GUIMARÃES ROSA

Codisburgo, quase uma vila apenas, assonância germânica estranha num universo de topônimos lusos, brasileiros, guaranis, tupis e nheengatus. Esquecida entre duas irmãs maiores, Sete Lagoas e Curvelo, em Minas Gerais. Despretensiosa na modorra de suas ruas de meia-idade e na fala mansa de seus filhos, na despreocupação de anunciar-se existente. Nessa Codisburgo nasceu, às vésperas do dia de São Pedro do ano de 1908, o menino João, filho do casal Guimarães Rosa. Aprendeu com facilidade as primeiras e as segundas letras e, já aos seis anos de idade, guiado por um mestre, Candinho e por um franciscano, frei Esteves, lia o primeiro livro em francês "Les femmess qui aiment". Esse  foi o início da paixão pelas línguas, que o acompanhou até o fim da vida. João se familiarizaria com o latim, o grego, o alemão, o inglês, o italiano, o holandês, o russo, o sueco e algumas língua orientais. Antes de morrer em 19 de novembro de 1967, estava se apossando de mais uma língua: o vietnamita. Sempre de olhos abertos, com sede insaciável de conhecer, aos nove anos de idade entra no Colégio Arnaldo, de Belo Horizonte, onde se acentua o gosto pela história natural. Coleciona borboletas, besouros, uma multidão de insetos; classifica-os com cuidado, consultando a blibioteca da cidade, lendo livros especializados e deixando uma coleção notável pela demonstração de seriedade e de conhecimentos que tinha da matéria.

Matriculou-se na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte e é ali que inicia a viagem literária que o levaria a ser um dos maiores escritores da língua portuguesa. Começou por escrever contos que enviou para publicação na revista "O Cruzeiro". Mas, como ele próprio mais tarde reconhece, escrevia friamente, sem paixão preso a moldes alheios, numa frase de auto-reconhecimento, sopesando sua capacidade de assimilar o formal, o acadêmico, para cientificar-se de que poderia  superá-lo, criar com liberdade de imaginação, usar o cabedal conhecido, para situá-lo e acrescentar-lhe o aditivo de seu próprio manancial criador. Foi em Itaguara, município de Itaúna, no exercício da profissão de médico, logo após a formatura, quando entrou em contato íntimo e diário com o povo pobre e o povo rico das terras mineiras, que sua curiosidade de linguista e de humanista descobriu as riquezas a explorar: os homens simples, carregados de tragédias e amores, expressando-se ricamente, com curiosas inflexões produzidas pelo isolamento do mundo distante.

O médico passava grande parte de seu tempo a cavalo, a visitar clientes em uma terra de habitações esparsas em grandes sertões. Cobrava as visitas na medida das distâncias que a cavalo, tinha que percorrer. Médico dedicado, Guimarães Rosa acabou por se tornar muito respeitado nas regiões do interior de Minas. Depois em Belo Horizonte, foi médico voluntário da Força Pública, na Revolução de 1932, em 1934, estava em Barbacena como oficial médico do 9° Batalhão de Infantaria. A vida calma de Barbacena proporcionou-lhe as condições de conforto para escrever novos contos, e um livro esquecido, "Magma", com que concorreu ao prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Desfrutou também de tempo para estudar matérias do concurso para o Itamaraty. Entrou para a carreira diplomática em 11 de julho de 1934. Guimarães Rosa começou a viver intensamente a partir desta data: o médico dedicado mudara-se no diplomata e no escritor de grande cultura e extraordinário talento. Em 1937, publicou "Sagarana", vasto painel descritivo da paisagem mineira, com toda a beleza selvagem, a vida das fazendas, dos vaqueiros e dos criadores de gado, estórias de gente simples, vividas ou imaginadas, o mundo em que passara a infância e a mocidade. Em "Sagarana" já aparece, em toda sua plenitude, a capacidade que tinha de transpor para o livro a linguagem rica e pitoresca daquela gente, registrando regionalismos, muitos deles ainda nõ utilizados em literatura. O título é um hibridismo de "Saga" (narrativa épica) e "Rana" (sufixo tupi: A maneira de).

Cônsul de terceira classe, serviu o Brasil em Lisboa e Hamburgo (1938); quando o Brasil rompeu com a Alemanha, em 1942 Guimarães Rosa foi internado em Baden-Baden, juntamente com Cícero Dias, Ciro de Freitas Vale e outros. Libertado em troca de diplomatas alemães, retornou à Ámerica do Sul, Bogotá. Exerceu a função de segundo secretário em Paris, até 1948. Promovido a conselheiro em 1950, chegou a ministro de primeira classe em 1958. Pouco antes de falecer, chefiava a Divisão de Fronteiras do Itamaraty. Apesar de suas constantes andanças pelo estrangeiro, o escritor não perdeu contato com sua terra. Em 1945, retornou ao interior de Minas para rever as paisagens de infância, e,  em 1952, fez uma excursão a Mato Grosso, de onde trouxe uma reportagem poética, "Com o vaqueiro Mariano", publicada em edição limitada. Depois de publicar "Sagarana", Guimarães Rosa passou a ser considerado um dos primeiros novelistas de nossa literatura. Esperou mais de dez anos para lançar os dois grandes trabalhos que o destacaram na literatura de língua portuguesa: "Corpo de Baile" e Grande Sertão Veredas". Nessas obras aparece o traço fundamental do autor: a absoluta confiança na liberdade de inventar. A fantasia nos livros de Guimarães Rosa enrosca-sena realidade, complementa-a "e revela o quanto de irreal existe na realidade aparente ". Criou o seu regionalismo a partir das pesquisas pessoais: ele viu, conversou  e estudou jagunços, vaqueiros, coronéis, peões, prostitutas e beatas. De cada conversa , de cada observação, o escritor meticulosamente anotava o que fosse peculiar, diferente. E daí surgiu a mais importante de suas caracteristicas: o uso da linguagem viva, tal como é empregada pelo povo da terra que lhe serviu berço

UM REGIONAL AUTÊNTICO E REGIONAL


Guimarães Rosa concilia a análise da condição social do homem do campo com a grande literatura. Herbert Read afirmou que toda a literatura de cunho regional autêntico é, também, de cunho universal, "pelo eco que desperta em outras literaturas nacionais". O "Morro dos Ventos Uivantes" e "Dom Quixote" são citados como exemplos dessa condição, à primeira vista, paradoxal. Assim, vamos encontrar a obra de Guimarães Rosa traduzida, desde 1961, para o francês (Jean Jacques Vilard), inglês (James L. Taylor), alemão (Curt Meyer-Clason), italiano (Edoardo Bizzarri), espanhol (Angel Crespo),  tcheco (Pavla Lidmilová). O seu último livro publicado foi "Tutaméia" que tem o subtítulo de "Terceiras Estórias". Em abril de 1967, estava totalmente empenhado na discussão sobre as conclusões do I Simpósio Luso-Brasileiro da Língua  Portuguesa Comtemporânea, e criticou duramente a projetada unificação ortográfica entre Portugal e Brasil, incluída nas conclusões do Simpósio; o seu parecer desfechou debates que alcançaram maior repercussão. Embora eleito para a Academia Brasileira de Letras, em agosto de 1963 (34 votos a favor, dois em branco, nenhum contra), Guimarães Rosa só três dias antes de falecer veio a tomar posse- 16 de novembro de 1967. Protelava enfrentar os discursos e o cerimonial de tradição; sofria de hipertensão arterial, temia um enfarte e se justificava como médico. "Preciso tratar bem deste único cliente".

ROBERT KOCH

"Então o senhor garante que esse caldo de bacilos me mataria se o toma-se?. Quem fazia a pergunta era o velho professor Pettenkofer, que girava entre os dedos um tubo de ensaio contendo um caldinho amarelado. O Dr. Koch respondeu muito sério: a dose contida no tubo era suficiente para matar meio batalhão de granadeiros. E então, para o espanto dos membros da Academia Imperial de Medicina, em Berlim, onde a cena se desenrolava, o Professor Pettenkofer tomou um pequeno pão que levava consigo, derramou-lhe por cima o caldo do tubo que comeu. "Pois lhe garanto, caro Dr. Koch, que vou até engordar com estes inofensivos bacilos", riu Pettenkofer. "Os bacilos não causam doença nenhuma. Pega-se uma doença porque se está predisposto a ela. Os bacilos nada têm a ver com isso" O fato é que Pettenkofer nunca pegou cólera, nem  demonstrou sintoma algum da doença. E, sempre que se encontrava com Koch, arreliava-o de bom humor: "Muito bons seu bacilos, Dr. Koch. ótimos para o chá das cinco com torrados." A corajosa (ou inconsciente) demonstração de Petterkofer convenceu muita gente de que os bacilos não tinham nada a ver com a causa da cólera. Com seu riso irônico e bem humorado, Pettenkofer ia e vinha entre os médicos dizendo: "Ora, os bacilos". E sua boa saúde testemunhava por ele. Mas o fato é que ele não tinha razão: Robert Koch fizera uma descoberta fundamental na historia da medicina. Apenas, como se demonstraria depois, nem todas as pessoas são sensíveis a qualquer doença, a qualquer hora. Há resistências naturais e adquiridas por imunizações, que nos defendem dos microscópios e onipresentes causadores das moléstias. E Pettenkofer era resistente ao bacilo da cólera.

UM PRESENTE DE ANIVERSÁRIO


Entre 1860 e 1870, Pasteur foi responsável por uma onda de entusiasmo na Europa. Os micróbios eram o assunto do momento. Mas o recém formado Robert Koch estava fora desse mundo científico. Andava a cavalo a noite pelas ruas da Prússia, para atender ás mulheres de fazendeiros que davam `luz. Era um mero médico de província, que para se casar com Emmy Freatz, pusera de lado uma vida de aventuras longe dali. Quando fez 28 anos, sua mulher, economizando sobre as despesas do armazém, presenteou-o com um lindo aparelho, um microscópio. Sentia que o marido sacrificara, por ela seus sonhos juvenis e que se aborrecia com o blefe profissional da medicina, como chamava sua clinica. Com esse aparelho koch revolucionaria a medicina  e teria aventuras bem mais compensadoras do que poderia ter tido no Taiti ou na Amazônia.

