Certa vez um nobre francês, desdenhando do nome de Fraçois Marie Arouct Voltaire, pela sua origem de baixa nobreza, recebeu como resposta. " O nome que trago, meu senhor, é obscuro. Mas eu ao menos, honrei-o". Por essa resposta considerada insolente, Voltaire pagou com uma estada forçada na Bastilha, seguida de um exílio na Inglaterra. Essa não foi a primeira nem seria a última vez em que Voltaire se veria as voltas com a prepotência. Seu valor como pensador vem justamento do fato de ter dito o que disse na época que viveu.
PARA COMEÇAR UMA PRISÃO
Voltaire nasceu em Paris em 1694. Filho de um tabelião (notário), ficou órfão de mãe muito cedo. Aos dez anos, em 1704, foi interno no Louis le Grand, colégio de jesuítas, onde permaneceu por sete anos. Aos dezesseis anos, iniciou o estudo de direito, obedecendo ao desejo do pai. Mais tarde, Voltaire abandonaria a advocacia, observando que desgostara diante da "profusão de coisas inúteis com que haviam desejado carregar sua cabeça". Ainda jovem, viu-se entregue aos cuidados do Marquês de Châteauneuf, que se dirigia para a Holanda, na qualidade de embaixador. Mas Voltaire apaixonou-se por uma jovem francesa residente em Haia, filha de um refugiado protestante. Foi demitido e voltou a Paris. E tornou-se notário de um procurador na província. Nessa época, começou a escrever sátiras, conta tudo e contra todos. Por causa dessas sátira foi levado para Bastilha pela primeira vez. Foram onze meses de encarceramento. Saiu da prisão em 1718; havia escrito o começo de um poema épico, La Henriade, e uma tragédia completa, Édipo. Foi na ocasião da encenação dessa tragédia que adotou o pseudônimo de Voltaire, pelo qual ficaria conhecido. Nessa mesmo ano de 1718 a Comédie Française encenou o Édipo. Era o começo da fama.
UM RICO HERDEIRO
O ano de 1721 vai encontrar Voltaire disputado por todas as rodas mundanas parisienses. Com a morte do pai, tornou-se herdeiro de um razoável fortuna que logo ampliou. Já era rico famoso quando solicitou licença para publicar o poema Henrique IV ou A liga (La Henriade), iniciado na prisão. A permissão lhe foi negada, mas, nem por isso, deixou de dar a público sua obra: divulgou-a clandestinamente. Aos poucos, Voltaire passou a desenvolver inúmeras atividades, que forma desde a participação na vida mundana, até os negócios, mas sempre dedicando-se a literatura. Em Rouen, onde publicou La Henridale, meteu-se com uma questão com um cavaleiro. Acabou sendo espancado e lançou um protesto contra a violência de que foi vitima. Seu protesto resultou em nova prisão, por pouco tempo. Um mês depois saía da Bastilha e era conduzido a Calais, de onde embarcou pela Inglaterra exilado. Para Voltaire, a Inglaterra era o país ideal, onde poderia encontrar a liberdade, conforme confessara a um amigo, em cartas. Por isso mudar-se para lá não lhe causou grande transtorno. Ao contrário, foi o início de uma importante fase de sua vida.
DEPOIS DA INGLATERRA MAIS TRABALHO
A temporada de dois anos na Inglaterra, 1726 a 1728, foi fundamental na vida de Voltaire. Aprendeu inglês descobriu a obra de Shakespeare, interessou-se por pesquisas cientificas e, sobretudo, compenetrou-se das idéias de tolerância religiosa desenvolvidas na sociedade britânica. Retornando à França, aumentou sua fortuna e passou a produzir febrilmente: publicou a Histórias de Carlos XII (1731), e ainda, Brutus (1730) e Zaíra (1732), duas peças teatrais encenadas em Paris, onde introduziu recursos shakesperianos na tragédia clássica francesa. Com o Templo do Gosto (1733) e principalmente, com as Cartas Filosóficas (1733), criticou e satirizou os poetas franceses, em comparação com os artistas e com a sociedade inglesa. Nesta última obra, trata da religião, filosofia, política e literatura, entremeadas de ataques a sociedade francesa. Nova perseguição. A obra foi condenada como perigosa à religião e sociedade, o que não impediu a sua difusão e popularidade. A partir dessa época, Voltaire refugiou-se no castelo de Cirey, em companhia de Mme de Châtelet, onde permanece durante quinze anos de incessante trabalho. Escreve de tudo, sob as mais variadas formas e sobre diversos assuntos. Tragédias como: "A Morte de César, Maomé, Mérope, Semíramis; O Filho Prodigo, comédia. O Mundano, sátira filosófica".
