FREUD E A PSICANÁLISE

Viena, fins do século XIX. Perante um público composto quase inteiramente por médicos, um homem desenvolve uma teoria sobre sexualidade infantil. Imbuídos dos preconceitos da época, os ouvintes não admitem que as reações infantis tenham ligações com sexo e, após violenta discussão com o orador saem indignados. Realmente, poucos personagens do mundo da ciência  suscitam tão acirrada polêmica quanto Sigmund Freud, o criador da psicanálise. E poucas pessoas se entregam de maneira tão completa e apaixonada à pesquisa do mistério que é a alma humana.

INICIO DE UMA CARREIRA


No dia 6 de maio de 1856 nasce Sigmund Freud em Freiberg, na Morávia, Áustria. Filho de Jacob Freud e Amalie Natansohn, modestos comerciantes judeus. Aos 4 anos de idade, Freud muda-se com a família para Viena, onde passara a maior parte de sua vida. Primeiro da classe desde o inicio da vida escolar Freud revela-se extremamente dotado para química e a botânica. Atraído  pelos trabalhos de Darwin, interessa-se pela pesquisa cientifica. Influenciado pela obra "A Natureza", de Goethe, ingressa na faculdade de medicina de Viena, em 1873. Mas no meio universitário encontra obstinada reação anti-semítica. No entanto, o fato não o abala: "Jamais aceitei que devesse ter vergonha de minha origem ou como diziam, da minha raça", afirma num trecho de sua autobiografia. Além de ter que enfrentar o preconceito o jovem estudante vive momentos difíceis em família. Com a quebra da bolsa de valores de Viena, Jakob Freud ficou falido. Para sobreviver sua família é obrigada a aceitar a ajuda de parentes.

Em 1876, ainda estudante, Sigmund Freud começa a interessar-se por neurologia, e a trabalhar em pesquisas sobre o assunto, com o professor Ernest Brucke. Aí conhece Joseph Breuer, que se tornará mais tarde seu grande amigo e colaborador. Em 1881, concluiu seu curso de medicina. Sua tese de doutoramento versa sobre o sistema nervoso. E resolve seguir por esse caminho, especializando-se em neurologia. Durante vários anos, trabalha num clínica para crianças, onde descobre um tipo de paralisia cerebral e escreve um ensaio sobre a afasia, problema de fala proveniente de distúrbios psicológicos.

O ENCONTRO COM CHARCOT


Freud já é quase independente. Não recebe mais ajuda da família, mas sim de médicos amigos, em particular Joseph Breuer, com quem passou a trabalhar. Breuer transmite-lhe o resultado de certas, experiências que fizera no campo neurológico e conhece sua experiência em um caso de histeria que havia melhorado após um tratamento pela hipnose. Freud entusiasma-se com a experiência. Dedica-se com afinco a estudar o assunto, não só em teoria mais principalmente na prática.

Acreditando ser a hipnose a solução para pertubações mentais, muda-se para Paris em 1885, a fim de estudar com Jean Martin Charcot. A técnica do grande neurologista, que aplica o hipnotismo nos pacientes de sua clínica, torna-se motivo de debate nos meios médicos, mas a influência, ao mesmo tempo, muito deles. Como Sigmund Freud e Breuer, Charcot também acredita que a historia deve ser tratada do ponto de vista psicológico e não como doença orgânica. São raros os que pensam assim. A maioria dos médicos ainda preferem seguir o lema: mens sana in corpore samo, um corpo são significa obrigatoriamente, a presença também de mente sadia.

EGO, ID, SUPEREGO


Em abril de 1886, Freud retorna a Viena, onde retoma seu trabalho ao lado de Breuer. E abre seu próprio consultório para clientes particulares. Em setembro do mesmo ano casa-se com Martha Bernays. Em seu consultorio, Freud aplica o sistema da hipnose aliado ao método da catarse: libertando-se de emoção reprimida, o paciente revive, no sono hipnótico, as experiências que motivaram sua angustia; revelam-se, assim as "bases" do seu desajuste. Preciosas informações sobre os conflitos inconscientes surgem desse trabalho. Essa informações colhidas na pratica serão descritas mais tarde no livro elaborado com a colaboração de Breuer: "Estudo Sobre a Histeria". Aos poucos surgem dificuldades. Os resultados da hipnose são muito relativos, os problemas mais profundos permanecem impenetraveis. Freud substitui o sistema da hipnose pelo da associação livre: o paciente é levado a dizer livremente tudo o que lhe ocorre, à medida que o medico faz peguntas ou menciona certas frases ou eventos.

Por essa técnica, o individuo muitas vezes acaba relatando fatos que ocorreram a muito tempo e permaneciam "guardados" em seu subconsciente. E, segundo Freud, muitos desses acontecimentos remotos teriam sido esquecidos justamente como um mecanismo de defesa, por serem origem de fortes choques emocionais. Segundo Freud, ainda, a personalidade estaria composta de três camadas: o id, o ego e o superego. O id é compreendido como a parte mais antiga da mente, inteiramente inconsciente. O id não apresenta conflitos. O ego corresponde aproximadamente ao sistema pré-consciente e consciente. É ele que organiza a defesa, assegura a adaptação à realidade, regula os conflitos, faz a censura e representa a razão, a percepção, a memoria. O superego é o representante dos aspectos restritivos da psique. Seria as consequencias das regras impostas pelos pais e convenções sociais.

