CHARLES DARWIN

Uma das grandes curiosidades do homem tem sido conhecer o porque da prodigiosa variedade de seres. Existiram sempre? Se não, de onde vieram? Como apareceram? Dentre as mais antigas explicações distingue-se a de que um ser supremo teria criado os primeiros casais de todos os seres vivos e, a partir dai, o mundo continuara sempre igual, povoado pelos descendentes daqueles seres, nascidos pela união de Deus. Essa concepção apenas ocasionalmente era colocada em dúvida, porque era perigoso duvidar, perturbando aquilo que era eternamente imutável. Até o momento em que duvidar passou a significar a possibilidade de saber e progredir. O século XVI foi, para os europeus, a época de uma grande aventura, cujos reflexos marcariam fortemente todo o seu futuro desenvolvimento. Estamos na Era das Descobertas. Novos povos, estranhos, de costumes inconcebíveis e lingua incompreensível, são inesperadamente encontrados nos antes desconhecidos rincões da terra. São diferentes do primeiro casal que gerou o homem europeu. E os animais ali são diferentes. E as plantas. Pela primeira vez, a crença sofre o impacto da dúvida. E a dúvida engedra o pensamento que passará a abranger todos os setores, abalar dogmas e impérios, criar novas linhas de evolução humana. As especulações filosóficas encontram terreno fértil  na concepção da evolução biológica. A geologia e á historia natural começaram a demonstrar que a idade da Terra é muito superior a que se pensava e que também o homem existia a mais tempo que se supunha. A Revolução Industrial evidencia, uma vez por todas, as possibilidades  do progresso tecnológico, social e cultural. O lugar do homem na natureza começa a merecer sérias atenções. É preciso saber explicar a coexistencia, numa mesma época, de sociedades humanas desenvolvidas e progressistas como as européias, ao lado dos povos ainda primitivos. E o zoólogo  francês Jean Lamarck (1744-1892) classifica o homem ao longo da escala animal.


Em 1830, o geólogo inglês Charles Lyell (1797-1875) publicou os "Princípios de Geologia", onde estabeleceu de maneira cabal que as condições atuais  da Terra são geralmente similares às de muito tempo atrás, o suficiente para que as formas vivas de hoje existentes tenham já alguns exemplares fossilizados. A contribuição cientifica decisiva para essas noções deu-se atraves do naturalista inglês Charles Robert Darwin, que, além disso estabeleceu os principais mecanismos através dos quais qualquer espécie animal, inclusive o homem, evolui a partir de formas mais simples ou como resultado da necessidade de melhor adaptação ao seu ambiente.

ORIGEM E EVOLUÇÃO DE CHARLES DARWIN


Nascido em Shrewsbury a 12 de fevereiro de 1809, Charles Darwin desde a infância revelou-se bem dotado. Arguto e observador, procurava compreender o que lhe ensinavam. Gostava de Historia Natural e fazia coleções de pedras, conchas, moedas, plantas, flores silvestres e ovos de pássaros. Filho de médico, Charles Darwin quis ser médico e, em outubro de 1825, com 16 anos, matriculou-se na Universidade de Edimburgo, onde seu irmão, Erasmus Alvin, também estuda medicina. Entretanto uma vez em Edimburgo, notou que para ser médico, teria que assistir a muitas operações (feitas sem anestesia, pois ainda o clorofórmio não fora inventado) e a várias aulas que não lhe interessava nem um pouco. E, ao invés de estudar, acabou dedicando seu tempo em reuniões com outros estudantes, já em 1826 chegou a apresentar para os colegas  pequenas descobertas suas  no campo da Historia Natural.

