Embora fosse especialmente apaixonado pelos estudos de geometria e astronomia (ele chegou a enunciar teoremas importantes acerca da esfera e do cilindro, e a efetuar cálculos adequados para determinar a medida do círculo , a definir como suficiente aproximação os diâmetros da Lua e do Sol, sua distancia da Terra, a ordem e a distância dos planetas), genialíssimo, inventor, dotado de espírito surpreendentemente prático, e disso bem se apercebeu Hirião, que sempre o quis perto de si, confiando-lhe incumbências geralmente de suma gravidade. Havia ele voltado fazia pouco tempo de Siracusa, quando Hirião o encarregou de superintender a construção de um navio, o maior que fora visto até então, destinado a presentear Ptolomeu Evergeta. Com o auxílio de um verdadeiro exército de operários, Arquimedes arcabouçou um navio de tamanho porte que, somente pra a construção do casco, necessitou de tanta madeira quanta seria necessária para a construção de sessenta galeras, e a fez rica de jardins, de palestras, de piscinas, de cocheiras, além de dotada de armamento propositadamente confeccionado. Ao atônito Hirião que, terminada a construção , fora admirar o novo barco, Arquimedes reservara, entretanto, uma surpresa ainda maior: partindo de um princípio de física por ele pela primeira vez formulado, segundo o qual dado um ponto de apoio é possível levantar qualquer peso, Arquimedes conseguira montar um sistema de cabestrantes e roldanas móveis, denominado "trocóideo", que lhe permitia lançar ao mar o navio, sem a ajuda de ninguém, mas valendo-se unicamente de suas próprias forças. Após a invenção da "trocóideo", que era um conjunto de engenhos usados ainda hoje, surgiu outra, pouco tempo depois, de que se beneficiou todo o Egito. Convidado pelos Ptlolomeus para dirigir os trabalhos que estavam executando no Vale do Nilo , a fim de prevenir os danos ingentíssimos que o rio provocava em suas inundações anuais, Arquimedes não só provindenciou em dotar as margens com diques e ligar os dois lados do rio por meio de numerosas pontes, mas introduziu, também, o uso de um engenho especial por ele inventado e chamado "cóclea" que se demonstrou de grande utilidade, seja para irrigar os terrenos mais distantes do Nilo, seja para secar aqueles que durante muito tempo permaneciam submersos pelas águas lamacentas.
A um curioso episódio, que lhe ocorrera quando estava em Siracusa, Arquimedes deveu a intuição de um dos mais fecundos princípios da hidrostática. Hirião, suspeitando que um ourives, ao qual encomendara uma coroa de ouro uma certa quantidade de prata, consultou, um dia, Arquimedes sobre a maneira de descobrir essa fraude, sem danificar a coroa. O ilustre cientista meditou longamente sobre o problema , mas não conseguiu encontrar alguma solução. Certo dia, enquanto se encontrava na banheira, ocorreu-lhe perceber que seu corpo, imerso na água, perdia consideravelmente peso e que, quanto mais mergulhava, muito mais água era deslocada. Destas observações, como fulmínea intuição, deduziu um famoso princípio, conhecido como " Príncipio de Arquimedes", segundo om qual "todos os corpos , imersos num líquido , perdem uma parte de seu peso, proporcional à quantidade do líquido deslocado. Narra-se que Arquimedes, no auge do entusiasmo que lhe causou tal descoberta, saiu da banheira e se lançou pela rua gritando EUREKA, EUREKA, ! (ACHEI, ACHEI!). Na verdade, ele descobrira a maneira de determinar o peso o ouro e da prata , tomando como unidade de medida a água , processo que permitiu descobrir o engano do ourives sem prejudicar a coroa.
Além deste principio, que ele só já bastaria para garantir a Arquimedes uma fama imperecível, no campo da física ( sobre ele se baseiam , de fato , todas as regras que orientam as construções dos objetos que flutuam), muitas foram as descobertas e as invenções do grande siracusano. Recordemos, por exemplo, o relógio solar, cuja a invenção lhe é atribuída por muitos autores, o órgão hidráulico (um instrumento musical acionado pela água), a roda dentada o parafuso sem fim e algumas invenções mecânicas aptas para facilitar as operações cirúrgicas e, finalmente, detalhe curioso na vida de um cientista o "lóculo arquimedeo", um jogo muito em voga no passado , do qual deriva o famoso "puzzle", que é um jogo de paciência. Atribui-se ainda, a ele um sistema de lentes , cujos reflexos ao sol tinham a faculdade de provocar incêndios a distância, visando, com isso, destruir as galeras romanas inimigas. Muitos dos numerosos tratados escritos por Arquimedes chegaram até nossos dias. Embora fragmentados e em certos pontos ilegíveis devido ás avarias do tempo, pela sua prosa nítida e concisa, relevam-nos ter sido somente escritos por um cientista do porte de Arquimedes, que, em sua mocidade, aprofundara os estudos literários. Entre esses preceitos, destacavam-se: "Os princípios da matemática" , "Da esfera e do cilindro", "A medida do círculo", nos quais são ventilados problemas de álgebra e de geometria, e expostos teoremas ainda hoje ensinados nos cursos elementares e médios. "Dos Flutuantes", em que se anunciam princípios fundamentais de hidrostática, e "O arenário", compêndio de ciência astronômica.