"Em nome da verdade todas as regras ficam abolidas. O artista é senhor para escolher as convicções que lhe aprouverem" A proclamação veemente abria o prefácio de uma peça teatral, Cromwell, editada em 1827. Mas era bem mais do que o grito de guerra de uma nova escola literária, o Romantismo. Definia uma filosofia de vida, pelo menos para o seu autor, Victor Hugo. Poeta, escritor, dramaturgo, jornalista, a luta pela verdade transformou-o também em um homem de ação, inimigo tenaz da tirania de defensor apaixonado dos oprimidos.
MUITAS VIAGENS, UM JARDIM
A longa caravana avança em fila, pelo planalto árido de Castela, rumo a Madri. Uma escolta de cavalaria acompanha as carruagens dos oficiais e funcionarios franceses. O caminho é perigoso. Os combatentes espanhois podem surgir à qualquer instante. A Espanha nunca se conformara com a dominação napoleônica. Meio curioso, meio assustado, um rosto infantil surge na janela de um dos veículos. O menino Victor Marie Hugo está fascinado. Com a e os irmão Abel, e Eugene, vai ao encontro de seu pai, Conde Joseph Leopold Sigisberto Hugo, general de Napoleão. Aldeias devastadas, longas colunas de soldados, casinhas alvas desfilam diante da criança sensível de olhos bem abertos para o mundo. Constantes viagens faziam parte da vida do General Hugo.Por isso seu filho Victor Hugo nascido em Besançon a 26 de fevereiro de 1802, passou quase toda a infância fora da França. Esteve um ano na Espanha, viajou pela Itália.
As vivas impressões do tempo passado no estrangeiro marcaram a produção do escritor que cresceu com Victor. É o que aconteceu também com o jardim da casa da Rua da Feuillantines, uma das várias que habitou em Paris, cidade para onde volta, com sua mãe e irmãos, quando seus pais se separaram. Antigo convento das religiosas "feuillantines", ficava num beco que lhes tomou o nome. Desse jardim frande e sombrio, ele fala nos versos: " Eu tive minha loira infância, ah! demais efêmera, Três mestres: um jardim, um velho padre e minha mãe..." Nasce um poeta. Por imposição do pai, que queria vê-lo na Escola Politécnica, faz os estudos preparatorios no Liceu Louis le Grand, de 1814 a 1816. Mas nesse período enche cadernos com versos e outros escritos.
Com catorze anos proclama: "Quero ser Chateaubriand ou nada". E lê às escondidas os livros grande iniciador do Romantismo francês René de Chateaubriand (1768-1848). Revelada a vocação, escreveu comédias, contos e principalmente poemas mais tardereunidos num só volume e com esta inscrição na contracapa: "As bobices que faziam antes do meu nascimento". É imprecisa a época que Hugo consideraria a de seu "nascimento". Mas este foi sem dúvida precoce. Em 1818, sua epístola Vantagens do Estudo despertava a atenção da Academia e fazia com que Chateaubriand o chamasse "criança sublime". Em 1819, recebeu o "Lírio de Ouro", prêmio máximo da Academia de Jogos Florais de Toulouse, por uma ode ao restabelecimento da estátua de Henrique IV, derrubada na Revolução. Nesse mesmo ano passou a se ocupar exclusivamente de literatura , começando, como tantos outros, com a fundação de uma revista. Chateaubriand editava O Conservador. Hugo e os irmãos passam a publicar o Conservador Literário. O primeiro ensaio da revista chamou-se "Ode ao Gênio", tributo prestado ao seu ídolo. Nos seus quinze meses de vida, a revista publicou mais de cem artigos, entre política e crítica literária, teatral e artística.
EM NOME DA VERDADE O ROMANTISMO
No seculo XVIII teve começo na Alemanha e Inglaterra um movimento literário de reação ao Classicismo. A rigidez da escola clássica, em que fazia o culto da palavra, da perfeição da forma escrita, que como único caminho a seguir a imitação dos autores da Antiguidade Greco-Romana, que teriam atingido a máxima beleza literária, encontrou oposição na nascente escola romântica. O Romantismo descolou a fonte de inspiração para a Inglaterra e a Alemanha, para os contos medievais, as lendas germânicas e a mitologia escandinava Shakespeare foi redescoberto. Entre as caracteristicas dessa escola contavam-se o predomínio do conteúdo sobre a forma, a ausência de regras e formas prescritas, sendo soberana a inspiração individual. O estilo nobre pomposo dos clássicos encontrou nos românticos o substituto de uma linguagem livre, simples, quase coloquial.