Seu pai notou o que ocorria e, procurando evitar que Charle Darwin se tornasse só mais um pseudo-intelectual ocioso, sugeriu que se fizesse clérigo. Darwin aceitou, foi para Cambridge, donde, passado três anos, saía baracharel em Artes mas continuando os estudos para pastor. Mas tampouco em Cambridge revelou grande interesse pelo que lhe ensinavam. Em compensação, participava de reuniões e excursões botânicas realizadas pelo professor John Stevens Henslow, Clérigo, geólogo e botânico (1796-1861, com o qual desenvolveu grande amizade. Quanto ao resto do peródo que passou em Cambridge, a maior parte do tempo empregou em exercícios esportivos especialmente a caça e a equitação, e em colecionar coleópteros. Esta última ocupação e a amizade com Henslow permitilham-le travar relações com vários naturalistas. Esse contato, assim como a leitura de livros de Alexander Von Humboldt e John Federick William Herschel, astrônomo e físico inglês (1792-1871), despertaram nele um desejo de contribuir com sua parte para o desenvolvimento da História Natural. Henslow, além disso, inclinou-o a estudar geologia apresentou-o a Adam Sedgwick, geólogo inglês (1785-1873), em companhia do qual fez uma rápida excursão geológica ao Norte do País de Gales. Retornando, recebeu um recado de Henslow, que lhe propunha que tomasse parte, como naturalista, mas sem remuneração, de uma viagem do bergantim "Beagle". Charles Darwin interessou-se pelo oferecimento e, após vencer a relutância do pai em deixa-lo viajar, previa-se que a viagem deveria durar três anos, era uma drástica interrupção dos estudos do futuro pastor anglicano, seguiu para Londres , onde deveria embarcar. "O H.M.S Beagle" partiu a 27 de dezembro de 1831. Comandado pelo capitão Robert Fitz-Roy, também metereologista (1805-1865), deveria explorar as costas da Patagônia, Terra do Fogo, Chile, Peru, algumas ilhas do pacífico e também realizar, ao redor do mundo, uma série de medições conométricas . Charles Darwin escreveria mais tarde que a viagem a bordo do "Beagle" fora o acontecimento mais importante de sua vida, uma experiência fascinante, apesar de alguns enjôos e algumas alterações com Fitz-Roy, cuja cabina compartilhava. Visitou, entre outros lugares, o Brasil, o estreito de Magalhães, a costa oeste da América do Sul e algumas ilhas dos mares do Sul.

INSETOS, MINERAIS E ORNITORRINCOS


Se Charles Darwin tivesse levado a bordo o produto de todas as caçadas e coleções que fez, provavelmente o pequeno bergantim, 235 toneladas, teria ido a pique. Mas o naturalista teve prudência de ir despachando para o professor  Henslow todo o material que recolhia, tendo antes o cuidado de preserva-lo devidamente, para posterior estudo. Do Brasil enviou dezenas de caixas de insetos. Da Austrália, ornitorrincos. Da ilha dos Cocos, amostras de tipos raros de formação carbonífera. De cada porto onde "Beagle" atracava, seguiam para Inglaterra algumas amostras. Entre elas, rotulados com recomendações particular cuidado, alguns volumes contendo animais recolhidos nas ilhas Galápagos. Haviam despertado o interesse de Charles Darwin por um fato curioso, pareciam ser sobrevivente de épocas pré-históricas.

De volta a Inglaterra, o jovem inexperiente que embarcara a cinco anos antes, a viagem se prolongara por dois anos além do previsto, chegou com sólida reputação como geólogo e naturalista. Viveu alguns anos em Cambridge e Londres,trabalhando ativamente em assuntos científicos, especialmente no preparo da publicação dos resultados de sua viagem e na coleta de dados para sua teoria acerca da origem das espécies. Foi secretário  de Geological Society, onde travou conhecimento com o eminente geólogo Charles Lyell, cujo trabalhos lhe haviam de ser muito úteis. Em 1839 contraiu matrimônio e, em 1842 mudou-se para Down, pois sua saúde exigia que fosse morar no campo. Ali, limitado por suas condições físicas trabalhou com afinco, praticamente até a data de sua morte, 19 de abril de 1882. Contribuições cientificas  diversas encontram-se nas obras de Charles Darwin "A Variação de Animais e Plantas Domesticadas", em que demonstra a possibilidade de criar raças especiais de pombos, cães, e outros animais através do acasalamento seletivo. "A Descendencia do Homem" onde demonstra que a raça humana é produto da evolução. "A Formação do Húmus Vegetal pela Ação dos vermes, onde demonstra, pela primeira vez o papel da minhoca na manutenção da fertilidade do solo. Publicou também " As Diversas Formas de Fertilização de Orquideas pelos Insetos", "O Poder do Movimento nas Plantas", etc.

