WILLIAM SHAKESPEARE

Diversos trajes de mouro. Dragão. Cavalo grande com suas patas. Uma jaula e uma roca. Quatro cabeças de turco e a do velho Maomé. Roda para o cerco de Londres. Uma boca do inferno. Era com esse pobre material de cena que, em 1598, uma casa teatral inglesa participava do intenso florescimento artístico do período elizabetano. No reinado de Elizabeth I (1558-1603), o teatro tornou-se uma atividade respeitável e um espetáculo popular. Não sem enfrentar adversidades. Primeiro, o próprio puritanismo da época. Mulheres dignas não frequentavam os teatros públicos, improvisados nos pátios das hospedarias às margens do Tâmisa, onde representavam ao ar livre pequenas  comphanias ambulantes. Também não eram aceitas mulheres no palco, os papeis femininos eram representados por jovens rapazes de voz fina. Enquanto esses artistas e o prefeito viviam em permanente litígio, o governo fornecia licença aos nobres para manterem suas comphanias, intituladas "servants" (servos), que só podiam atuar nos palácios de seus amos. A primeira autorização foi concedida pela Rainha Elizabeth em 1574, para os servants do Conde de Leicester. Pesava ainda sobre a arte cênica a condenação da Igreja, sob pretexto de que as peças eram profanas, os atores irresponsaveis e o povo imoral. Talvez porque nas muitas tavernas próximas aos teatros os artistas confraternizassem ruidosamente, após os espetáculos, com fidalgos e estudantes, soldados e marinheiros. Em 1578 mais seis companhias foram licenciadas, e no fim do período elizabetano Londres já possuía onze casas de espetáculo, sendo a mais famosa o Teatro Globo. A febre de construções começou em 1576, quando James Burbage, líder dos atores do Conde de Leicester, decidiu erigir um teatro particular, fora da jurisdição do prefeito, no subúrbio de Shoreditch. Nessa data, William Shakespeare, era um menino de 12 anos.

O maior poeta dramático depois dos gregos nasceu em Stratford-on-Avon, condado de Warwich, filho de John Shakespeare e Mary Arden. Lá mesmo fez os primeiros estudos que deixou incompletos. A família empobrecera e William Shakespeare, aos 15 anos, foi trabalhar no açougue de pai, antigo membro dos "aldermen" ou conselheiros municipais. Seu primeiro ensaio poético é desta época, um quarteto ou redondilha no qual satirizava dois povoados vizinhos, dizendo que Hillbrough era ilustre por seus fantasmas e Bidford por seus bêbados. O próprio autor compôs embriagado esse quarteto, a céu descoberto, debaixo de uma macieira que por isso ficou célebre. Nessa mesma noite viu uma bonita aldeã, Anne Hathaway, 8 anos mais velha, com quem logo se casou. As pesadas responsabilidades do jovem William Shakespeare foram agravadas com o nascimento de uma filha,e a seguir, de gêmeos. Muito se escreveu sobre sua felicidade ou desgraça conjugal. Mas são poucos conhecidos os motivos pelos quais  abandonou o lar, onde só voltou para terminar seus dias. Da mulher consta que desapareceu de sua vida e foi relembrada apenas no testamento em que Shakespeare lhe legou a "pior" de suas camas.

Em 1586, a descoberta de Londres. O primeiro emprego, guardador de cavalos nas portas de teatros. E até o século passado esse ofício sobreviveu na capital inglesa, exercido por meninos que se intitulavam "Shakespeare's Boys" . Pouco a pouco, infiltrou-se teatro a dentro, prestando poucos serviços nos bastidores, encarregando-se da cópia de peças, representando minúsculos papéis. Data desse tempo sua formação clássica. Chegara ignorante e deve ter estudado e lido muito, pois de outra maneira não poderiam ser explicados os conhecimentos que revelou sobre história, mitologia, medicina, navegação e astronomia. Passando a copista oficial, representando em cena, cada vez mais integrado ao teatro, Shakespeare adquiriu toda a experiência que veio ao encontro de seu gênio. Eracomum, naquela época, que as companhias teatrais recorressem a adaptações de antigas peças, muitas delas anonimas. Assim em 1590, Shakespeare apresentou uma segunda versão de "Henrique VI", Que foi bem recebida. E durante a ruína de efêmeras companhias, nas temporadas interrompidas pela peste, ele começa a destacar-se como ator e dramaturgo.

Dua peças cômicas que recebeu para fundir, "A Comédia dos Erros" e "A Megera Domada", foram transformadas em verdadeiros originais, onde já se anunciavam um estilo e um pensamento. Seu nome entra em voga e então escreve a maioria das peças para o Teatro Globo, ocupado pela companhia de Burbage, da qual fazia parte. Acumulou alguma fortuna e retirou-se para Stratford natal, sem levar nenhum livro, nem mesmo os seus, cujas edições não aprovou. Ali viveu em ócio os últimos anos, interpondo entre seu secreto universo e os outros homens a imagem de um fidalgo campestre. Então concebeu suas obras-primas. Do recolhimento só saía para uma taverna em New Place. E o reverendo local John Ward num manuscrito de 1664, afirma  que " Shakespeare, Drayton e Ben Jonson se reuniram em alegre companhia e o primeiro parece que bebeu muito, pois morreu de uma febre ali contraída."

