CHARLES JOHN HUFFAM DICKENS, ESCRITOR

Após ter conhecido um período de glórias, a literatura inglesa, no fim do século XVIII, declinava perigosamente. Mas essa ameaça de estagnação logo seria afastada, graças à verdadeira revivescência literária que marcou "era vitoriana". A esta época, iniciada em 1837, quando sobe ao trono a Rainha Vitória, pertence Charles Dickens, talvez o mais popular e humano dos romancistas ingleses.

UM RAPAZ AMBICIOSO


Charles John Huffam Dickens nasceu em 1812, em Landport, perto de Portsmouth, no sul da Inglaterra. Tinha cerca de dois anos de idade quando a família se tranferiu, por pouco tempo, para Londres, e, depois, por longo tempo, para Chatham, cuja paisagem permaneceu em seu espírito por toda a vida, como a única lembrança da infância, sua época mais feliz. Por volta de 1822, John dickens, o pai como sempre  às voltas com dívidas, foi encarcerado na Prisão dos Devedores, em Marshalsea; sua esposa mudou-se com oito filhos, dos quais Charles era o segundo, para Camden Town, onde abriu uma espécie de "estabelecimento educacional". O menino Charles viu-se então obrigado a deixar a escola para trabalhar numa fábrica de tinturas, emprego que manteve durante vários meses, em troca de modesto salário, o que lhe despertou o imenso desejo de vencer na vida. Essa época sombria, simbolizada pela graxa dos potes com que trabalhava, Dickens retratou-se amargamente em "David Copperfield". Sua servidão termina, e ele volta à escola, quando seu pai recebe uma inesperada herança, com a qual salda suas dívidas e reconquista a liberdade. Por volta de 1836, Charles está trabalhando como repórter de vários jornais e redator de pequenos sketches (peças curtas) em alguns periódicos, com o pseudônimo de Boz (apelido de sua irmão caçula).

Em 1837 torna-se célebre, da noite para o dia, com "The Posthumous Papers of the Pickwick Club" ("Memórias do Sr. Pick-wick"), obra publicada num jornal durante 20 meses, em forma de folhetim (capítulos em série). Esta obra, na qual Dickens retrata alguns de seus amigos e atinge a plenitude de sua arte de caricaturista e humorismo, popularizou-se rapidamente. Conta-se que um juiz muito conhecido lia "Pickwick" em pleno tribunal, enquanto aguardava o veredicto do júri.

O ESCRITOR E SEUS PERSONAGENS


Além de "Pickwick", Dickens escreveu mais 14 obras, quase todas publicadas também em folhetins; os leitores acompanhavam o desenvolvimento da trama e apresentavam sugestões, através de cartas ao autor. Mestre do movimento, do suspense do humor satírico, do horror, Dickens dominava perfeitamente a arte de contar, ora comove o leitor até as lagrimas, ora o faz rir às gargalhadas. sua maior qualidade é a criação de tipos. Graças a admirável poder de observação, descobre nos indivíduos mais comuns traços caracteristicos, que, aproveitados ao máximo, chegam a desvirtuar seu sentido aparente. Uriah Heep (de David Copperfield"), por exemplo, manifesta uma exagerada humildade, que não passa, na verdade, de servilismo e falsidade. Mesmo os nomes de alguns personagens tirados do vocabulário inglês corrente, auxiliam a caracterização: Wackford Squeers, por exemplo, um mestre-escola exigente, um "bicho-papão" que sente prazer em bater nos alunos, é formado do verbo to wack, em inglês significa chicotear. Quando se trata, porém, de caracterização moral,, Dickens não é tão feliz: assim, Nicolas e Kate (de Nicolas Nickleby) são demasiadamente perfeitos para serem reais.

OBRAS MUITO DIVERSAS


Depoi de "Pickwick", Dickens escreveu "Oliver Twist" (1838), estas duas obras apresentam  marcante contraste: a caricatura cede lugar ao sombrio melodrama. Em "Oliver Twist", o mais vivido e sinistro de seus romances, o destino individual da criança infeliz preocupa mais o autor e o leitor do que a condição social que a persegue; por conseguinte, o sentimentalismo sufoca o sentimento de revolta. Embora muitos considerem este romance um "ensaio social", que descreve os horrores do trabalho nas usinas, o autor não chega, aqui a ultrapassar o "romancista das desgraças sociais, se bem que infligias pelas instituições injustas".
No romance seguinte "Nicolas Nickleby" (1839), Dickens procura associar o cômico e o trágico.

 A obra é uma condenação dos internatos a preços módicos, dirigidos tirânicamente por professores perversos e ignorantes. "Nicolas Nickleby" diverge profundamente de "David Copperfield", biografia romântico, que retrata a vida tal como Dickens a viu , ou seja, algo fantasticamente. Em todo caso, é a sua própria vida. Seus personagens talvez sejam deformados, mas existem pessoas reais  que lhes assemelham.
Em muitos de seus romances, Dickens critica as condições econômicas e sociais da época , o contraste entre o ambiente dos empregadores e o de seus subordinados, as condições deploráveis do trabalho das crianças, a vida miserável dos pobres, a crueldade da prisão por dívidas.

OUTRAS FACETAS DE UM TALENTO


Dickens também foi famoso e solicitado como orador. Ainda o teatro atraiu-lhe a atenção, com sua própria companhia, Dickens percorreu o país, escrevendo peças e representando. Este fato talvez explique as caracteristicas 'teatrais" de alguns de seus personagens. Dickens criou também dois semanários de enorme sucesso: Household Words e All the Year Round e fundou um jornal nacional o Daily News. Mas desistiu da empresa ao passar de três semanas. Em seus últimos anos, costumava ler suas obras em público, provocando fortes emoções, muitas vezes mulheres desmaiavam ao ouvirem, por exemplo, a descrição do assassíno de Nancy por Bill Sikes, de "Oliver Twist".

UMA VIDA MUITO TRISTE


Se como profissional Dickens conheceu muito sucesso, como homem conheceu muitas amarguras, um amor infeliz aos 19 anos, a morte de sua cunhada, Mary Hogarth, um casamento mal sucedido, o malogro de alguns de seus 10 filhos, e a morte prematura de outros, foram os fatos mais tristes de sua vida. Embora pareça escritor exclusivo para crianças, moças e senhoras, Dickens é dotado de uma força demoníaca, criador que foi de uma galeria de tipos. Tal como Balzac retrata Paris, Dickens retrata a Londres de sua época. Uma cidade cheia de fumaça, sacudida pela agitação revolucionária dos chartitas (assim era chamado um grupo que reivindicava em favor dos trabalhadores), mas fundamentalmente puritana e otimista, a Londres vitoriana. Os contemporâneos devoravam os livros de Dickens, reconheciam neles todos horrores, encontravam  neles todas as esperanças de seu tempo. A consagração, Dickens conheceu-a ainda em vida, quando a Rainha Vitória em pessoa o recebeu como o rei das letras inglesas.