OS SONHOS, UM NOVO MUNDO


Durante o período que poderia ser chamado de "primórdios da psicanálise", Freud observou e deteve-se a analisar o que entrevia no inconsciente de seus pacientes. Chegou à convicção de que todos os problemas psicológicos que se manifestam a vida adulta tem raízes na infância. Suas teoria originaram ferrenhas polemicas nos meios intelectuais, ganhou inimigos exaltados. A psicanálise seguia seu caminho. Após esses passos iniciais, Freud começou a entrever uma nova chave para desvendar o mundo oculto da mente. Muitas vezes em seus relatos a respeito das experiência vividas, os pacientes discorria sobre sonhos que haviam causado impressão profunda. Se no inconsciente estava a raiz dos problemas, o sonho poderia ser um caminho para trazer à tona os sentimentos e emoções reprimidos. Imaginou que o sonho poderia funcionar como uma especie  de "válvula" para liberar o choque entre a vontade (do consciente) e o instinto (do inconsciente).

Freud foi o primeiro a interessar-se cientificamente pelos sonhos. Considerava o estudo e a interpretação dos sonhos como um passo importantissimo no sentido de transformar a psicologia em verdadeira ciência. Até então, o assunto só preocupava feiticeiros, astrólogos e adivinhos. Aprofundando-se no assunto, passou a considerar a interpretação dos sonhos como um dos melhores métodos para vasculhar o mundo subconsiente dos indivíduos. Os conflitos entre o consciente e o inconsciente  "escapam" durante o sono, por meio de símbolos, na maioria das vezes surrealistas. A aparente incoerência de determinados sonhos, as sequências absurdas, os súbitos cortes e mudanças davam a chave de sua significaçõ, quando interpretados por meio de símbolos e da "associação livre" A partir desse estudo, formulou a sua teoria para explicar as neuroses.

A NOVA ESCOLA, OS NOVOS CAMINHOS


Durante dez anos em que trabalhou na elaboração de suas principais teorias Freud esteve só. Em 1908, juntaram-se a ele alguns colegas e discípulos que iriam posteriormente completar e continuar sua obra: Alfres Adler, Carl Jung, Sandor Ferenczi, Wilhelm Steckel, Otto Rank. Em 1908, reuniram-se no primeiro Congresso Internacional de Psicanálise. Pouco depois fundaram a Associação Internacional de Psicanalise, com sucursais em vários países. Começaram a editar revistas especializadas, e divulgar os resultados obtidos em Viena para o mundo inteiro. A fama das novas teorias logo alcança outros continentes. O renome de Freud chega aos Estados Unidos, Em 1909, ele pronuncia uma série de conferências na Universidade de Worcester, em Massachusetts. É o primeiro reconhecimento acadêmico internacional. No ano de 1912, seu colaborador Adler se separa dele, em 1913, Jung e a seguir Steckel. Os caminhos seguidos no estudo e na pesquisa já começam a divergir, embora o ponto de partida tenha sido o mesmo. Mas as novas teorias não tiraram o mérito de Freud. Ao contrario, valorizaram-no, foi a partir das ideias dele que elas puderam surgir. E a partir dele, o interesse pelo homem e por seus problemas mais profundos intensificou-se e aperfeiçoou-se.

DOENTE E PERSEGUIDO


Com a eclosão da I Guerra Mundial, Freud enfrenta um ambiente hostil, carregado de ódio contra os judeus. Os últimos anos de sua vida coincidem com a expansão do nazismo na Europa. E há já dezesseis anos ele sofre de câncer no maxilar. Além da doença, é atrozmente perseguido por causa das suas ideias. Seus livros são queimados em praça pública, junto com muitos outros atores judeus. A alegação era a de serem perniciosos por conterem "uma pornografia especialmente judaica".

Seus bens são confiscados, sua blibioteca queimada. Esta com 81 anos quando Hitler invade a Áustria. Seus amigos insistem para que abandone o país. Mas aquela é sua pátria, não quer deixa-la. Retiram-lhe o passaporte e proíbem-no de trabalhar. Graças à intervenção de Roosevelt, presidente americano, consegue deixar o país e chegar ileso à Inglaterra. Mas morre um ano depois, vitimado pelo câncer.

Hoje, é certo que suas teoria revolucionaram para época abriram novas perspectivas para a exploração dos problemas do homem. Sua teoria e sua terapia psicanalista foram desenvolvidas e modificadas pelos seus seguidores, enriquecendo-as. Passou a constituir um instrumento obrigátorio de pesquisa e interpretação em todos os domínios das ciências humanas. Além disso, as aplicações da psicanálise à critica artística e literária são extremamente amplas e fecundas.