Na vida real, um homem baixinho, mulato doente. Tão feio que deixava crescer os bigodes e a barba para esconder parte do rosto. Funcionário exemplar, cavalheiro distinto. Na vida que transpôs para o papel, um homem cínico, irreverente e desrespeitoso.tudo foi objeto de sua feroz ironia, de sua amarga censura. Nenhum gênero literário foi seu desconhecido: escreveu poesia e teatro, cronica e critica, conto e romance. Assistiu à abolição da escravatura e à proclamação da Republica no Brasil, mas não se envolveu em nada. O que lhe interessava eram os fatos de todo o dia, as inquietações do comportamento humano, o pitoresco e o rídiculo. Numa época em que a literatura brasileira se reduzia a estórias de amor e a poesias grandiloquentes, ele surgiu como um demolidor de tabus. Deixou de lado os enredos românticos, as pálidas donzelas e os gentis mancebos, para penetrar a fundo na alma de suas personagens. Esse homem doente, vindo de um lar triste e pobre, saiu à cidade para vencê-la. Acabou se tornando uma das maiores glórias se não a maior de literatura do Brasil: o senhor Machado de Assis.
"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo principio ou pelo fim"
E Brás Cubas resolveu começar suas memórias pelo fim. Mas pelo principio parece ser mais razoável. E o principio, neste caso, vem a ser o nascimento. Nasceu, pois, Joaquim Maria Machado de Assis aos 21 de junho de 1839, no bairro carioca do Livramento. Da mãe, modesta portuguesa, pouca lembrança teria, já que ela morreu muito cedo. Guardou mais lembrança da madastra, a lavadeira Maria Inês. Quando morreu seu pai, um mulato pintor de paredes, o garoto tinha apenas 12 anos. E precisou trabalhar para ajudar a madastra, vendeu balas, vendeu doces, parece até que foi sacristão. Mas esse tipo de trabalho era inseguro, e ele tratou de arranjar um emprego mais garantido. Foi ser aprendiz de tipógrafo, na Tipografia Nacional, onde conheceu o escritor Manoel Antônio de Almeida, autor do romance "Memórias de um Sargento de Milícias, que o encorajou a escrever. Machado de Assis não desprezou o estímulo, e um ano depois em 1855, publicou um poema, "Ela" no jornal A marmota fluminense. E em 1858 lá estava trabalhando com o dono desse jornal, Francisco de Paula Brito, que o introduziu posteriormente nos meios literários. Machado de Assis exercicia a função de revisor de provas, e começava a frequentar o mundo boêmio dos intelectuais
cariocas, sem abandonar a atividade literária.
Por apresentação de Quintino Bocaiúva, tornou-se redator no Diário Oficial, onde, em 1867, foi promovido a assistente diretor. Trabalhou ainda na Revista Ilustrada , Gazeta de Noticias, Jornal do Comercio e outros periódicos. A vida sorria para Machado de Assis. E lhe sorriu ainda mais no dia em que casou com uma senhora portuguesa, Carolina Augusta Xavier de Novais, em 1869. Ela lhe revelou os clássicos lusitanos e ingleses, ajudou-o como revisora de seus escritos, e como enfermeira. Seu primeiro romance, Ressureição, foi publicado três anos após o casamento. Logo em seguida (1873), foi nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Viação e Obras Públicas.
Pouco depois, era oficial de gabinete do ministro e, mais tarde, diretor da Viação (1892). Em 1896 fundava a Academia Brasileira de Letras, da qual foi presidente. Mas o sucesso não ajudava a suportar a doença. Os ataques de epilepsia eram cada vez mais frequentes. O reumatismo entrevava-lhe os membros. Uma úlcera na língua dificultava-lhe falar e comer. Para culminar seu sofrimento, a morte de Carolina, em outubro de 1904. Nada mais tinha o velho Machado de Assis a fazer. Ainda escreveu um romance, Memorial de Aires, todo embebido de recordações do passado, se deitou para morrer no dia 29 de setembro de 1908. Com grandes honrarias foi enterrado no cemitério de São João Batista, na mesma cidade onde nasceu e viveu toda a vida. Um dos brasileiros mais aplaudido na época, o jurista Rui Barbosa, fez os últimos elogios ao homem e escritor.