Teatro o Globo
Atrás de Shakespeare, toda a glóri de um reinado que inflamou o orgulho dos ingleses. Como sucedeu em Atenas e na Idade Média cristã, se o povo não participa efetivamente da criação teatral, pelo menos a inspira sempre. E os poetas escrevem em  íntima ligação com seu público, vindo de todas as camadas sociais. Enquanto os cortesãos tomam assentos nos salões, os pátios abrigam " o prudente tribunal de mil cabeças" como o chamou Ben Jonson, ator e autor amigo de William Shakespeare. Este se destaca em meio à imensa produção nacional e patriótica, lírica e romântica, do período elizabetano, pelo perfeito dominio da técnica da cena. Cada um de seus personagens existiu dentro dele como se ele próprio o fosse representar. Talvez, como se insinuou, Shakespeare deixasse a outros a tarefa de completar o esboço de uma peça, depois de escritas as réplicas essenciais e anotados cuidadosamente os movimentos cênicos. Mas, recebendo de volta o manuscrito, acabava de insuflar-lhe vida, comunicando-lhe aquele frêmito interior em cujos traços gerais se refletia a multidão. Se isso aconteceu, como questionar seus direitos de autor, de único autor de sua obra?

Abstraindo alguns poemas como "Vênus e Adônis", publicado em 1593, e os sonetos, editados em 1609, a obra de William Shakespeare abrange ao todo 35 peças, entre comédias românticas, dramas históricos e tragédias. Os críticos as dividem em quatro fases que indicam a evolução do autor.  De 1590 a 1593, refundiu as três primeiras partes de "Henrique VI", depois "Ricardo III", "A Comédia dos Erros" e "Tito Andrônico". De 1593 também é a refundição de "A Megera Domada", muito importante porque foi a partir dela que Shakespeare passou a valer-se da própria criatividade, abandonado as adaptações. No entanto, neste período o gênio shakespeariano ou não se manifestara ou ainda não convencera seus comtemporâneos. Alguns testemunhos da época o classificam como "escritor vulgar". Em 1594, surgem "Os Dois Cavalheiros de Verona", " Penas de Amor Perdidas" e "Romeu e Julieta". No ano seguinte lança "Ricardo II", "Sonho de Uma Noite de Verão" e "O Rei João".

De 1596 a 1600 escreve "O Mercador de Veneza", "Henrique IV", "Júlio César", "As alegres Comadres de Windsor" entre outras. De 1601 a 1608 o período mais importante onde escreveu "Hamlet", "Otelo", "Tudo Esta Bem Quando Acaba Bem",  "Antônio e Cleópatra", "Macbeth" entre outras. Além dessas mais de uma dezena de peças apócrifas ( sem identificação de autor) são atribuídas a Shakespeare. Foi em junho de 1609 que saíram os sonetos de Shakespeare, publicados fraudulentamente pelo editor Thomas Thorpe. São 154 e formam dois grupos o do "jovem amigo" (1 a 126) e o da "dama de negro" (127 a 154), figuras inspiradoras que geraram grandes discussões sobre sua exata identidade. Na tese de um especialista, os sonetos de Shakespeare são antes exercícios de habilidade do que a manifestações autobiográficas. Assim, quando ele confessa seu amor pelo jovem amigo, isso pode ser entendido no sentido elizabetano de amizade, sem esquecer a adulação que dominava o ambiente da corte. Além da dama de negro, com quem divide esse grande amor, Shakespeare fala também de um poeta  rival.

A afirmação de imortalidade, feita em tantos sonetos (a criatura amada viverá eternamente em seus versos, que não morrerão enquanto houver olhos para ver), é uma ideia comum na poesia greco-latina e renascentista. Esta e outras possíveis assimilações shakespearianas não diminuem o vigor de uma personalidade que como nenhuma outra absorveu o espírito de seu tempo. Como homem, ele seria a soma imaginaria de seus personagens, representantes de todos os temperamentos, adeptos de todas as crenças. Como artista, teve o dom de captar com igual mestria as paixões mais turbulentas e os sentimentos mais puros, a mais rica alegria e o mais penoso desespero. Em suas criaturas, falam  com a mesma clareza o sábio e o ignorante, a soldadesca vil e o caudilho triunfante. Concebeu as tragédias mais sombrias e as situações mais cômicas, narrando-as com a justeza de sua expressão e a magia do seu verbo.

Shakespeare produziu sua obra ao compasso do tempo, com certa pressa, visando principalmente ao público ávido que a esperava. Foi magistral o traço dos caracteres com que  povoou  seu mundo . De Romeu e Julieta fez personficação do amor irrealizado. De Otelo, o prótotipo, De Macbeth, o resumo da ambição e do remorso. Do Falstaff de "Henrique VI", o retrato do inescrupuloso mas divertido beberrão. Do Shylock de "O Mercador de Veneza" o usuário materialista por excelencia. E Hamlet, talvez sua maior criação quer "dormir sonhar", mas indaga se sonho da morte não será um sonho como os outros. A outra vida poderá ser um perigoso pesadelo. Esta, é um eterno sofrimento. Hesitante entre a fria execução de uma vingança e o sentimento de piedade, Hamlet rebela-se contra o destino. Porque assim pensava Shakespeare: "A finalidade de representar, tanto no principio quanto agora, era e é oferecer um espelho  à natureza; mostrar à virtude seus próprios traços, à infâmia sua própria imagem, e dar à própria época sua forma e aparência" (Hamlet, ato III, Cena II)