"Beagle"
Mas o principal tema das pesquisas de Charles Darwin sempre foi a evolução. Um bom número de fatos favorecia, desde o princípio, sua convicção de que, enquanto uns seres se extinguiram, outras espécies apareceram evoluindo das anteriores. Alguns fósseis recolhidos na Américas do Sul pareciam-se muito com certo exemplares da fauna viva das Ilhas Galápagos. Isso foi um bom exemplo.

A TEORIA DA EVOLUÇÃO


Partindo desse ponto, o naturalista foi formulado sua teoria, segundo a qual as formas de vida evoluem lenta mas continuamente através dos tempos. Charles Darwin observou que, embora todos os organismos vivos tenham potencialidade para multiplicar-se em progressão geométrica, o número de indivíduos de uma mesma espécie tem apenas pequenas oscilações ao longo das gerações, não crescendo geométricamente, como seria de se esperar. A ostra, por exemplo, lança ao mar centenas de milhares de ovos. No entanto, apenas um dois se tornarão ostras adultas. Esta limitação é condicionada pelas possibilidades de obsorção de novos indivíduos pelo meio ambiente. Conclui-se, pois, que existe uma competição pela sobrevivência.

Observou ainda que em qualquer população são encontradas variações individuais que podem ser transmitidas hereditariamente. Algumas dessas variações são favoráveis à sobrevivência e à reprodução de  um organismo em determinado ambiente. Com o tempo, estas variações mais favoráveis vão se acumulando. Assim, as populações se transformam e depois de muitas gerações acabam por se diferenciar bastante de suas antepassadas. No decorrer desse processo vai ocorrendo uma seleção natural, a sobrevivência do mais apto, que preserva as espécies mais adaptaveis, modificando-as gradativamente para enfrentar as condições do ambiente em que vivem. E, se o ambiente sofre alguma modificação, também as espécies se formam. Dependendo do tipo de desenvolvimento dessas variações, diversas espécies, díspares entre si, podem descender de uma mesma espécie-tronco.

E DARWIN SE IMPÕE


No verão de 1858, Charles Darwin recebeu outro de naturalista. Alfred Russel Wallace (1823-1913), um manuscrito sobre a tendência das variedades a desviar-se indefinidamente do tipo original. O manuscrito tinha muitos pontos em comum com a sua teoria. Quando estava para enviar o manuscrito à Linnean Society, alguns amigos seus interferiram para que enviasse também o seu trabalho.
E assim foi  feito. Mas a comissão de Linnean Societv que leu o manuscrito não manifestou por ele nenhum interesse especial. A penas um certo professor Haughton de Dublin, fez declarações a respeito, dizendo que tudo o que havia de novo no trabalho era falso. Só estava correto o que persistia de velho.

A respeito desse decisão pouco entusiatica, Charles Darwin lançou seu livro no ano seguinte, com o título "Da Origem das Especies por Via da Seleção Natural ou A Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida". Os 1250 exemplares da primeira edição esgotaram-se num único dia. E poucos dias depois esgotaram-se mais 3000 exemplares de uma segunda triagem.

O tempo passou; novos conhecimentos somaram-se aos anteriores, evoluiu a teoria da evolução. A ciência do século XX burilou as idéias de Charles Darwin pelas mãos de inúmeros estudiosos, inspirados no próprio trabalho, daquele grande cientista. A descoberta das leis de Mendel, e o desenvolvimento da genética, ciência da hereditariedade, vieram a fornecer elementos fundamentais para os estudos experimentais da evolução orgânica. E o progresso tecnológico, com o advento dos computadores eletrônicos, amplia ainda mais as possibilidades do estudo e entendimento da evolução