Encontrou seu modo mais caracteristico de expressão nos contos e romances satíricos, com os quais se lançou à desmitificação das verdades oficiais da época, disfarces da opressão social. Cândido ou Da. Inocência é a mais celebres dessas obras satíricas. De estudo histórico escreveu Séculos de Luis XIV e Ensaio sobre os costumes. De Cirey, Voltaire estabeleceu correspondencia com Frederico II, soberano da Prussia, que se dizia admirador de suas obras. Isso resultaria num convite para a côrte de Potsdam, como hóspede do Império.
A VIDA NA CORTE
Reconciliado com o rei francês, Voltaire voltou a frequentar a corte. Foi agraciado com títulos e honrarias: historiógrafo da França e Gentil-Homem da Câmara do Rei. Finalmente, foi eleito para a Academia Francesa em 1746. Após a morte de Mme de Châtelet, em 1749, resolveu aceitar o convite do imperador Prússiano. Na Prússia foi festejado como nenhum outro, recebendo o título de Camareiro-Mor e honrarias como a Cruz da Ordem do Mérito. Mas durou pouco a amizade entre Frederico II e Voltaire. O imperador, extremamente ciumento e vaidoso, irritou-se com as correções feitas por Voltaire e seus poemas em francês. Em 1752, na Prússia, Voltaire lançou o "Panfleto do Doutor Akakia", sátira ao presidente da Academia de Berlim. Foi o suficiente para ter que fugir do país, tendo em seu encalço a policia do imperador. Voltaire levava consigo, um volume de poesias de Frederico II, com o qual pretendia fazer rir toda a Europa. Alcançado devolveu o livro e instalou-se na Alsácia.
Três anos depois, mudou-se para Ferney, possessão francesa na Suíça. Torna sua residência um asilo inviolável até o fim de sua vida. De Ferney, passou a se corresponder com vários intelectuais, entre os quais, D'Alembert. Colaborou na redação da "Enciclopédia" juntamente com Diderot, Montesquieu, Rousseau, D'Alembert, Buffon, Helvetius e outros grandes nomes. Graças à interferencia de Mdame Pompadour, a obra foi completada: 36 volumes, dos quais dois eram de pranchas ilustradas que mostravam os instrumentos e as maquinas utilizados na época. Na "Enciclopedia" estavam reunidas obras das mais importantes, de divulgação das idéias contra a ordem estabelecida. Era um instrumento para a propagação da nova filosofia liberal. Com este trabalho, os filósofos iluministas influenciaram decisivamente a política dos chamados déspotas esclarecidos. E marcou uma época.
CONTRA A RELIGIÃO CATÓLICA
Incessante, continua a produção de Voltaire: contos, romances, tragédias, poemas e sobretudo, obras satíricas que, não podendo assinar, publicava anônima e clandestinamente. Lançou-se violentamente contra a Igreja Católica "Esmaguemos a Infame", dizia. Ao mesmo tempo, fazia constantes campanhas em favor dos pobres da região. No seu refúgio em , Voltaire continuou exercendo seu papel de filósofo, distribuindo terras, criando escolas, defendendo os protestantes e realizando inflamadas campanhas contra erros judiciários. Aos olhos do povo, surgia como a encarnação da justiça social. No entanto, sua posição estava longe disso. Entendia que o povo teria que ser "guiado" e não instruído, pois " não é digno de ser". Dizia: "Parece-me essencial que existam vagabundos ignorantes".Ferney
Depois de 28 anos de ausência, Voltaire regressou a Paris em 1778. Foi recebido como herói popular. Quando da estréia de sua peça "Irene", teve seu busto coroado em cena aberta. Morreria pouco depois, aos 84 anos de idade. Seu sepultamento, apesar das dificuldades em dar-lhe sepultura cristã, foi na Abadia de Scellières. Em 1791, numa cerimônia de grandes pompas e honrarias, seus restos mortais foram transladados para o Panteão
Voltaire deixou uma obra imensa. Com seus trabalhos filosóficos e de ficção, em nome da Razão humana, conseguiu levar ao ridículo e à desmoralização as instituições político- religiosas da época absolutista. Preparava assim o caminho que breve conduziria à Revolução Francesa (1789). Nas obras históricas, Voltaire fez de seus relatos um jogo sempre renovado de paixões humanas: "Há umas doze batalhas", registrava ele numa carta, "das quais não falei, graças a Deus, porque eu escrevo a história do espírito humano e não uma crônica".
Suas cartas, dirigidas a soberanos, intelectuais, homens de negócio e amigos, são essenciais para a compreensão do seu pensamento.