1876 O CARBÚNCULO


Quando Koch examinou o sangue de animais mortos pelo carbúnculo, epidemia que devastava os rebanhos da Europa, constatou que ali havia uma enormidade de filamentos ou de bastonetes soltos. Então, num laboratório improvisado, infetou ratos com sangue contaminado e neles apareceram bastonetes. "São seres vivos", imaginou Koch. Tentou várias provas, sem êxito. Um dia colocou o humor vítreo de um olho de vaca sobre uma lâmina esterilizada e introduziu um fragmento infetado do baço de um rato. Cobriu-a com outra lâmina de vidro côncava, untada de vaselina, virou o conjunto de cabeça para baixo e obteve uma gota pendente, aprisionada em uma bolsa estéril. Conseguiria a primeira cultura pura de microorganismos, inovando a técnica bacteriológica. Koch ficou 50 minutos de olho fixo no microscópio, e então os bastonetes começaram a se multiplicar. Estavam vivos!

A REVOLUÇÃO BACTERIOLÓGICA


Durante oito dias, cultivou gerações e gerações sucessivas de bacilos. Depois voltou a inoculá-los nos ratos, e eles morriam de carbúnculo com o sangue negro fervilhando de bastonetes. Antes que qualquer outro, esse médico de roça provara que uma determinada espécie de micróbio causa uma definida espécie de doença. Com 34 anos, ainda desconhecido, Koch embarcou para Breslau. Seu velho mestre Cohn auxiliou-o a fazer demostrações que duraram três dias. Quando terminou, estava consagrado. 1880: o Governo chamou-o para Berlim e ofereceu-lhe um belo laboratório. Já por essa época todos os médicos da Europa só discutiam bacteriologia. Apareceram mil teorias, uma mais maluca do que a outra. Para produzir cultura de micróbios, inventaram-se aparelhos complicadíssimos. Mas a criatividade de Robert Koch venceu a batalha. Junto com a Doutora Hesse, inventou a cultura sólida de agar-agar e outros métodos usados até hoje.

A TUBERCULOSE E O BACILO


Enquanto seus assistentes procuravam os agentes da difteria e da febre tifóide, Koch dedicava-se à tuberculose. Mas nos tecidos doentes nada aparecia. Com infinita paciência, Koch aplicou-lhes um corante, que fez aparecer em azul bacilos muito pequenos e finíssimos. Conseguiu isolá-los e inoculá-los em animais sadios que contraíram a tuberculose. Pouco antes, Pasteur afirmara que em breve estaria provada a origem microbiana da moléstia e contra ele levantara-se a classe médica de Paris, liderada pelo Dr. Pidoux, que afirmara: "A tuberculose é única e múltipla ao mesmo tempo. Sua determinação consiste na destruição infetante necrobiótica do tecido plasmático de um órgão, processando-se por diversos caminhos que o higienista e o médico devem esforçar-se por dominar" Exemplo de palavrório sem sentido. No dia 24 de março de 1882, Koch anunciava sua descoberta: o bacilo causador da tuberculose.

1884 A CÓLERA


Em 1883, a cólera asiática bateu às portas da Europa. Procedente da Índia onde era endêmica, atingiu e devastou Alexandria, no Egito. Koch foi para lá com seus colaboradores, e Pasteur mandou dois assistentes. Um deles Dr. Thuillier, morreu durante as pesquisas, atacado da moléstia. Koch, ao depositar flores sobre sua sepultura, disse: "Elas são muito simples, mas são de louros como as que se dão aos bravos" A seguir foi a Índia estudar o mal mais de perto. E em 1884, tendo vivido entre os infelizes coléricos indianos, isolou o germe da cólera, um embrião em forma de vírgula, e demonstrou como era transmitido. Foi nessa época que Pettenkofer realizou a bravata que o tornou célebre. Mas a história provou que se enganara, apesar de sua coragem. Coragem que não era rara entre os cientistas. Vários deles se auto-inocularam para provar suas hipóteses e muitos morreram nos anos heróicos da bacteriologica.
Em 1890, Koch pensou ter realizado a mais importante descoberta de sua vida: a tuberculina, substância para curar a tuberculose. Seu grande prest´gio lhe valeu crédito imediato. Assim, a substância foi fabricada e aplicada com muitas esperanças, pois nesse tempo a tuberculose literalmente devastava a Europa. Mas a tuberculina foi um fracasso como remédio. Serviu apenas para criar um teste hoje conhecido como reação de Mantoux ( do nome de seu descobridor), que indica a presença da moléstia. Vários bacteriologistas sofreram reveses desse tipo. Além de Koch, Pasteur, Êmile Roux e Paul Ehrlich tiveram graves contratempos em suas pesquisas. Mas Koch ficou abatidíssimo. Ele ansiava por criar um método eficiente para combater os micróbios. Fora seu sonho desde os tempos de médico de roça, em que cia as pessoas morrerem de difteria e percebia quanto a medicina era impotente. Os trabalhos de Koch, no entanto, permitiram que outros cientistas, baseados em seus métodos, atinassem com maneiras eficientes de combater os bacilos que descobrira.

OS ÚLTIMOS ANOS


Koch, depois que se tornou uma celebridade, não teve mais tempo para si. De todas as partes do mundo vinham jovens para aprender as técnicas bacteriológicas. Figura conhecidíssima, era solicitado a fazer conferências na América e no Japão. O grande instituto de pesquisas que dirigia tomava-lhe cada minuto. Tentou fugir de tudo isso, indo estudar a moléstia do sono na África do Sul, mas teve que voltar não era mais dono do seu tempo. Alem disso, sua mulher acabara aborrecendo-se com o marido que passava 18 horas no laboratório, e pedira divórcio. Os conservadores berlinenses, para desaprovar essa conduta "irregular", retiraram a placa comemorativa que fora colocada diante de sua casa. Mas o cientista reservava-lhes um susto ainda maior: pouco tempo depois casou-se com uma bela jovem, Hedwing Freilberg. E foi ela quem o assistiu na velhice, quem o acompanhou na longa viagem ao Japão, onde Koch reviveu seu sonho juvenil de grandes viagens aos países exóticos, e quem lhe fechou os olhos, a 27de maio de 1910, em Baden-Baden.

A curiosidade científica de Robert Koch não arrefeceu até os últimos últimos dias, quando ainda trabalhava energicamente. Se algum admirador o incensava, erguia os olhos do microscópio e dizia: " Nada fiz de especial. Apenas trabalhei com afinco". E voltava à sua tarefa , que a vida é curta e o trabalho é tanto.

JOHANN SEBASTIAN BACH

Desde o começo do século XX a música de Bach faz parte do repertório dos grandes organistas, é tocada como exercício  pelos estudiosos de vários instrumentos musicais e apresentada por orquestras e corais do mundo todo. Suas composições atestam que ele conhecia profundamente a teoria musical de sua época- o barroco- e nelas estão esgotadas todas as possibilidades da polifonia, técnica de composição conhecida desde o final da Idade Média e ainda hoje muito divulgada. Por seu domínio dessas técnicas tradicionais da música, Bach é ainda estudado pelos que  se dedicam  a essa arte. E, pela força expressiva e riqueza de sua obra, é considerado por muitos críticos, o maior compositor de todos os tempos.

UMA FAMÍLIA DE MÚSICOS


A 21 de março de 1685 nasce Johann Sebastian Bach, em Eisenach, na Turíngia, que então era a região central da Alemanha. Era o oitavo filho de Johann Ambrosius Bach, um professor de violino e viola. Os avôs, tios e irmãos do menino Bach também se dedicaram à música, principal atividade cultivada pela família havia três gerações, desde o século XV. Na época de Johann Sebastian Bach, como nas anteriores, os musicos eruditos de todos os países europeus viviam ligados às cortes, à nobreza ou à Igreja. A família de Bach era grande e estava espalhada pelas cortes e igrejas dos diversos Estados em que se dividia a Alemanha, prestando serviços a nobres ou religiosos que lhe forneciam sustento. Desde pequeno, o menino Bach foi educado para ser músico, aos seis anos seu pai já lhe ministrava as primeiras lições de violino e viola, bem como noções elementares de teoria musical. Com essa mesma idade, Bach ingressou numa modesta escola de Eisenach, onde aprendeu a ler e escrever.

Mas Bach cedo tornou-se órfão , aos oito anos, perdeu a mãe, Elisabeth Laemmerhirt, e aos de, o pai. Com a morte do pai, Bach teve de deixar Eisenach e foi morar com o irmão mais velho, Johann Chritoph era organista de uma igreja dessa cidade de Ohrdruf. Cristoph era organista de uma igreja dessa cidade e encarregou-se do sustento e da educação do menino. Bach continuou seus estudos no Liceu de Ohrdruf, revelando-se excelente  aluno e fazendo muitos amigos. Em casa, com ajuda de seu irmão, realizou um grande avanço na música, aprendendo a tocar cravo e órgão. A vida artística da Alemanha na época estava estagnada devido à Guerra dos Trinta Anos, entre católicos e protestantes, que devestara o país na primeira metade do século XVII. Johann Cristoph, como a maioria dos músicos eruditos do país, dedicava-se a compor músicas para órgão e coral, que eram executadas durante as cerimonias religiosas protestantes. Os padrões dessas músicas eram redigidos e ultrapassados em relação ao resto da Europa. Mas em Ohrdruf morava um músico, Johann Pachelbel, homem culto e viajado, que vivera em Viena e conhecia de perto a musica dos melhores artistas italianos. Pachelbel era amigo de Johann Cristoph e ministrou o menino Bach aulas que iriam influenciar suas futuras composições.