A revolução romântica encontrou bom campo para se expandir entre os franceses no inicio do seculo XIX, inquieta e ávida de mudanças, na pausa repentina que se seguira ao clima de agitação e as grandes transformações politicas da Revolução de 1789. René de Chateaubriand, Mme de Staél, Alfred de Vigny já haviam preparado o campo para a orientação inovadora dos românticos. A representação de Shakespeare em Paris, por uma companhia teatral inglesa, em 1827, despertou imenso entusiasmo entre os intelectuais, fazendo com que Victor Hugo o denominasse "o maior criador depois de Deus". O próprio Victor Hugo, nesse mesmo ano, assume enorme importância no movimento romântico, com a declaração contida no prefácio do drama Cromwell.
A tumultuosa representação de Hernani, em fevereiro de 1830, peça que os críticos consideraram irregular de acordo com os padrões clássicos, torna definitiva a vitoria do Romantismo e consagra Victor Hugo como seu chefe incontestável.
O HOMEM E A OBRA
1822 é o ano do casamento com Asèle Foucher, amiga de infância, e da publicação de sua primeira antologia poética, Odes e Poesias . A familia aumenta depressa , o primeiro filho, Léopold, vive pouco tempo, mas a partir de 1824 nasce-lhe um filho a cada dois anos, Leopoldine, Charles, François, Adèle. Enquanto a família cresce dedica-se a um trabalho incansável, de que resultam poemas (Odes e Baladas, Orientais) romances (Han de Islandia, Bug-Jargal e o Último Dia de um Condenado), peças teatrais (Cromwell e Marion Delorme) artigos em jornais e revistas. Mas a peça Marion Delorme é interditada pela censura em 1829, isso favorece a mudança de credo politico, Victor Hugo se proclama um liberal.
De 1831 a 1843 são escritos Lucrécia Bórgia, Maria Tudor, Angelo, Ruy Blas, Queda dos Burgraves.
peças teatrais: Norte Dame de Paris, Claude Gueux,
romances: Folhas de Outono, Cantos do Crepusculo, Vozes interiores.
poemas: O Reno, impressões de viagem. Separado de Adèle em fevereiro de 1833 liga-se a atriz Juliette Drouet, que foi sua companheira até sua morte.
O LEÃO DA TULHEIRAS
Celebre e rico é eleito para a Academia Francesa em 1841, frequenta a corte das Tulheiras, torna-se membro do senado francês em 1845. E o politico sobrepunha o poeta. Seu espirito combativo valhe-le o apelido de "Leão". Preocupado com a miséria do povo, Hugo funda e controla o jornal. "O Acontecimento" (1848) em que os filhos Charles e François são redatores. Em seu jornal escreve artigos nos quais defendem a candidatura do Principe Luis Napoleão, para a presidência da Republica. Eleito o futuro Napoleão III, a decepção é mútua. O príncipe-presidente desiluda Victor Hugo que não o suspeitava capaz de violar a constituição que havia jurado. E Victor Hugo desilude ao príncipe-presidente, com o discurso contra a miséria e a intervenção francesa em Roma, não aceita a politica adotada pelo líder . E chega a atacar Luís Napoleão diretamente. "Como! Por que tivemos Napoleão o grande e agora temos Napoleão o pequeno!"
Perseguido por tentar organizar a resistência à instauração da ditadura de Napoleão III, Hugo se refugia em Bruxelas vai para a ilha de Jersey, e por último a Guernesey, de onde somente retorna a França depois da queda do Império, se bem que seu nome não constasse da lista dos proscritos. No exílio torna-se resoluto acusador do poder pessoal de Napoleão III, que ridiculariza em "Napoleão o pequeno e os castigos". Datam do mesmo período os poemas " A lenda dos seculos", "As contemplações" os romances "Os Miseráveis", "Trabalhadores do mar", "O homem que ri" .Proclamada a III Republica , retorna em Paris . E a politica. É eleito deputado e se torna presidente da ala esquerda da Assembleia Nacional. Em 1876 se elege senador. Em maio de 1883 morre Juliette Drouet, e dois anos depois o poeta a segue. "E este combate entre o dia e a noite..."- foram as última palavras do velho combatente. Aos oitenta e três anos o "Leão" perdia a última batalha. Em seu testamento dizia "Dou cinquenta mil francos aos pobres . Desejo ser levado ao cemitério em um carro fúnebre, refuto a oração de qualquer igreja, rogo as preces de todas as almas. Creio em Deus"