BEETHOVEN, O MESTRE DO BONN

Havia algo de errado com aquele homem, atarracado que costuma passear pelas ruas de Viena, por volta de 1820. Parecia estar sempre ausente, distante do mundo que o rodeava. Sem rumo certo, ora caminhava mais depressa, ora se detinha por longos momentos, com expressões de perplexidade. Esses passeios conduziam-no aos verdes arredores da cidade, onde encontrava paz e inspiração. Como todos os solitários, esse homem de cabeleira revolta amava a natureza com toda a alma. Os curiosos que se voltavam para observa-lo não o perturbavam. Alheio a tudo seguia seu caminho, murmurando consigo mesmo e, às vezes, cantando alto com voz grave e rouca, enquanto, com as mãos, regia uma orquestra invisível. As pessoas julgavam-no louco. Não percebiam que era surdo, e menos ainda imaginavam que se tratava de um gênio, Ludwig van Beethoven.

A INFÂNCIA


Nascido a 16 de dezembro de 1770, na cidade de Bonn, Alemanha, Beethoven tinha atrás de si pelo menos duas gerações de musicistas. Seu avô era mestre de capela, ou seja, regente do couro da igreja da cidade, onde o pai de Lwdwig também cantava. O menino não parecia Alemão, era moreno, com seus antepassados flamengos. Desde cedo, revelou acentuada vocação para a musica, e seu pai decidiu conquistar, atráves do filho, o prestigio que fora incapaz de obter. A figura do pai de Beethoven é bastante controvertida, alguns biógrafos apresentam-no como beberrão e grosseiro, outros, como um homem brincalhão, que gostava de fazer música e cantar. De uma forma ou de outra, não foi só na casa paterna que nasceu o drama íntimo de Beethoven. Na verdade, toda a sua época, denominada romântica, vivia um clima de angustia e fantasia de paixões impossíveis e amores contrariados. Ludwig tinha apenas 5 anos quando começou a estudar simultaneamente cravo, violino e viola. Os exercícios ocupavam-no, diariamente, horas a fio. E, em 1778, Beethoven já participava de um recital, apresentado por seu pai como um prodígio de 6 anos de idade. A mentira certamente confundiu o menino, que dali a poucos meses, completaria 8 anos.

Juntamente com seus estudos musicais, aprendia a ler e escrever. Contudo, segundo suas próprias palavras, tinha uma letra "pior que a de uma cozinheira".Tirava notas baixas em aritmética e o latim sempre lhe parece uma língua inacessível. Ainda em 1778, Ludwing estudou a obra de outro gênio da música, Johann Sebastian Bach, sob a orientação de Heinrich van der Eeden, que o iniciou em mais um instrumento, o orgão. Mas o contato entre Mozart e Beethoven foi breve. Poucas semanas depois, ao receber á noticia que sua mãe estava internada num hospital, com tuberculose, Beethoven regressou a Bonn.

Viena, apesar das transformações sociais que vinham ocorrendo em toda a Europa desde a Revolução francesa, ainda continuava sendo o principal centro musical do continente, com sua nobreza protegendo os grands talentos. Ora no ano de1792, graças aos esforços do conde Waldstein, Beethoven despede-se de sua cidade natal e volta para capital austríaca, onde inicia o tipo de vida que levaria daí em diante, voltada para a composição e para as profundas paixões despertadas por alunas e admiradoras.

A MOCIDADE E O ESTILO GALANTE


O musicólogo russo Wilhelm von Lenz formulou a tese das três fases da criação musical de Beethoven, mocidade, maturidade e últimas obras, Embora algumas composições não se enquadrem bem no esquema proposto, a tese é até os dias de hoje geralmente aceita. O ano de retorno de Beethoven a Viena é o marco inicial da primeira fase, cujas obras se caracterizam pelo frescor juvenil, pelo brilho virtuosístico e pelo estilo galante de século XVIII.  esse perído contudo, é interrompido, às vezes, por tempestades emocionais e crises de melancolia.