INDEPENDÊNCIA AOS QUINZE ANOS


Aos quinze anos, Bach já se destacava no coro do liceu pela sua voz aguda de soprano, própria da idade. E querendo cuidar sozinho de sua vida, resolveu desligar-se da família e ir para Lunenburg, cidade que ficava a 300 quilômetros de Ohrdruf. Em Luneburg, Bach ganhou a vida como cantor, completou seus estudos e dedicou-se a aprimorar sua carreira musical, buscando a orientação e o exemplo dos melhores artistas das redondezas. Sozinho, Bach fazia longos percursos até as cidades vizinhas, para ouvir os grandes músicos. Assim, tornou-se admirador dos organistas Georg Boehm e Jan Adams Reiken e frequentador de orquestras, principalmente a do duque Georg Wilhem, especializada em música francesa. A tradição alemã em órgão e coral, a música italiana que aprenda em Ohrdruf com mestre Pachelbel e a música francesa que conhecera em Luneburg foram as três principais fontes de conhecimento musical de Bach adquiriu. Em 1703, com 18 anos, Bach já havia completado seus estudos e possuía uma sólida formação musical. Perdendo sua voz de soprano, precisou procurar emprego e mudou-se para a cidade de Weimar, aceitando um convite para ser violinista da orquestra particular de um nobre.

Nesse mesmo ano, Bach foi nomeado organista da igreja de São Bonifácio, na cidade de Arnstadt. Permaneceu nesse cargo por quatro anos. Durante esse período, iniciou sua atividade como compositor, criando musicas para órgão como "A Cantada de Páscoa, Sete Variações Sobre Cantada e Melodias, Sonatas, Prelúdios e Fugas, Tocadas e Fugas". Mas Bach não era apreciado como compositor, e sim como o melhor tocador de órgão. Desavenças com as autoridades eclesiáticas locais o fariam pedir demissão do cargo em 1707. Em 1708, após uma curta permanência como organista na cidade de Muhlhausen, Bach retornou a Weimar, para ocupar o cargo de organista e diretor da orquestra da corte do príncipe Wilhelm Ernst. Nessa época j´estava casado havia um ano com sua prima, Maria Bárbara.

Bach permaneceu nove anos nesse cargo, teve sete filhos e compôs várias cantadas para órgão. Em 1717, descontente com a falta de reconhecimento por parte das autoridades da corte, o compositor demitiu-se de suas funções e partiu para o castelo de Coethen, convidado pelo principe Leopold Anhalt-Coethen para ser mestre-capela (encarregado da música de igreja e da música de orquestra da cidade).

COETHEN: MÚSICA ORQUESTRAL


Em Coethen, a austeridade do culto religioso dispensava quase todo o  acompanhamento musical e Bach dedicou-se à música de orquestra. Dentre as obras que compôs nesse período, destacam-se as  "Suítes", os seis Concertos Brandenburgueses, os Concertos para Violino e várias Sonatas. São dessa época também muitas composições para cravo, como as "Suítes Francesas, Inglesas e Alemãs, a Fantasia Cromática e Fuga e as primeiras partes do Cravo Bem Temperado. 

 Essa última composição, terminada em 1744, é ainda hoje considerada uma das mais importantes obras para teclado, pois joga com múltiplas possibilidades técnicas da música tonal. Essa obra faz parte obrigatória dos cursos de piano, em razão do grande número de dificuldades que apresenta.Em 1720, com a morte de sua mulher Bach sentiu-se abalado e deixou Coethen, levando uma vida itinerante em pequenas cidades do interior. Em 1721 casou-se com Ana Magdalena Wilcken, com quem teve treze filhos.

LEIPZIG: OS ÚLTIMOS ANOS


Essa vida de nômade estendeu-se até 1723. quando o compositor se habilitou ao cargo de diretor da música na igreja de Santo Tomás, em Leipzig. Bach permanecerá nesse cargo por 27 anos, até sua morte, em 1750. Em Leipzig, Bach, criou grande parte de suas obras e alguns dos grandes monumentos da história da música, como os orátorios Paixão segundo São Mateus, e a missa em Si menor, composições em que se eleva a alto grau o misticismo, uma das principais caracteristicas de sua música. É também desse período a Arte da Fuga, composta de experiências técnicas no estilo do Cravo Bem Temperado.

Durante toda sua vida, ninguém reconheceem Bach uma grande compositor. O velho mestre era tido como ntiquado , numa época em que a moda eram as óperas italianas. Após sua morte, Bach ficou esquecido por mais de cem anos. Até 1850, quando alguém pronunciava o nome de Bach, quase sempre queria referir-se a algum de seus filhos (Carl Philipp Emanuel, JohannChristian, Johann Christoph ou Wilhem Friedemann), também músicos.

O reconhecimento de sua obra  precisou esperar até a metade de século XIX, quando Mendelssohn fez executar  seu oratório Paixão Segundo São Mateus. A partir daí , mais de dez compiladores dedicaram cerca de 50 anos para coligir a vasta obra de Johann Sebastian Bach, hoje em dia um artista consagrado no mundo inteiro. A música de Bach exerceu, nos compositores, uma grande influência, que se estendeu até o século XX. o músico brasileiro Heitor Villa Lobos foi um grande admirador do mestre barroco e dedicou-lhe, como homenagem, as Bachianas Brasileiras, compostas no período compreendido entre 1930 e 1945. Nessas obras Villa Lobos aplica temas folclóricos brasileiros as técnicas de composição de Bach. 


ROOSEVELT

"Nada há que  o "New Deal" tenha realizado até agora que não pudesse ter sido feito, e melhor, por um terremoto. O pior dos terremotos de costa a costa restabeleceria a escassez com muito maior eficiência e poria todos os sobreviventes a trabalhar  pela glória crescente dos Grande Negócios, e isso muito mais rapidamente e com muito menos rumor que o "New Deal"- assim escreveu Stolberg em seu livro "Consequencias Econômicas do New Deal". Era deste modo que muitos industriais americanos viam a obra mais importante do Presidente Roosevelt, o plano de governo chamado New Deal. Embora muito combatido, Roosevelt reelegeu-se três vezes consecutivas. É que os Estados Unidos estavam em crise, contra a qual na politica do New Deal era, pelo menos, uma esperança para a nação.


A GRANDE CRISE


A I Guerra Mundial devastou a Europa. Por outro lado, transformou os Estados Unidos em uma nação rica, porque lhes possibilitou a conquista dos mercados "abandonados" pelos países beligerantes e do próprio mercado europeu, que nesse ínterim não tinha condições de auto-suficiência. A situação prevaleceu no pós-guerra. E o escoamento da superprodução americana legitimava a política econômica de inteira liberdade, o laissez-faire, o deixar dos industriais produzirem o que lhes bem aprouvesse. Assim os Estados Unidos, que deviam 3 bilhões de dólares à Europa, passaram às posições de seus credores em 11 bilhões de dólares. Foram sete anos de prosperidade como não existiu na história de nenhuma outra nação. Mas essa economia tinha alicerces de areia. Baseava-se numa situação anormal, os efeitos prolongados de uma guerra. Em 1927, no entanto , a Europa começa a retornar à normalidade. E à medida que o Velho Mundo se reerguia, ia deixando de comprar dos Estados Unidos. O fato assustava os especuladores americanos, que tinham emprestado ao exterior os grandes lucros auferidos durante à época das vacas gordas. Esses empréstimos começaram a ser cobrados. E como se destinavam, em geral, a compra dos próprios produtos americanos, sua suspensão redundava numa queda ainda maior nas vendas da indústria americana.

Mas a queda dos valores começou exatamente quando se tornou claro que os investimentos americanos no país e no exterior não estavam produzindo o que deles se esperava. A Bolsa de Valores de Nova York vinha refletindo uma evidente tendência à baixa, que desviava qualquer perspectiva de restabelecimento do mercado de ações e títulos. Os créditos dos bancos às empresas foram se limitando até quase se extinguirem. O capital de giro, destinado ao pagamento dos trabalhadores, escasseava até tornar-se inexistente. Toso o mercado, numa palavra, toda a economia, sofreu as consequências dessa  situação anormal. Na realidade, os títulos e papéis não mais representam valores. Na chamada "quinta-feira negra" (24 de outubro de 1929), a Bolsa de Valores recebeu uma enxurrada de títulos para venda, que provocou a longo prazo resultados desastrosos, a renda caiu  de 87,2 bilhões de dólares (1929) para 37 bilhões (1932). A crise atingiu todos os setores, a renda agrícola baixou de 5,1 para 1,5 bilhão de dólares, os sálarios diminuíram em 40%, enquanto os preços baixaram 20% no mesmo período. O desemprego generalizou-se. Hoover, o presidente da prosperidade artificial, não pôde conter a derrocada, por mais medidas que tomasse. Foi derrotado nas eleições de 8 de novembro de 1932. Roosevelt venceu com 57,41% dos votos.

ÊXITOS E PROBLEMAS DO NEW DEAL


A 4 de março de 1933 Roosevelt assumiu o poder. Estava convencido de que o liberalismo era reponsavel pela crise, e que era preciso combatê-lo através de uma economia dirigida. Assim , o New Deal, que na verdade era uma coleção de medidas práticas, imprimiu profundas modificações no sistema capitalista. A aplicação do New Deal foi imediata. Já no dia da posse, Roosevelt decretou o fechamento dos bancos. A 6 de março interditou a exportação de ouro e prata. Logo depois assinou a "Lei Bancaria de Emergência", proibindo o acúmulo de ouro ou de depósitos desse metal no Tesouro. Seguiu-se a desvalorição do dólar em 40%, através da emissão inflacionária de 3 bilhões de dólares em papel-moeda. Roosevelt procurava aumentar o preço interno dos produtos e favorecer a indústria americana na concorrência com a estrangeira.

A 12 de maio decretou o AAA (Agricultural Addjustment Act) , que oferecia indenizações compensadoras aos próprietarios que reduzissem as áreas de cultivo dos produtos agrícolas. A restrição em alguns casos chegou a um terço. No mês seguinte surgiu o NIRA (National Industrial Recovery Act)- Lei de Recuperação da Indústria Nacional, que fixava as condições, duração e remuneração mínima do trabalho para cada indústria, a fim de que pudesse ser absorvida uma parcela da mão-de-obra desempregada. A Lei de Recuperação da Indústria Nacional favorecia a liberdade de sindicalização e garantia o direito de barganha coletiva. Com essa medida, Roosevelt deu grande impulso às obras públicas. Bilhões de dólares foram destinados ao combate da erosão do solo, reflorestamento, construção de escolas, hospitais, estradas, etc. Isso também tinha como objetivo diminuir a massa de desempregados e aumentar o consumo.

