Codisburgo, quase uma vila apenas, assonância germânica estranha num universo de topônimos lusos, brasileiros, guaranis, tupis e nheengatus. Esquecida entre duas irmãs maiores, Sete Lagoas e Curvelo, em Minas Gerais. Despretensiosa na modorra de suas ruas de meia-idade e na fala mansa de seus filhos, na despreocupação de anunciar-se existente. Nessa Codisburgo nasceu, às vésperas do dia de São Pedro do ano de 1908, o menino João, filho do casal Guimarães Rosa. Aprendeu com facilidade as primeiras e as segundas letras e, já aos seis anos de idade, guiado por um mestre, Candinho e por um franciscano, frei Esteves, lia o primeiro livro em francês "Les femmess qui aiment". Esse foi o início da paixão pelas línguas, que o acompanhou até o fim da vida. João se familiarizaria com o latim, o grego, o alemão, o inglês, o italiano, o holandês, o russo, o sueco e algumas língua orientais. Antes de morrer em 19 de novembro de 1967, estava se apossando de mais uma língua: o vietnamita. Sempre de olhos abertos, com sede insaciável de conhecer, aos nove anos de idade entra no Colégio Arnaldo, de Belo Horizonte, onde se acentua o gosto pela história natural. Coleciona borboletas, besouros, uma multidão de insetos; classifica-os com cuidado, consultando a blibioteca da cidade, lendo livros especializados e deixando uma coleção notável pela demonstração de seriedade e de conhecimentos que tinha da matéria.
Matriculou-se na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte e é ali que inicia a viagem literária que o levaria a ser um dos maiores escritores da língua portuguesa. Começou por escrever contos que enviou para publicação na revista "O Cruzeiro". Mas, como ele próprio mais tarde reconhece, escrevia friamente, sem paixão preso a moldes alheios, numa frase de auto-reconhecimento, sopesando sua capacidade de assimilar o formal, o acadêmico, para cientificar-se de que poderia superá-lo, criar com liberdade de imaginação, usar o cabedal conhecido, para situá-lo e acrescentar-lhe o aditivo de seu próprio manancial criador. Foi em Itaguara, município de Itaúna, no exercício da profissão de médico, logo após a formatura, quando entrou em contato íntimo e diário com o povo pobre e o povo rico das terras mineiras, que sua curiosidade de linguista e de humanista descobriu as riquezas a explorar: os homens simples, carregados de tragédias e amores, expressando-se ricamente, com curiosas inflexões produzidas pelo isolamento do mundo distante.
O médico passava grande parte de seu tempo a cavalo, a visitar clientes em uma terra de habitações esparsas em grandes sertões. Cobrava as visitas na medida das distâncias que a cavalo, tinha que percorrer. Médico dedicado, Guimarães Rosa acabou por se tornar muito respeitado nas regiões do interior de Minas. Depois em Belo Horizonte, foi médico voluntário da Força Pública, na Revolução de 1932, em 1934, estava em Barbacena como oficial médico do 9° Batalhão de Infantaria. A vida calma de Barbacena proporcionou-lhe as condições de conforto para escrever novos contos, e um livro esquecido, "Magma", com que concorreu ao prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Desfrutou também de tempo para estudar matérias do concurso para o Itamaraty. Entrou para a carreira diplomática em 11 de julho de 1934. Guimarães Rosa começou a viver intensamente a partir desta data: o médico dedicado mudara-se no diplomata e no escritor de grande cultura e extraordinário talento. Em 1937, publicou "Sagarana", vasto painel descritivo da paisagem mineira, com toda a beleza selvagem, a vida das fazendas, dos vaqueiros e dos criadores de gado, estórias de gente simples, vividas ou imaginadas, o mundo em que passara a infância e a mocidade. Em "Sagarana" já aparece, em toda sua plenitude, a capacidade que tinha de transpor para o livro a linguagem rica e pitoresca daquela gente, registrando regionalismos, muitos deles ainda nõ utilizados em literatura. O título é um hibridismo de "Saga" (narrativa épica) e "Rana" (sufixo tupi: A maneira de).
Cônsul de terceira classe, serviu o Brasil em Lisboa e Hamburgo (1938); quando o Brasil rompeu com a Alemanha, em 1942 Guimarães Rosa foi internado em Baden-Baden, juntamente com Cícero Dias, Ciro de Freitas Vale e outros. Libertado em troca de diplomatas alemães, retornou à Ámerica do Sul, Bogotá. Exerceu a função de segundo secretário em Paris, até 1948. Promovido a conselheiro em 1950, chegou a ministro de primeira classe em 1958. Pouco antes de falecer, chefiava a Divisão de Fronteiras do Itamaraty. Apesar de suas constantes andanças pelo estrangeiro, o escritor não perdeu contato com sua terra. Em 1945, retornou ao interior de Minas para rever as paisagens de infância, e, em 1952, fez uma excursão a Mato Grosso, de onde trouxe uma reportagem poética, "Com o vaqueiro Mariano", publicada em edição limitada. Depois de publicar "Sagarana", Guimarães Rosa passou a ser considerado um dos primeiros novelistas de nossa literatura. Esperou mais de dez anos para lançar os dois grandes trabalhos que o destacaram na literatura de língua portuguesa: "Corpo de Baile" e Grande Sertão Veredas". Nessas obras aparece o traço fundamental do autor: a absoluta confiança na liberdade de inventar. A fantasia nos livros de Guimarães Rosa enrosca-sena realidade, complementa-a "e revela o quanto de irreal existe na realidade aparente ". Criou o seu regionalismo a partir das pesquisas pessoais: ele viu, conversou e estudou jagunços, vaqueiros, coronéis, peões, prostitutas e beatas. De cada conversa , de cada observação, o escritor meticulosamente anotava o que fosse peculiar, diferente. E daí surgiu a mais importante de suas caracteristicas: o uso da linguagem viva, tal como é empregada pelo povo da terra que lhe serviu berço
UM REGIONAL AUTÊNTICO E REGIONAL
Guimarães Rosa concilia a análise da condição social do homem do campo com a grande literatura. Herbert Read afirmou que toda a literatura de cunho regional autêntico é, também, de cunho universal, "pelo eco que desperta em outras literaturas nacionais". O "Morro dos Ventos Uivantes" e "Dom Quixote" são citados como exemplos dessa condição, à primeira vista, paradoxal. Assim, vamos encontrar a obra de Guimarães Rosa traduzida, desde 1961, para o francês (Jean Jacques Vilard), inglês (James L. Taylor), alemão (Curt Meyer-Clason), italiano (Edoardo Bizzarri), espanhol (Angel Crespo), tcheco (Pavla Lidmilová). O seu último livro publicado foi "Tutaméia" que tem o subtítulo de "Terceiras Estórias". Em abril de 1967, estava totalmente empenhado na discussão sobre as conclusões do I Simpósio Luso-Brasileiro da Língua Portuguesa Comtemporânea, e criticou duramente a projetada unificação ortográfica entre Portugal e Brasil, incluída nas conclusões do Simpósio; o seu parecer desfechou debates que alcançaram maior repercussão. Embora eleito para a Academia Brasileira de Letras, em agosto de 1963 (34 votos a favor, dois em branco, nenhum contra), Guimarães Rosa só três dias antes de falecer veio a tomar posse- 16 de novembro de 1967. Protelava enfrentar os discursos e o cerimonial de tradição; sofria de hipertensão arterial, temia um enfarte e se justificava como médico. "Preciso tratar bem deste único cliente".