"Guarda estes versos que escrevi chorando"
Eis aí um fingimento literário. Uma das muitas tentativas de Machado de Assis para fazer poesia, quando ainda não sabia bem qual a sua tendência. Que não era a poesia ele viu logo Mas não a abandonou, apenas passou-a para um plano secundário em sua obra. Sua ironia e seu racionalismo impediam os vôos mais altos da sensibilidade e esfriavam todos os ímpetos próprios dos poetas. Seus versos são bem construídos, obedecem às normas da métrica, mas não tem sentimento. Exceto o famoso soneto "A Carolina", "A Mosca Azul", "O Circulo Vicioso", e talvez mais uma ou outra poesia, a obra poética de Machado de Assis está muito aquém de seu talento narrador.
São estas suas coletâneas poéticas: Crisálidas (1864), Falenas (1869), Americanas (1875), Ocidentais (1879-1880), Poesias Completas (1901).
"Não consultes médico consulta alguém que tenha estado doente"
É a personagem Carlota quem declara, citando um provérbio grego. Ela é uma das figuras centrais da comédia "Não Consultes Médico", peça que se hoje fosse representada talvez contasse como espectadores com apenas filhos dos poucos amigos íntimos de Machado de Assis. Pois o teatro machadiano é o ponto fraco de sua produção literária. Como aconteceu com a poesia tem mais o valor de uma experiência, um exercício. E assim como o exercício poético produziu cinco coletâneas, o teatral rendeu treze peças das quais se destacam Tu, Só Tu, Puro Amor (1881), Lição de Botânica, Deuses de Casaca (1866) e Não Consultes Médico. Embora medíocre, a colaboração de Machado de Assis para o teatro nacional, naquela época ainda embrionário, é muito importante. Ele foi o primeiro a simplificar os complicados cenários e se interessou muito mais no comportamento das personagens do que no enredo.
"O crítico deve ser independente- independente da vaidade dos autores e da vaidade própria"
"Que os Estados Unidos começam de galantear-nos é coisa fora de dúvida, correspondamos ao galanteio"
Essa frase bem poderia figurar num jornal moderno. é o inicio de uma crônica de Machado de Assis, publicada em 2 de junho de 1878. Falava ele da inauguração de uma nova linha de navegação entre o Rio de Janeiro e Nova Iorque, e concluía afirmando que "o proveito será comum" se as duas nações estreitarem seus laços de amizade. Quase todas as crônicas machadianas parecem ter sido escritas hoje. Principalmente as que discorrem sobre altas personalidades, sobre discussões na Câmara dos Deputados, sobre a mudança do Distrito Federal para Goiás, sobre "contas do vigário". A linguagem usadas nesses comentários é sempre das mais espontâneas, carregada de expressões populares e até de gíria: "não digo que o carnaval espichasse as canelas" (15-2-1877) "um segredo menos acessível ao meu bestunto" (1-11-1877), "podem ir tossir para o diabo que os carregue" (2-7-1883). Muitos dos modernos cronistas brasileiros aprenderam a escrever crônicas com Machado de Assis, essa arte de narrar um episódio da vida cotidiana, geralmente em tom humorístico. As crônicas de Machado de Assis estão reunidas em cinco volumes: A Semana (1892-1897), Historias de Quinze Dias (1876-1877), Notas Semanais (1878), Balas de Estalo (1883-1886) e Bons Dias (1888-1889).
"A causa da melancolia de Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia."