Navio Atacado em Pearl Harbor
Mas o New Deal não era mágico. Seus efeitos, obviamente, se faziam sentir com vagar. Enquanto isso, os empresários inquietavam-se com a crescente intervenção do Estado na livre iniciativa. Combatiam Roosevelt, atacando-o no terreno jurídico. Mas, em novembro de 1936, Roosevelt foi reeleito com quase 70% dos votos. O New Deal já tinha evidenciado a recuperação interna e o Governo pôde ocupar-se da política externa. Seu desempenho neste campo tinha de levar em conta a declaração de neutralidade oficializada em 1935 por uma lei especial. Em setembro de 1939 é deflagrada a II Grande Guerra. E o envio de armas aos países em guerra tornava-se possível por uma emenda a Lei de Neutralidade, aprovada em 1937, a chamada cláusula "cash and carry" (pegue leve), que o autorizava a fornecer armamentos. Os países em guerra que pagassem à vista e cuidassem do transporte poderiam comprar à vontade. Somente a Inglaterra e a França tinham condições para tanto. Foram os favorecidos por tanto.

Em 1941 é aprovada a Lei de Empréstimos e Arrendamentos, que autorizava a concessão  de auxilio material aos países em luta contra o Eixo. O passo seguinte foi a entrada dos Estados Unidos na guerra. Isso teria sido difícil em virtude da resistência da opinião pública, se o Japão não tivesse  tomado a iniciativa, a 7 de dezembro de 1941, atacando a base americana de Pearl Harbor. Roosevelt participa de muitas conferências com os chefes aliados em Casablanca, Quebec, Cairo, Teerã, Yalta. Em junho de 1942, em uma fase de entendimento entre os grandes aliados, estende a Lei de Empréstimos e Arrendamentos da União Soviética. em novembro de 1944 é reeleito. Mas morre em abril de 1945. Os estados unidos haviam superado a crise. E o sistema econômico capitalista adaptara-se aos novos tempos

CHARLES JOHN HUFFAM DICKENS, ESCRITOR

Após ter conhecido um período de glórias, a literatura inglesa, no fim do século XVIII, declinava perigosamente. Mas essa ameaça de estagnação logo seria afastada, graças à verdadeira revivescência literária que marcou "era vitoriana". A esta época, iniciada em 1837, quando sobe ao trono a Rainha Vitória, pertence Charles Dickens, talvez o mais popular e humano dos romancistas ingleses.

UM RAPAZ AMBICIOSO


Charles John Huffam Dickens nasceu em 1812, em Landport, perto de Portsmouth, no sul da Inglaterra. Tinha cerca de dois anos de idade quando a família se tranferiu, por pouco tempo, para Londres, e, depois, por longo tempo, para Chatham, cuja paisagem permaneceu em seu espírito por toda a vida, como a única lembrança da infância, sua época mais feliz. Por volta de 1822, John dickens, o pai como sempre  às voltas com dívidas, foi encarcerado na Prisão dos Devedores, em Marshalsea; sua esposa mudou-se com oito filhos, dos quais Charles era o segundo, para Camden Town, onde abriu uma espécie de "estabelecimento educacional". O menino Charles viu-se então obrigado a deixar a escola para trabalhar numa fábrica de tinturas, emprego que manteve durante vários meses, em troca de modesto salário, o que lhe despertou o imenso desejo de vencer na vida. Essa época sombria, simbolizada pela graxa dos potes com que trabalhava, Dickens retratou-se amargamente em "David Copperfield". Sua servidão termina, e ele volta à escola, quando seu pai recebe uma inesperada herança, com a qual salda suas dívidas e reconquista a liberdade. Por volta de 1836, Charles está trabalhando como repórter de vários jornais e redator de pequenos sketches (peças curtas) em alguns periódicos, com o pseudônimo de Boz (apelido de sua irmão caçula).

Em 1837 torna-se célebre, da noite para o dia, com "The Posthumous Papers of the Pickwick Club" ("Memórias do Sr. Pick-wick"), obra publicada num jornal durante 20 meses, em forma de folhetim (capítulos em série). Esta obra, na qual Dickens retrata alguns de seus amigos e atinge a plenitude de sua arte de caricaturista e humorismo, popularizou-se rapidamente. Conta-se que um juiz muito conhecido lia "Pickwick" em pleno tribunal, enquanto aguardava o veredicto do júri.

O ESCRITOR E SEUS PERSONAGENS


Além de "Pickwick", Dickens escreveu mais 14 obras, quase todas publicadas também em folhetins; os leitores acompanhavam o desenvolvimento da trama e apresentavam sugestões, através de cartas ao autor. Mestre do movimento, do suspense do humor satírico, do horror, Dickens dominava perfeitamente a arte de contar, ora comove o leitor até as lagrimas, ora o faz rir às gargalhadas. sua maior qualidade é a criação de tipos. Graças a admirável poder de observação, descobre nos indivíduos mais comuns traços caracteristicos, que, aproveitados ao máximo, chegam a desvirtuar seu sentido aparente. Uriah Heep (de David Copperfield"), por exemplo, manifesta uma exagerada humildade, que não passa, na verdade, de servilismo e falsidade. Mesmo os nomes de alguns personagens tirados do vocabulário inglês corrente, auxiliam a caracterização: Wackford Squeers, por exemplo, um mestre-escola exigente, um "bicho-papão" que sente prazer em bater nos alunos, é formado do verbo to wack, em inglês significa chicotear. Quando se trata, porém, de caracterização moral,, Dickens não é tão feliz: assim, Nicolas e Kate (de Nicolas Nickleby) são demasiadamente perfeitos para serem reais.

OBRAS MUITO DIVERSAS


Depoi de "Pickwick", Dickens escreveu "Oliver Twist" (1838), estas duas obras apresentam  marcante contraste: a caricatura cede lugar ao sombrio melodrama. Em "Oliver Twist", o mais vivido e sinistro de seus romances, o destino individual da criança infeliz preocupa mais o autor e o leitor do que a condição social que a persegue; por conseguinte, o sentimentalismo sufoca o sentimento de revolta. Embora muitos considerem este romance um "ensaio social", que descreve os horrores do trabalho nas usinas, o autor não chega, aqui a ultrapassar o "romancista das desgraças sociais, se bem que infligias pelas instituições injustas".
No romance seguinte "Nicolas Nickleby" (1839), Dickens procura associar o cômico e o trágico.

 A obra é uma condenação dos internatos a preços módicos, dirigidos tirânicamente por professores perversos e ignorantes. "Nicolas Nickleby" diverge profundamente de "David Copperfield", biografia romântico, que retrata a vida tal como Dickens a viu , ou seja, algo fantasticamente. Em todo caso, é a sua própria vida. Seus personagens talvez sejam deformados, mas existem pessoas reais  que lhes assemelham.
Em muitos de seus romances, Dickens critica as condições econômicas e sociais da época , o contraste entre o ambiente dos empregadores e o de seus subordinados, as condições deploráveis do trabalho das crianças, a vida miserável dos pobres, a crueldade da prisão por dívidas.

OUTRAS FACETAS DE UM TALENTO


Dickens também foi famoso e solicitado como orador. Ainda o teatro atraiu-lhe a atenção, com sua própria companhia, Dickens percorreu o país, escrevendo peças e representando. Este fato talvez explique as caracteristicas 'teatrais" de alguns de seus personagens. Dickens criou também dois semanários de enorme sucesso: Household Words e All the Year Round e fundou um jornal nacional o Daily News. Mas desistiu da empresa ao passar de três semanas. Em seus últimos anos, costumava ler suas obras em público, provocando fortes emoções, muitas vezes mulheres desmaiavam ao ouvirem, por exemplo, a descrição do assassíno de Nancy por Bill Sikes, de "Oliver Twist".

UMA VIDA MUITO TRISTE


Se como profissional Dickens conheceu muito sucesso, como homem conheceu muitas amarguras, um amor infeliz aos 19 anos, a morte de sua cunhada, Mary Hogarth, um casamento mal sucedido, o malogro de alguns de seus 10 filhos, e a morte prematura de outros, foram os fatos mais tristes de sua vida. Embora pareça escritor exclusivo para crianças, moças e senhoras, Dickens é dotado de uma força demoníaca, criador que foi de uma galeria de tipos. Tal como Balzac retrata Paris, Dickens retrata a Londres de sua época. Uma cidade cheia de fumaça, sacudida pela agitação revolucionária dos chartitas (assim era chamado um grupo que reivindicava em favor dos trabalhadores), mas fundamentalmente puritana e otimista, a Londres vitoriana. Os contemporâneos devoravam os livros de Dickens, reconheciam neles todos horrores, encontravam  neles todas as esperanças de seu tempo. A consagração, Dickens conheceu-a ainda em vida, quando a Rainha Vitória em pessoa o recebeu como o rei das letras inglesas.

WILLIAM SHAKESPEARE

Diversos trajes de mouro. Dragão. Cavalo grande com suas patas. Uma jaula e uma roca. Quatro cabeças de turco e a do velho Maomé. Roda para o cerco de Londres. Uma boca do inferno. Era com esse pobre material de cena que, em 1598, uma casa teatral inglesa participava do intenso florescimento artístico do período elizabetano. No reinado de Elizabeth I (1558-1603), o teatro tornou-se uma atividade respeitável e um espetáculo popular. Não sem enfrentar adversidades. Primeiro, o próprio puritanismo da época. Mulheres dignas não frequentavam os teatros públicos, improvisados nos pátios das hospedarias às margens do Tâmisa, onde representavam ao ar livre pequenas  comphanias ambulantes. Também não eram aceitas mulheres no palco, os papeis femininos eram representados por jovens rapazes de voz fina. Enquanto esses artistas e o prefeito viviam em permanente litígio, o governo fornecia licença aos nobres para manterem suas comphanias, intituladas "servants" (servos), que só podiam atuar nos palácios de seus amos. A primeira autorização foi concedida pela Rainha Elizabeth em 1574, para os servants do Conde de Leicester. Pesava ainda sobre a arte cênica a condenação da Igreja, sob pretexto de que as peças eram profanas, os atores irresponsaveis e o povo imoral. Talvez porque nas muitas tavernas próximas aos teatros os artistas confraternizassem ruidosamente, após os espetáculos, com fidalgos e estudantes, soldados e marinheiros. Em 1578 mais seis companhias foram licenciadas, e no fim do período elizabetano Londres já possuía onze casas de espetáculo, sendo a mais famosa o Teatro Globo. A febre de construções começou em 1576, quando James Burbage, líder dos atores do Conde de Leicester, decidiu erigir um teatro particular, fora da jurisdição do prefeito, no subúrbio de Shoreditch. Nessa data, William Shakespeare, era um menino de 12 anos.

