MICHELANGELO E SUA OBRA

Poucas pessoas se projetaram na posteridade com a grandeza de Michelangelo. E poucas correspondem tão bem à imagem que se faz de um gênio. Entretanto, passados quatro séculos, quem poderia decifrar o sentido mais profundo de sua obra? Quem poderia dizer o que inspirou a força melancólica que emana da  "Pietà", do "Moisés" ou do afresco do "Juízo Final" na Capela Sistina?. Da tumba inacabada  do Papa Júlio II à construção da Catedral de São Pedro, encomendada por Paulo III, cada obra do artista encerra um drama do homem. Mas através dessas infelicidades, uma grande alma se revela. Generosa, magnânima consciente do seu poder criador, fiel aos seus objetivos. Sobretudo, eternamente inquieta, solitária, indecisa, apaixonada. Esse esforço incessante diante de todos os obstáculos constitui, talvez, o traço mais significativo do gênio de Michelangelo.
Michelangelo nasceu em Caprese, nas vizinhanças de Florença, em 1475. O orgulho que tinha por sua ascendência aristocrata, por sua "raça", como escrevia em cartas, fazia-o afirmar com violência: "Eu sou o escultor Michelangelo... Sou Michelangelo Buonarroti"

UM COMBATE DESESPERADO

"o profeta Jeremias"
Na escola, interessava-se apenas em desenhar, provocando a ira de seu pai e sua família, que desprezavam a profissão de artista. Sua obstinação, porém, acabou vencendo: aos treze anos torna-se aprendiz no estúdio de Domenico Ghirlandaio. Mas a pintura o desgosta, ele aspira a uma arte heróica. Ingressa na escola de escultura de Lourenço de Medìcis, que o hospeda em seu palácio. Convivendo com a elite nobre e intelectual de sua época, numa ambiência tão favorável, Michelangelo deixa-se empolgar pelas idéias do Renascimento italiano. Assim, sua arte pôde revelar um forte apego à natureza e ao ideal do homem perfeito, belo, bom e verdadeiro.

Entre o paganismo grego e a fé cristã, entre a inquietação do seu espírito e
o trabalho sem tréguas a que submetia seu corpo, a vida inteira de Michelangelo foi um implacável combate consigo mesmo.
O conjunto de sua obra exprime essa luta desesperada, a ânsia de arrancar figuras do mármore, de pintar formas, contrastes, corpos carnosos e vivos, de projetar templos de espetaculares dimensões.

Escultor, pintor, arquiteto e poeta. Michelangelo teve uma grande paixão, a escultura. Talvez porque o mármore fosse o melhor meio para modelar suas monumentais figuras. Levado pelo entusiasmo e usando sua grande força física, com um só golpe de martelo conseguia deixar o mármore quase na medida apropriada. Assim explicava sua técnica tão vigorosa " A figura já esta na pedra , basta arranca-la para fora ". E as impressionantes figuras que talhou confirmam suas palavras, pois parecem estar lutando para se libertarem da pedra.

Em 1501, quando começou a trabalhar na estatua de Davi, o jovem heróico bíblico que venceu o gigante Golias, tentou expressar seu ideal de beleza física, criando uma figura na plena exuberância de suas formas.

UMA ESTRUTURA DE FORMAS VOLUMOSAS

"A criação de Adão", do afresco da Capela Sistina.
Em 1505, partiu para Roma a chamado do Papa Júlio II. o pontífice lhe encomendou a reconstrução da Catedral de São Pedro e a edificação de seu mausoléu. Entusiasmado com o projeto, Michelangelo foi a Carrara escolher pessoalmente os melhores mármores. Mas, tão logo iniciou os trabalhos, desentendeu-se com o papa e fugiu para Florença. A reconciliação não tardou e assim aceitou a encomenda de uma estátua de bronze para a fachada da Igreja de São Petrônio erigida em 1508. Mas quatro anos mais tarde, a obra foi fundida para que o povo pudesse construir canhões para bombardear o exercito papal.

Michelangelo voltou a trabalhar no sepulcro de Júlio II e realizou uma das suas maiores obras o "Moisés" , em cujos os traços insinuou a fisionomia do papa. Além desta figura, esculpiu para o mesmo mausoléu os dois célebres "Escravos". Mas a obra ficou inacabada e dela o escultor disse aos 67 anos de idade. "Acho que perdi toda minha juventude ligado a ela".
Em Florença, de 1523 a 1534, esculpiu as estátuas de Juliano e Lourenço de Medicis e as sombrias figuras da "Noite", o "Dia" a "Aurora" e o "Crepusculo", reclinada sobre os seus túmulos. Mas o tema da Virgem Maria envolvendo o filho morto, "Pietà", talvez lhe tenha sido mais querido, pois o repetiu quatro vezes.

UMA PINTURA PROIBIDA

Durante o pontificado de Paulo III, entre1534 e 1541, Michelangelo pintou um grande afresco na parede do altar da Capela Sistina, o "Juízo Final". A idéia que define este conjunto é a da vingança, Cristo aparece como um juiz inflexível e a Virgem, assustada, não se atreve a contemplar a cena. Neste afresco religioso, Michelangelo só pintou "nus". Este fato provocou tanta celeuma, que o Papa Paulo IV pensou em destruir a obra. Felizmente, contentou-se em mandar o pintor Daniel de Volterra velar os nus mais ousados.

UMA ARQUITETURA GRANDIOSA


"Interior da Capela Sistina"
Sua paixão pela grandiosidade transparece na arquitetura. Em 1520 planejou o edifício e o interior da Capela de São Lourenço. Em 1535, sob o pontificado de Paulo III, passou a ser arquiteto, pintor e escultor do Palácio Apostólico e replanejou a Colina do Capitólio em Roma, obra que jamais foi terminada. Em 1552 iniciou a reconstrução da Catedral de São Pedro, mas só viveu o suficiente para ver concluída sua enorme cúpula. Michelangelo morreu em Roma, no ano de 1564. Esse homem feio, cujo rosto fora desfigurado na juventude por um colega chamado Torrigiani, expressou em suas obras toda a beleza de sua vida interior.
Tão grande empenho dispensou à obra de sua própria vida ("quem pode mais em mim senão eu mesmo?") e tão imerso esteve no trabalho que, próximo da morte, desabafou num poema, "na verdade, nunca houve um só dia que tenha sido totalmente meu"
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