Talvez na poesia ou no teatro, Machado de Assis pudesse declarar a mesma coisa que afirmou a respeito do mestre Romão. Mas não no conto, gênero em que ele foi pioneiro e mestre no Brasil. O conto é uma forma literária condensada, em que se narra um episodio da vida, uma personagem. E o contista deve ter concisão de pensamento, sutileza de idéias e sobriedade de estilo. Tais requisitos são magnificamente preenchidos por Machado. A historia é o que menos lhe interessa. Ele pretende transmitir, principalmente, um estudo da alma humana, suas contradições, frustrações e anseios, como é o caso do mestre Romão, de "Cantiga de Esponsais". O estilo, como o conto exige, é sóbrio, mas não monótono. Machado de Assis não se permite minuciosas descrições, nem abusa dos adjetivos. Suas frases são curtas e secas. Onde não precisa usar três palavras, sempre usa duas. E tudo perpassado de ironia e humor- humor que ele bebeu nos escritores ingleses e no livro bíblico Eclesiastes. Classificam-se suas primeiras obras, as escritas antes de 1881, como "românticas", os contos dessa fase estão contidos em dois livros: Contos Fluminenses (1869) e Historia da Meia-Noite (1873). A partir de 1881, seus livros são rotulados de "realistas". Da fase áurea de Machado de Assis são Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Varias Histórias (1896), Paginas Recolhidas (1899), Relíquias de Casa Velha (1906), e Outras Relíquias (publicado em 1910, após sua morte).
Alguns dos melhores contos machadianos "realistas contidos nesses livros são "Cantiga de Esponsais", a desesperada busca da expressão, "Noite de Almirante", análise de uma desilusão amorosa, "O alienista", o despertar de um adolescente para o amor, "Teoria do Medalhão", como vencer na vida sem fazer força, "O Espelho", a dualidade da alma humana. Muitos outros poderiam ser citados. Na verdade, quase todos os contos de Machado são os melhores contos de Machado.
"Não tive filhos: não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria"
É a última frase de "Memorias Póstumas de Brás Cubas", o primeiro grande romance de Machado de Assis. Ela resume bem o que expressam seus livros "realistas" a miséria humana. As grandes figuras da galeria machadiana ou são adúlteras ou estão a ponto de ser. Capitu, talves sua heroína mais famosa, personagem de "Dom Casmurro" é o protótipo de mulher dissimulada, que engana vilmente ao marido, ou parece engana-lo. Sofia, protagonista de "Quincas Borba", fica no limiar do adultério, tentando o pobre Rubião até levá-lo à loucura, para tirar dele até seu último centavo e assim enriquecer seu esposo. Virgília, de "Memórias Póstumas", repele Brás Cubas quando podia casar-se com ele, e torna-se sua amante depois que está casada com outro homem, mais importante na escala social. Apenas Fidélia , de "Memorial de Aires", é a mulher honesta e fiel, como seu próprio nome sugere. Quanto aos homens, a imagem que Machado de Assis tem deles pode ser resumida em uma frase de Quincas Borba: "Ao vencedor, as batatas. Ao vencido, ódio ou compaixão". Pois para ele no mundo há só opressores e oprimidos. E o trágico é que nenhuma dessas categorias tem a menor dignidade. Costuma-se dizer que os romance "realistas" de Machado de Assis são dissolventes por haver neles uma visão muito pessimista do mundo. Isto não ocorre com os seus romances considerados "românticos", como Ressureição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Laiá Garcia (1878). Os da segunda fase são Memórias Póstumas que juntamente com "O mulato" de Aluísio de Azevedo, marca o inicio do realismo no Brasil; Quincas Borba (1891), em que trata do problema da loucura; Dom Casmurro (1899), que versa sobre o adultério e a dúvida; Esau e Jacó (1904), sugerido pelo tema bíblico dos gêmeos que brigavam no ventre materno; e Memorial de Aires (1908), o livro da saudade, escrito após a morte de Carolina.