O maior poeta dramático depois dos gregos nasceu em Stratford-on-Avon, condado de Warwich, filho de John Shakespeare e Mary Arden. Lá mesmo fez os primeiros estudos que deixou incompletos. A família empobrecera e William Shakespeare, aos 15 anos, foi trabalhar no açougue de pai, antigo membro dos "aldermen" ou conselheiros municipais. Seu primeiro ensaio poético é desta época, um quarteto ou redondilha no qual satirizava dois povoados vizinhos, dizendo que Hillbrough era ilustre por seus fantasmas e Bidford por seus bêbados. O próprio autor compôs embriagado esse quarteto, a céu descoberto, debaixo de uma macieira que por isso ficou célebre. Nessa mesma noite viu uma bonita aldeã, Anne Hathaway, 8 anos mais velha, com quem logo se casou. As pesadas responsabilidades do jovem William Shakespeare foram agravadas com o nascimento de uma filha,e a seguir, de gêmeos. Muito se escreveu sobre sua felicidade ou desgraça conjugal. Mas são poucos conhecidos os motivos pelos quais  abandonou o lar, onde só voltou para terminar seus dias. Da mulher consta que desapareceu de sua vida e foi relembrada apenas no testamento em que Shakespeare lhe legou a "pior" de suas camas.

Em 1586, a descoberta de Londres. O primeiro emprego, guardador de cavalos nas portas de teatros. E até o século passado esse ofício sobreviveu na capital inglesa, exercido por meninos que se intitulavam "Shakespeare's Boys" . Pouco a pouco, infiltrou-se teatro a dentro, prestando poucos serviços nos bastidores, encarregando-se da cópia de peças, representando minúsculos papéis. Data desse tempo sua formação clássica. Chegara ignorante e deve ter estudado e lido muito, pois de outra maneira não poderiam ser explicados os conhecimentos que revelou sobre história, mitologia, medicina, navegação e astronomia. Passando a copista oficial, representando em cena, cada vez mais integrado ao teatro, Shakespeare adquiriu toda a experiência que veio ao encontro de seu gênio. Eracomum, naquela época, que as companhias teatrais recorressem a adaptações de antigas peças, muitas delas anonimas. Assim em 1590, Shakespeare apresentou uma segunda versão de "Henrique VI", Que foi bem recebida. E durante a ruína de efêmeras companhias, nas temporadas interrompidas pela peste, ele começa a destacar-se como ator e dramaturgo.

Dua peças cômicas que recebeu para fundir, "A Comédia dos Erros" e "A Megera Domada", foram transformadas em verdadeiros originais, onde já se anunciavam um estilo e um pensamento. Seu nome entra em voga e então escreve a maioria das peças para o Teatro Globo, ocupado pela companhia de Burbage, da qual fazia parte. Acumulou alguma fortuna e retirou-se para Stratford natal, sem levar nenhum livro, nem mesmo os seus, cujas edições não aprovou. Ali viveu em ócio os últimos anos, interpondo entre seu secreto universo e os outros homens a imagem de um fidalgo campestre. Então concebeu suas obras-primas. Do recolhimento só saía para uma taverna em New Place. E o reverendo local John Ward num manuscrito de 1664, afirma  que " Shakespeare, Drayton e Ben Jonson se reuniram em alegre companhia e o primeiro parece que bebeu muito, pois morreu de uma febre ali contraída."

Teatro o Globo
Atrás de Shakespeare, toda a glóri de um reinado que inflamou o orgulho dos ingleses. Como sucedeu em Atenas e na Idade Média cristã, se o povo não participa efetivamente da criação teatral, pelo menos a inspira sempre. E os poetas escrevem em  íntima ligação com seu público, vindo de todas as camadas sociais. Enquanto os cortesãos tomam assentos nos salões, os pátios abrigam " o prudente tribunal de mil cabeças" como o chamou Ben Jonson, ator e autor amigo de William Shakespeare. Este se destaca em meio à imensa produção nacional e patriótica, lírica e romântica, do período elizabetano, pelo perfeito dominio da técnica da cena. Cada um de seus personagens existiu dentro dele como se ele próprio o fosse representar. Talvez, como se insinuou, Shakespeare deixasse a outros a tarefa de completar o esboço de uma peça, depois de escritas as réplicas essenciais e anotados cuidadosamente os movimentos cênicos. Mas, recebendo de volta o manuscrito, acabava de insuflar-lhe vida, comunicando-lhe aquele frêmito interior em cujos traços gerais se refletia a multidão. Se isso aconteceu, como questionar seus direitos de autor, de único autor de sua obra?

Abstraindo alguns poemas como "Vênus e Adônis", publicado em 1593, e os sonetos, editados em 1609, a obra de William Shakespeare abrange ao todo 35 peças, entre comédias românticas, dramas históricos e tragédias. Os críticos as dividem em quatro fases que indicam a evolução do autor.  De 1590 a 1593, refundiu as três primeiras partes de "Henrique VI", depois "Ricardo III", "A Comédia dos Erros" e "Tito Andrônico". De 1593 também é a refundição de "A Megera Domada", muito importante porque foi a partir dela que Shakespeare passou a valer-se da própria criatividade, abandonado as adaptações. No entanto, neste período o gênio shakespeariano ou não se manifestara ou ainda não convencera seus comtemporâneos. Alguns testemunhos da época o classificam como "escritor vulgar". Em 1594, surgem "Os Dois Cavalheiros de Verona", " Penas de Amor Perdidas" e "Romeu e Julieta". No ano seguinte lança "Ricardo II", "Sonho de Uma Noite de Verão" e "O Rei João".

De 1596 a 1600 escreve "O Mercador de Veneza", "Henrique IV", "Júlio César", "As alegres Comadres de Windsor" entre outras. De 1601 a 1608 o período mais importante onde escreveu "Hamlet", "Otelo", "Tudo Esta Bem Quando Acaba Bem",  "Antônio e Cleópatra", "Macbeth" entre outras. Além dessas mais de uma dezena de peças apócrifas ( sem identificação de autor) são atribuídas a Shakespeare. Foi em junho de 1609 que saíram os sonetos de Shakespeare, publicados fraudulentamente pelo editor Thomas Thorpe. São 154 e formam dois grupos o do "jovem amigo" (1 a 126) e o da "dama de negro" (127 a 154), figuras inspiradoras que geraram grandes discussões sobre sua exata identidade. Na tese de um especialista, os sonetos de Shakespeare são antes exercícios de habilidade do que a manifestações autobiográficas. Assim, quando ele confessa seu amor pelo jovem amigo, isso pode ser entendido no sentido elizabetano de amizade, sem esquecer a adulação que dominava o ambiente da corte. Além da dama de negro, com quem divide esse grande amor, Shakespeare fala também de um poeta  rival.

A afirmação de imortalidade, feita em tantos sonetos (a criatura amada viverá eternamente em seus versos, que não morrerão enquanto houver olhos para ver), é uma ideia comum na poesia greco-latina e renascentista. Esta e outras possíveis assimilações shakespearianas não diminuem o vigor de uma personalidade que como nenhuma outra absorveu o espírito de seu tempo. Como homem, ele seria a soma imaginaria de seus personagens, representantes de todos os temperamentos, adeptos de todas as crenças. Como artista, teve o dom de captar com igual mestria as paixões mais turbulentas e os sentimentos mais puros, a mais rica alegria e o mais penoso desespero. Em suas criaturas, falam  com a mesma clareza o sábio e o ignorante, a soldadesca vil e o caudilho triunfante. Concebeu as tragédias mais sombrias e as situações mais cômicas, narrando-as com a justeza de sua expressão e a magia do seu verbo.

Shakespeare produziu sua obra ao compasso do tempo, com certa pressa, visando principalmente ao público ávido que a esperava. Foi magistral o traço dos caracteres com que  povoou  seu mundo . De Romeu e Julieta fez personficação do amor irrealizado. De Otelo, o prótotipo, De Macbeth, o resumo da ambição e do remorso. Do Falstaff de "Henrique VI", o retrato do inescrupuloso mas divertido beberrão. Do Shylock de "O Mercador de Veneza" o usuário materialista por excelencia. E Hamlet, talvez sua maior criação quer "dormir sonhar", mas indaga se sonho da morte não será um sonho como os outros. A outra vida poderá ser um perigoso pesadelo. Esta, é um eterno sofrimento. Hesitante entre a fria execução de uma vingança e o sentimento de piedade, Hamlet rebela-se contra o destino. Porque assim pensava Shakespeare: "A finalidade de representar, tanto no principio quanto agora, era e é oferecer um espelho  à natureza; mostrar à virtude seus próprios traços, à infâmia sua própria imagem, e dar à própria época sua forma e aparência" (Hamlet, ato III, Cena II)

CHARLES DARWIN

Uma das grandes curiosidades do homem tem sido conhecer o porque da prodigiosa variedade de seres. Existiram sempre? Se não, de onde vieram? Como apareceram? Dentre as mais antigas explicações distingue-se a de que um ser supremo teria criado os primeiros casais de todos os seres vivos e, a partir dai, o mundo continuara sempre igual, povoado pelos descendentes daqueles seres, nascidos pela união de Deus. Essa concepção apenas ocasionalmente era colocada em dúvida, porque era perigoso duvidar, perturbando aquilo que era eternamente imutável. Até o momento em que duvidar passou a significar a possibilidade de saber e progredir. O século XVI foi, para os europeus, a época de uma grande aventura, cujos reflexos marcariam fortemente todo o seu futuro desenvolvimento. Estamos na Era das Descobertas. Novos povos, estranhos, de costumes inconcebíveis e lingua incompreensível, são inesperadamente encontrados nos antes desconhecidos rincões da terra. São diferentes do primeiro casal que gerou o homem europeu. E os animais ali são diferentes. E as plantas. Pela primeira vez, a crença sofre o impacto da dúvida. E a dúvida engedra o pensamento que passará a abranger todos os setores, abalar dogmas e impérios, criar novas linhas de evolução humana. As especulações filosóficas encontram terreno fértil  na concepção da evolução biológica. A geologia e á historia natural começaram a demonstrar que a idade da Terra é muito superior a que se pensava e que também o homem existia a mais tempo que se supunha. A Revolução Industrial evidencia, uma vez por todas, as possibilidades  do progresso tecnológico, social e cultural. O lugar do homem na natureza começa a merecer sérias atenções. É preciso saber explicar a coexistencia, numa mesma época, de sociedades humanas desenvolvidas e progressistas como as européias, ao lado dos povos ainda primitivos. E o zoólogo  francês Jean Lamarck (1744-1892) classifica o homem ao longo da escala animal.