Acolhido pela aristocracia austríaca, a vida do compositor transcorre mais ou menos despreocupada. Beethoven toma algumas aulas com Haydn e, graças a vários mecenas, pode-se dedicar-se às composições. Bem característicos dessa fase inicial são os dois primeiros concertos para piano e orquestra, o septo opus 20 e a sonata  Primavera, para violino e piano, composições ainda bem influenciadas pelo estilo de Mozart.

Contudo, outras obras desse período chegam a revelar outro temperamento de Beethoven, angustiado e rebelde. É o caso da sonata Patética, dos quartetos opus 18, da sonata Ao Luar e da sonata A Kreutzer.

UM HOMEM ATORMENTADO A MATURIDADE


O chamado período de maturidade, quando o estilo galante se torna trágico, começa pouco depois do inicio só século XIX, com o aparecimento da misteriosa doença nos ouvidos que quase leva Beethoven ao suícidio. Retirando-se para Heiligenstadt, subúrbio de Viena, o compositor chega mesmo a escrever seu testamento. Mas felizmente supera a crise. Volta então a criar uma obra que lhe garante o sucesso que poucos compositores conheceram em vida. A serenidade, porem, lhe seria sempre passageira, cedendo lugar à constante tensão de sua mente atormentada. A sinfonia n°, Eroica, pode ser considerada o marco inicial da maturidade de Beethoven. Consagrada originalmente a glória de Napoleão, o compositor rasga a dedicatória quando esse se coroa imperador. A terceira sinfonia passa então a ter outro título, Sinfonia eroica composta para celebrar a memória de um grande homem. Do segundo período também fazem parte a sombria sonata Apassionata, a sonata Aurora, dedicada ao conde Waldstein, o lírico concerto n°4 para piano e orquestra, e a 6° sinfonia, que levava a seguinte indicação: Sinfonia pastoral em recordação à vida no campo, antes expressão de sensações do que a pintura... Vê-se por essa anotação que Beethoven não admita que a Pastoral fosse considerada como simples descrição sonora de uma paisagem.

Aliás, fazer música como expressão de sentimentos apenas foi a grande contribuição dos compositores românticos. A esse respeito, conta-se que , certa vez, quando Beethoven executava uma de suas sonatas, uma condessa que ouvia lhe perguntou: " Muito bem , mas que quer dizer com isso?" Ele tornou a sentar-se ao piano e repetiu a peça. Ao terminar, explicou "Isto mesmo".

Ainda na fase de maturidade, Beethoven compôs , entre outras obras a sétima e oitava sinfonias e a sonata para violino e piano, opus 96, considerada a despedida poética desse período. No ano de 1814, o Congresso de Viena reúne politico, aristocratas e intelectuais de todo o continente europeu. Beethoven é aclamado com o maior compositor de época.

OS ÚLTIMOS ANOS: PRENÚNCIO DO FIM


Terminados os festejos de 1814, o mestre retira-se para a solidão, completamente surdo. Tem inicio o terceiro período. Beethovn torna-se um tipo estranho, mal vestido às vezes imundo. Faz longos passeios solitários e, absorto em seus pensamentos musicais, compõe obras que, na época, poucos compreendem, embora ouçam com o maior respeito, pois dão criações do "Mestre Bonn". No profundo silencio em que a doença o encerra, ela elabora uma música extremamente abstrata e interiorizada. O pórtico desse período é a sonata para piano opus 106. Igualmente características da terceira fase são a três últimas sonatas para piano e a nona sinfonia, turbilhão sonoro que assustou os contemporâneos do compositor. E, finalmente, o ciclo dos últimos quartetos, concluído em 1826.

Nesse ano, um rigoroso inverno castiga a Áustria. O organismo de Beethoven, debilitado pela intensa atividade e pela falta de trato, não resiste a pneumonia. N manhã de 26 de março de 1827, Beethoven entra em agonia e perde a consciência. Ao cair da noite morre. Revolucionara a arte musical, criando uma obra arrojada e gigantesca. Suas composições, em geral, são intensamente românticas, marcadas por um trágico sentimento da existência. Mas, cuidadosamente elaboradas, essas obras seguem com frequência, as normas do classismo. "Minha vida são minhas notas", disse Beethoven certa vez. De fato, inteiramente dedicado a musica, na solidão de seu triste mundo de silêncio, legou à humanidade um universo de sons de valor inestimavél.