Poucas pessoas se projetaram na posteridade com a grandeza de Michelangelo. E poucas correspondem tão bem à imagem que se faz de um gênio. Entretanto, passados quatro séculos, quem poderia decifrar o sentido mais profundo de sua obra? Quem poderia dizer o que inspirou a força melancólica que emana da "Pietà", do "Moisés" ou do afresco do "Juízo Final" na Capela Sistina?. Da tumba inacabada do Papa Júlio II à construção da Catedral de São Pedro, encomendada por Paulo III, cada obra do artista encerra um drama do homem. Mas através dessas infelicidades, uma grande alma se revela. Generosa, magnânima consciente do seu poder criador, fiel aos seus objetivos. Sobretudo, eternamente inquieta, solitária, indecisa, apaixonada. Esse esforço incessante diante de todos os obstáculos constitui, talvez, o traço mais significativo do gênio de Michelangelo.
Michelangelo nasceu em Caprese, nas vizinhanças de Florença, em 1475. O orgulho que tinha por sua ascendência aristocrata, por sua "raça", como escrevia em cartas, fazia-o afirmar com violência: "Eu sou o escultor Michelangelo... Sou Michelangelo Buonarroti"
UM COMBATE DESESPERADO
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| "o profeta Jeremias" |
Entre o paganismo grego e a fé cristã, entre a inquietação do seu espírito e
o trabalho sem tréguas a que submetia seu corpo, a vida inteira de Michelangelo foi um implacável combate consigo mesmo.
O conjunto de sua obra exprime essa luta desesperada, a ânsia de arrancar figuras do mármore, de pintar formas, contrastes, corpos carnosos e vivos, de projetar templos de espetaculares dimensões.
Escultor, pintor, arquiteto e poeta. Michelangelo teve uma grande paixão, a escultura. Talvez porque o mármore fosse o melhor meio para modelar suas monumentais figuras. Levado pelo entusiasmo e usando sua grande força física, com um só golpe de martelo conseguia deixar o mármore quase na medida apropriada. Assim explicava sua técnica tão vigorosa " A figura já esta na pedra , basta arranca-la para fora ". E as impressionantes figuras que talhou confirmam suas palavras, pois parecem estar lutando para se libertarem da pedra.
Em 1501, quando começou a trabalhar na estatua de Davi, o jovem heróico bíblico que venceu o gigante Golias, tentou expressar seu ideal de beleza física, criando uma figura na plena exuberância de suas formas.
UMA ESTRUTURA DE FORMAS VOLUMOSAS
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| "A criação de Adão", do afresco da Capela Sistina. |
Michelangelo voltou a trabalhar no sepulcro de Júlio II e realizou uma das suas maiores obras o "Moisés" , em cujos os traços insinuou a fisionomia do papa. Além desta figura, esculpiu para o mesmo mausoléu os dois célebres "Escravos". Mas a obra ficou inacabada e dela o escultor disse aos 67 anos de idade. "Acho que perdi toda minha juventude ligado a ela".
Em Florença, de 1523 a 1534, esculpiu as estátuas de Juliano e Lourenço de Medicis e as sombrias figuras da "Noite", o "Dia" a "Aurora" e o "Crepusculo", reclinada sobre os seus túmulos. Mas o tema da Virgem Maria envolvendo o filho morto, "Pietà", talvez lhe tenha sido mais querido, pois o repetiu quatro vezes.
UMA PINTURA PROIBIDA
Durante o pontificado de Paulo III, entre1534 e 1541, Michelangelo pintou um grande afresco na parede do altar da Capela Sistina, o "Juízo Final". A idéia que define este conjunto é a da vingança, Cristo aparece como um juiz inflexível e a Virgem, assustada, não se atreve a contemplar a cena. Neste afresco religioso, Michelangelo só pintou "nus". Este fato provocou tanta celeuma, que o Papa Paulo IV pensou em destruir a obra. Felizmente, contentou-se em mandar o pintor Daniel de Volterra velar os nus mais ousados.UMA ARQUITETURA GRANDIOSA
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| "Interior da Capela Sistina" |
Tão grande empenho dispensou à obra de sua própria vida ("quem pode mais em mim senão eu mesmo?") e tão imerso esteve no trabalho que, próximo da morte, desabafou num poema, "na verdade, nunca houve um só dia que tenha sido totalmente meu"
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