Em 1830, o geólogo inglês Charles Lyell (1797-1875) publicou os "Princípios de Geologia", onde estabeleceu de maneira cabal que as condições atuais  da Terra são geralmente similares às de muito tempo atrás, o suficiente para que as formas vivas de hoje existentes tenham já alguns exemplares fossilizados. A contribuição cientifica decisiva para essas noções deu-se atraves do naturalista inglês Charles Robert Darwin, que, além disso estabeleceu os principais mecanismos através dos quais qualquer espécie animal, inclusive o homem, evolui a partir de formas mais simples ou como resultado da necessidade de melhor adaptação ao seu ambiente.

ORIGEM E EVOLUÇÃO DE CHARLES DARWIN


Nascido em Shrewsbury a 12 de fevereiro de 1809, Charles Darwin desde a infância revelou-se bem dotado. Arguto e observador, procurava compreender o que lhe ensinavam. Gostava de Historia Natural e fazia coleções de pedras, conchas, moedas, plantas, flores silvestres e ovos de pássaros. Filho de médico, Charles Darwin quis ser médico e, em outubro de 1825, com 16 anos, matriculou-se na Universidade de Edimburgo, onde seu irmão, Erasmus Alvin, também estuda medicina. Entretanto uma vez em Edimburgo, notou que para ser médico, teria que assistir a muitas operações (feitas sem anestesia, pois ainda o clorofórmio não fora inventado) e a várias aulas que não lhe interessava nem um pouco. E, ao invés de estudar, acabou dedicando seu tempo em reuniões com outros estudantes, já em 1826 chegou a apresentar para os colegas  pequenas descobertas suas  no campo da Historia Natural.

Seu pai notou o que ocorria e, procurando evitar que Charle Darwin se tornasse só mais um pseudo-intelectual ocioso, sugeriu que se fizesse clérigo. Darwin aceitou, foi para Cambridge, donde, passado três anos, saía baracharel em Artes mas continuando os estudos para pastor. Mas tampouco em Cambridge revelou grande interesse pelo que lhe ensinavam. Em compensação, participava de reuniões e excursões botânicas realizadas pelo professor John Stevens Henslow, Clérigo, geólogo e botânico (1796-1861, com o qual desenvolveu grande amizade. Quanto ao resto do peródo que passou em Cambridge, a maior parte do tempo empregou em exercícios esportivos especialmente a caça e a equitação, e em colecionar coleópteros. Esta última ocupação e a amizade com Henslow permitilham-le travar relações com vários naturalistas. Esse contato, assim como a leitura de livros de Alexander Von Humboldt e John Federick William Herschel, astrônomo e físico inglês (1792-1871), despertaram nele um desejo de contribuir com sua parte para o desenvolvimento da História Natural. Henslow, além disso, inclinou-o a estudar geologia apresentou-o a Adam Sedgwick, geólogo inglês (1785-1873), em companhia do qual fez uma rápida excursão geológica ao Norte do País de Gales. Retornando, recebeu um recado de Henslow, que lhe propunha que tomasse parte, como naturalista, mas sem remuneração, de uma viagem do bergantim "Beagle". Charles Darwin interessou-se pelo oferecimento e, após vencer a relutância do pai em deixa-lo viajar, previa-se que a viagem deveria durar três anos, era uma drástica interrupção dos estudos do futuro pastor anglicano, seguiu para Londres , onde deveria embarcar. "O H.M.S Beagle" partiu a 27 de dezembro de 1831. Comandado pelo capitão Robert Fitz-Roy, também metereologista (1805-1865), deveria explorar as costas da Patagônia, Terra do Fogo, Chile, Peru, algumas ilhas do pacífico e também realizar, ao redor do mundo, uma série de medições conométricas . Charles Darwin escreveria mais tarde que a viagem a bordo do "Beagle" fora o acontecimento mais importante de sua vida, uma experiência fascinante, apesar de alguns enjôos e algumas alterações com Fitz-Roy, cuja cabina compartilhava. Visitou, entre outros lugares, o Brasil, o estreito de Magalhães, a costa oeste da América do Sul e algumas ilhas dos mares do Sul.

INSETOS, MINERAIS E ORNITORRINCOS


Se Charles Darwin tivesse levado a bordo o produto de todas as caçadas e coleções que fez, provavelmente o pequeno bergantim, 235 toneladas, teria ido a pique. Mas o naturalista teve prudência de ir despachando para o professor  Henslow todo o material que recolhia, tendo antes o cuidado de preserva-lo devidamente, para posterior estudo. Do Brasil enviou dezenas de caixas de insetos. Da Austrália, ornitorrincos. Da ilha dos Cocos, amostras de tipos raros de formação carbonífera. De cada porto onde "Beagle" atracava, seguiam para Inglaterra algumas amostras. Entre elas, rotulados com recomendações particular cuidado, alguns volumes contendo animais recolhidos nas ilhas Galápagos. Haviam despertado o interesse de Charles Darwin por um fato curioso, pareciam ser sobrevivente de épocas pré-históricas.

De volta a Inglaterra, o jovem inexperiente que embarcara a cinco anos antes, a viagem se prolongara por dois anos além do previsto, chegou com sólida reputação como geólogo e naturalista. Viveu alguns anos em Cambridge e Londres,trabalhando ativamente em assuntos científicos, especialmente no preparo da publicação dos resultados de sua viagem e na coleta de dados para sua teoria acerca da origem das espécies. Foi secretário  de Geological Society, onde travou conhecimento com o eminente geólogo Charles Lyell, cujo trabalhos lhe haviam de ser muito úteis. Em 1839 contraiu matrimônio e, em 1842 mudou-se para Down, pois sua saúde exigia que fosse morar no campo. Ali, limitado por suas condições físicas trabalhou com afinco, praticamente até a data de sua morte, 19 de abril de 1882. Contribuições cientificas  diversas encontram-se nas obras de Charles Darwin "A Variação de Animais e Plantas Domesticadas", em que demonstra a possibilidade de criar raças especiais de pombos, cães, e outros animais através do acasalamento seletivo. "A Descendencia do Homem" onde demonstra que a raça humana é produto da evolução. "A Formação do Húmus Vegetal pela Ação dos vermes, onde demonstra, pela primeira vez o papel da minhoca na manutenção da fertilidade do solo. Publicou também " As Diversas Formas de Fertilização de Orquideas pelos Insetos", "O Poder do Movimento nas Plantas", etc.

"Beagle"
Mas o principal tema das pesquisas de Charles Darwin sempre foi a evolução. Um bom número de fatos favorecia, desde o princípio, sua convicção de que, enquanto uns seres se extinguiram, outras espécies apareceram evoluindo das anteriores. Alguns fósseis recolhidos na Américas do Sul pareciam-se muito com certo exemplares da fauna viva das Ilhas Galápagos. Isso foi um bom exemplo.

A TEORIA DA EVOLUÇÃO


Partindo desse ponto, o naturalista foi formulado sua teoria, segundo a qual as formas de vida evoluem lenta mas continuamente através dos tempos. Charles Darwin observou que, embora todos os organismos vivos tenham potencialidade para multiplicar-se em progressão geométrica, o número de indivíduos de uma mesma espécie tem apenas pequenas oscilações ao longo das gerações, não crescendo geométricamente, como seria de se esperar. A ostra, por exemplo, lança ao mar centenas de milhares de ovos. No entanto, apenas um dois se tornarão ostras adultas. Esta limitação é condicionada pelas possibilidades de obsorção de novos indivíduos pelo meio ambiente. Conclui-se, pois, que existe uma competição pela sobrevivência.

Observou ainda que em qualquer população são encontradas variações individuais que podem ser transmitidas hereditariamente. Algumas dessas variações são favoráveis à sobrevivência e à reprodução de  um organismo em determinado ambiente. Com o tempo, estas variações mais favoráveis vão se acumulando. Assim, as populações se transformam e depois de muitas gerações acabam por se diferenciar bastante de suas antepassadas. No decorrer desse processo vai ocorrendo uma seleção natural, a sobrevivência do mais apto, que preserva as espécies mais adaptaveis, modificando-as gradativamente para enfrentar as condições do ambiente em que vivem. E, se o ambiente sofre alguma modificação, também as espécies se formam. Dependendo do tipo de desenvolvimento dessas variações, diversas espécies, díspares entre si, podem descender de uma mesma espécie-tronco.

E DARWIN SE IMPÕE


No verão de 1858, Charles Darwin recebeu outro de naturalista. Alfred Russel Wallace (1823-1913), um manuscrito sobre a tendência das variedades a desviar-se indefinidamente do tipo original. O manuscrito tinha muitos pontos em comum com a sua teoria. Quando estava para enviar o manuscrito à Linnean Society, alguns amigos seus interferiram para que enviasse também o seu trabalho.
E assim foi  feito. Mas a comissão de Linnean Societv que leu o manuscrito não manifestou por ele nenhum interesse especial. A penas um certo professor Haughton de Dublin, fez declarações a respeito, dizendo que tudo o que havia de novo no trabalho era falso. Só estava correto o que persistia de velho.

A respeito desse decisão pouco entusiatica, Charles Darwin lançou seu livro no ano seguinte, com o título "Da Origem das Especies por Via da Seleção Natural ou A Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida". Os 1250 exemplares da primeira edição esgotaram-se num único dia. E poucos dias depois esgotaram-se mais 3000 exemplares de uma segunda triagem.

O tempo passou; novos conhecimentos somaram-se aos anteriores, evoluiu a teoria da evolução. A ciência do século XX burilou as idéias de Charles Darwin pelas mãos de inúmeros estudiosos, inspirados no próprio trabalho, daquele grande cientista. A descoberta das leis de Mendel, e o desenvolvimento da genética, ciência da hereditariedade, vieram a fornecer elementos fundamentais para os estudos experimentais da evolução orgânica. E o progresso tecnológico, com o advento dos computadores eletrônicos, amplia ainda mais as possibilidades do estudo e entendimento da evolução

LEONARDO DA VINCI

" Se não tivesse sido tão tão volúvel e inconstante, teria feito um grande proveito na erudição e nas letras". A frase é de Giorgio Vasari, pintor menor, mais o maior historiador da arte do Renascimento, em cuja época viveu, e refere-se a um artista daquele tempo, oriundo da localidade de Vinci, perto de Florença, e chamado Leonardo. A critica é justa: realmente de tão volúvel e inconstante Leonardo foi pintor, escultor, matemático, arquiteto, urbanista, físico, astrônomo, engenheiro, naturalista, químico, geólogo, cartógrafo, estrategista, criador de engenhos bélicos e inventor de instrumentos musicais. Os estúdios da Renascença reconhecem nele uma das figuras mais importantes de seu tempo. Sua obra, de uma diversificação assombrosa, é toda marcada pela genialidade. E sua figura humana aproximou-se como nenhuma outra daquele imaginário Homem Universal, o ideal da época renascentista.


O HUMANISMO QUE MODERNIZOU O MUNDO


Quando se fala em Renascença, há quem imagine que se trata de um fenômeno súbito: que de repente no século XIV, teria ocorrido na Europa uma ressureição do interesse pela cultura clássica da Grécia e de Roma, moldando a partir de então, durante um grande período, toda criação filosófica, cientifica e artística. No entanto, não foi bem assim. O chamado Renascimento resultou de um movimento que começaram muito antes, por volta do século XIII. Foi então que alguns artistas e pensadores, embora ainda tímida e inconscientemente, se tornaram pioneiros da Renascença ao reverenciarem os ideais artísticos  da antiguidade. A tendencia evoluiu e, embora sem perder as marcas do classicismo do qual surgira, aos poucos foi adquirindo outro espirito e ganhou caracteristicas próprias.. E não ficou restrita apenas às letras, artes e ciências, passou a influenciar também a educação, a politica e a própria religião, numa ampla revolução cultural que traçou o primeiro esboço do que viria a ser o mundo moderno.
Em oposição à glorificação do celeste e do extraterreno, que caracteriza a Idade Média, passou a vigorar um acentuado humanismo, o homem surgiu como centro dos interesses. Viver a vida e conhecê-la tanto quanto o possível generalizou-se como atitude. Dessa forma, os europeus, que durante séculos  se haviam conformado em sonhar  com a futura vida eterna, começaram a descobrir o valor da vida no dia-a-dia, ao nível da terra.

BOM PROFESSOR MELHOR ALUNO


Era esse o clima que existia na Ítalia  no ano de 1452, quando em Vinci, pequena aldeia toscana perto de Florença, nasceu o menino Leonardo. E foi influenciado por esse espirito que Leonardo da Vinci cresceu e se iniciou em arte, no estúdio de Andrea del Verrocchio. Tão bom mestre era Verrocchio e tão bom aluno saiu-se o rapaz que aos 25 anos de idade pôde juntar-se aos artistas que trabalhavam para Lourenço de Medici, o famoso mecenas que governava Florença. Já conhecido como pintor, Leonardo  deixou a casa de Medici e começou a trabalhar para outras figuras importantes. Era protegido de Ludovico Sforza, duque de Milão, serviu como estrategista de César Bórgia e ainda, por encomenda do Papa Leão X,  realizou uma série de brilhantes estudos de óptica. Durante a ocupação da Ítalia pelos franceses, da Vinci projetou para o governador Charles d'Amboise uma residência cujo o arrojo lhe valeu um convite do próprio rei francês, Francisco I. Na França, da Vinci passou seus últimos anos, os mais tranquilos. Ali morreu em 1519 com 67 anos de idade.


ARTE


Embora genial em diversos campos, foi na pintura que da Vinci mais se distinguiu. Pintou poucos quadros, mais todos eles verdadeiras obras-primas, como  "Anunciação", a "Virgem dos Rochedos" o retrato da "Mona Lisa", considerado o quadro mais conhecido do mundo. De tempos em tempos , Leonardo se dedicava à escultura, mas embora fizesse muitos esboços, poucas foram as obras que chegou a concluir.




URBANISMO


Até o renascimento, ninguém pensava em urbanismo. As cidades não passavam de insalubres amontoados de casas. Ruas, havia poucas. Esgotos, menos ainda no projeto que fez para a cidade de Milão, da Vinci baniu os muros, traçou canais de esgoto, previu ruas superpostas para pedestres e pista livre para veículos. As casas seriam amplas e ventiladas e haveria praças e jardins para todos, como mostram estes esboços, provando o seu gênio como urbanista.


AEROLOGIA


O domínio dos ares, sempre foi uma paixão de Leonardo da Vinci, que dedicou à aerologia uma grande parte de sua vida. Após estudar a fundo as aves, em busca de conhecimento sobre o vôo, o inventor idealizou um engenho muito parecido com elas. Mas esse precursor  dos planadores levou da Vinci à conclusão que o homem nunca iria voar como os pássaros (batendo asas). De qualquer forma, porém poderia pousar tranquilamente como eles, achava Leonardo. E criou um pára-quedas  de "12 braças quadradas por 12 de alto". E já preparava estudos de um engenho voador mecânico. Além dessas  criou várias outras  máquinas aéreas, propelidas mecanicamente. Uma delas o parafuso aéreo, constitui uma antevisão do helicóptero. Nele, quatro homens, à força dos músculos, moviam o eixo ligado a hélice.





HIDRÁULICA



Baseado no principio de Arquimedes, Leonardo inventou uma bomba hidráulica para elevar água, criando assim, o primeiro dos dispositivos  de elevação, hoje muito em uso. Imaginou também uma bomba de poço  e uma roda hidráulica. Esta, por sinal, abriu caminho para as turbinas, que só muito mais tarde o mundo veio a conhecer. Em matéria de hidráulica, assim como em todas outras ciências, Leonardo discutia qualquer verdade estabelecida. Antes de aceitar uma ideia , fazia questão de testa-la de varias formas, para tirar sua própria conclusões. Seu empirismo foi, mais tarde, imitado por Galileu Galilei, físico e Francis Bacon filósofo. Além de engenheiro aeronáutico e hidráulico, Leonardo foi também engenheiro civil. Já naquela época, previu a futura técnica de construção de pontes metálicas.



GUERRA


Apesar de fascinado pela vida, o criador de Mona Lisa foi também um entusiasta da guerra e da idealização de maquinas de morte. O carro de assalto que imaginou  era uma concepção originalissíma: coberto de toras de madeira, movia-se por um mecanismo propelido por homens ou animais disparando sobre os inimigos com armas que se deslocavam sobre a abertura superior. Leonardo criou também sistemas defensivos muito eficientes  para que os que o contrataram como estrategista. Um deles era uma fortificação formada por duas muralhas, separada por foços  e dotada de galerias subterrâneas. A guarnição desses redutos  disparava sobre o inimigo com canhões de canos múltiplos, também de sua criação, os quais desfechavam rajadas, como mais tarde as metralhadoras. E dispunham ainda de gigantescas catapultas colocadas sobre fortes estruturas de rodas inclinadas

ANATOMIA




Por causa da anatomia, Leonardo da Vinci quase se viu em maus lençóis: foi descoberto dissecando cadáveres, o que era considerado crime. Graças as suas dissecações entretanto, fez descobertas importantissimas, que registrou em inúmeros desenhos e no Tratado de Anatomia que escreveu. As proporções do corpo humano, seus diversos sistemas, as leis do seu funcionamento, tudo isso foi estudado e minuciosamente descrito por da Vinci.




NÁUTICA


Também em náutica, da Vinci revelou uma visão prodigiosa. Para vencer a resistência da água, estudou novos perfis de casco, a fim de tornar as embarcações mais parecidas com os peixes. E projetou vários modelos de barco, entre os quais um movido a rodas de pás, como os vapores que surgiram 300 anos depois.

MECÂNICA


Projetar engenhos mecânicos, durante a Renascença, não dava prestigio a ninguém. Ao contrario era visto como atividade indigna de um cientista. Leonardo da Vinci, porém, nunca se preocupou com essa opinião. A grua que inventou dispunha de cabrestante com freio dentado e equilibrava-se por meio de uma caixa de contrapeso. No isqueiro que projetou para ascender canhões  da Vinci criou uma corrente tão sólida, que continua em uso até hoje, nos mecanismos que exercem grandes esforços. Sua draga palustre de pás escavatrizes funcionava por um princípio idêntico ao utilizado pelas escavadeiras hidráulicas de hoje. E a tal ponto chegou a capacidade de antecipação de Leonardo, que idealizou, com 500 anos de antecedencia , o patriarca dos macacos de automóvel. 

VOLTAIRE FILOSOFIA E SÁTIRA

Certa vez um nobre francês, desdenhando do nome de Fraçois Marie Arouct Voltaire, pela sua origem de baixa nobreza, recebeu como resposta. " O nome que trago, meu senhor, é obscuro. Mas eu ao menos, honrei-o". Por essa resposta considerada insolente, Voltaire pagou com uma estada forçada na Bastilha, seguida de um exílio na Inglaterra. Essa não foi a primeira nem seria a última vez em que Voltaire se veria as voltas com a prepotência. Seu valor como pensador vem justamento do fato de ter dito o que disse na época que viveu.

PARA COMEÇAR UMA PRISÃO


Voltaire nasceu em Paris em 1694. Filho de um tabelião (notário), ficou órfão de mãe muito cedo. Aos dez anos, em 1704, foi interno no Louis le Grand, colégio de jesuítas, onde permaneceu por sete anos. Aos dezesseis anos, iniciou o estudo de direito, obedecendo ao desejo do pai. Mais tarde, Voltaire abandonaria a advocacia, observando que desgostara diante da "profusão de coisas inúteis com que haviam desejado carregar sua cabeça". Ainda jovem, viu-se entregue aos cuidados do Marquês de Châteauneuf, que se dirigia para a Holanda, na qualidade de embaixador. Mas Voltaire apaixonou-se por uma jovem francesa residente em Haia, filha de um refugiado protestante. Foi demitido e voltou a Paris. E tornou-se notário de um procurador na província. Nessa época, começou a escrever sátiras, conta tudo e contra todos. Por causa dessas sátira foi levado para Bastilha pela primeira vez. Foram onze meses de encarceramento. Saiu da prisão em 1718; havia escrito o começo de um poema épico, La Henriade, e uma tragédia completa, Édipo. Foi na ocasião da encenação dessa tragédia que adotou o pseudônimo de Voltaire, pelo qual ficaria conhecido. Nessa mesmo ano de 1718 a Comédie Française encenou o Édipo. Era o começo da fama.

UM RICO HERDEIRO


O ano de 1721 vai encontrar Voltaire disputado por todas as rodas mundanas parisienses. Com a morte do pai, tornou-se herdeiro de um razoável fortuna que logo ampliou. Já era rico famoso quando solicitou licença para publicar o poema Henrique IV ou A liga (La Henriade), iniciado na prisão. A permissão lhe foi negada, mas, nem por isso, deixou de dar a público sua obra: divulgou-a clandestinamente. Aos poucos, Voltaire passou a desenvolver inúmeras atividades, que forma desde a participação na vida mundana, até os negócios, mas sempre dedicando-se a literatura. Em Rouen, onde publicou La Henridale, meteu-se com uma questão com um cavaleiro. Acabou sendo espancado e lançou um protesto contra a violência de que foi vitima. Seu protesto resultou em nova prisão, por pouco tempo. Um mês depois saía da Bastilha e era conduzido a Calais, de onde embarcou pela Inglaterra exilado. Para Voltaire, a Inglaterra era o país ideal, onde poderia encontrar a liberdade, conforme confessara a um amigo, em cartas. Por isso mudar-se para lá não lhe causou grande transtorno. Ao contrário, foi o início de uma importante fase de sua vida.

DEPOIS DA INGLATERRA MAIS TRABALHO


A temporada de dois anos na Inglaterra, 1726 a 1728, foi fundamental na vida de Voltaire. Aprendeu inglês descobriu a obra de Shakespeare, interessou-se por pesquisas cientificas e, sobretudo, compenetrou-se das  idéias de tolerância religiosa desenvolvidas na sociedade britânica. Retornando à França, aumentou sua fortuna e passou a produzir febrilmente: publicou a  Histórias de Carlos XII (1731), e ainda, Brutus (1730) e Zaíra (1732), duas peças teatrais encenadas em Paris, onde introduziu recursos shakesperianos na tragédia clássica francesa. Com o Templo do Gosto (1733) e principalmente, com as Cartas Filosóficas (1733), criticou e satirizou os poetas franceses, em comparação com os artistas e com a sociedade inglesa. Nesta última obra, trata da religião, filosofia, política e literatura, entremeadas de ataques a sociedade francesa. Nova perseguição. A obra foi condenada como perigosa à religião e sociedade, o que não impediu a sua difusão e popularidade. A partir dessa época, Voltaire refugiou-se no castelo de Cirey, em companhia de Mme de Châtelet, onde permanece durante quinze anos de incessante trabalho. Escreve de tudo, sob as mais variadas formas e sobre diversos assuntos. Tragédias como: "A Morte de César, Maomé, Mérope, Semíramis; O Filho Prodigo, comédia. O Mundano, sátira filosófica".

Encontrou seu modo mais caracteristico de expressão nos contos e romances satíricos, com os quais se lançou à desmitificação das verdades oficiais da época, disfarces da opressão social. Cândido ou Da. Inocência é a mais celebres dessas obras satíricas. De estudo histórico escreveu Séculos de Luis XIV e Ensaio sobre os costumes. De Cirey, Voltaire estabeleceu correspondencia com Frederico II, soberano da Prussia, que se dizia admirador de suas obras. Isso resultaria num convite para a côrte de Potsdam, como hóspede do Império.

A VIDA NA CORTE


Reconciliado com o rei francês, Voltaire voltou a frequentar a corte. Foi agraciado com títulos e honrarias: historiógrafo da França e Gentil-Homem da Câmara do Rei. Finalmente, foi eleito para a Academia Francesa em 1746. Após a morte de Mme de Châtelet, em 1749, resolveu aceitar o convite do imperador Prússiano. Na Prússia foi festejado como nenhum outro, recebendo o título de Camareiro-Mor e honrarias como a Cruz da Ordem do Mérito. Mas durou pouco a amizade entre Frederico II e Voltaire. O imperador, extremamente ciumento e vaidoso, irritou-se com as correções feitas por Voltaire e seus poemas em francês. Em 1752, na Prússia, Voltaire lançou o "Panfleto do Doutor Akakia", sátira ao presidente da Academia de Berlim. Foi o suficiente para ter que fugir do país, tendo em seu encalço a policia do imperador. Voltaire levava consigo, um volume de poesias de Frederico II, com o qual pretendia fazer rir toda a Europa. Alcançado devolveu o livro e instalou-se na Alsácia.

Três anos depois, mudou-se para Ferney, possessão francesa na Suíça. Torna sua residência um asilo inviolável até o fim de sua vida. De Ferney, passou a se corresponder com vários intelectuais, entre os quais, D'Alembert. Colaborou na redação da "Enciclopédia" juntamente com Diderot, Montesquieu, Rousseau, D'Alembert, Buffon, Helvetius e outros grandes nomes. Graças à interferencia de Mdame Pompadour, a obra foi completada: 36 volumes, dos quais dois eram de pranchas ilustradas que mostravam os instrumentos e as maquinas utilizados na época. Na "Enciclopedia" estavam reunidas obras das mais importantes, de divulgação das idéias contra a ordem estabelecida. Era um instrumento para a propagação da nova filosofia liberal. Com este trabalho, os filósofos iluministas influenciaram decisivamente a política dos chamados déspotas esclarecidos. E marcou uma época.

CONTRA A RELIGIÃO CATÓLICA


Incessante, continua a produção de Voltaire: contos, romances, tragédias, poemas e sobretudo, obras satíricas que, não podendo assinar, publicava anônima e clandestinamente. Lançou-se violentamente contra  a Igreja Católica "Esmaguemos a Infame", dizia. Ao mesmo tempo, fazia constantes campanhas em favor dos pobres da região. No seu refúgio em , Voltaire continuou exercendo seu papel de filósofo, distribuindo terras, criando escolas, defendendo os protestantes e realizando inflamadas campanhas  contra erros judiciários. Aos olhos do povo, surgia como a encarnação da justiça social. No entanto, sua posição estava longe disso. Entendia que o povo teria que ser "guiado" e não instruído, pois " não é digno de ser". Dizia: "Parece-me essencial que existam vagabundos ignorantes".
Ferney

Depois de 28 anos de ausência, Voltaire regressou a Paris em 1778. Foi recebido como herói popular. Quando da estréia de sua peça "Irene", teve seu busto coroado em cena aberta. Morreria pouco depois, aos 84 anos de idade. Seu sepultamento, apesar das dificuldades em dar-lhe sepultura cristã, foi na Abadia de Scellières. Em 1791, numa cerimônia de grandes pompas e honrarias, seus restos mortais foram transladados para o Panteão

Voltaire deixou uma obra imensa. Com seus trabalhos filosóficos e de ficção, em nome da Razão humana, conseguiu levar ao ridículo e à desmoralização as instituições político- religiosas da época absolutista. Preparava assim o caminho que breve conduziria à Revolução Francesa (1789). Nas obras históricas, Voltaire fez de seus relatos um jogo sempre renovado de paixões humanas: "Há umas doze batalhas", registrava ele numa carta, "das quais não falei, graças a Deus, porque eu escrevo a história do espírito humano e não uma crônica".

Suas cartas, dirigidas a soberanos, intelectuais, homens de negócio e amigos, são essenciais para a compreensão do seu pensamento.

TOCQUEVILLE E A DEMOCRACIA

"Em nossos dias, os homens vêem que os poderes constituídos se desmoronam em todas as partes, assistem à morte de toda a autoridade antiga, as velhas barreiras vacilam e caem e, ante esse espetáculo, turva-se o juízo dos mais sábios." Assim Tocqueville expressava seu assombro diante das profundas mudanças originadas da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. A " velha ordem" que durante séculos reinara na Europa ruíra e os pensadores sociais do século XIX dirigiam suas atenções para os novos rumos que tomaria a sociedade ocidental. Seria possível reconciliar os antigos valores sagrados com as novas realidades politicas e econômicas? Que papel caberia ao individuo na nascente sociedade de massas? Como seriam distribuídos a riqueza os privilégios e o poder? O que restaria das comunidades tradicionais, com seu sistema de autoridade e baseado em laços pessoais de honra e fidelidade? Não só o pensamento de Tocqueville, mas a própria sociologia teve origem nas reflexões que buscavam respostas às novas situações engedradas pelas revoluções Industrial e Francesa. Assistia-se ao crescimento da classe operaria, á consolidação do poder da burguesia, ao desenvolvimento da tecnologia e do sistema fabril. A democracia deixava de ser um termo literário, passando a fazer parte do vocabulário politico. A Revolução Francesa, por sua vez, empenha-se em destruir todos os resquicios feudais, visando uma reconstrução social e moral que abarcava a igreja, a família, a prosperidade e outras instituições.

Todas as corporações e associações foram abolidas; nenhum poder intermediario deveria existir entre o individuo e o estado. Assim, restringia-se também o papel da própria família: o poder paterno foi limitado, o matrimonio tornou-se um contrato civil, os filhos ílegitimos passaram a ser incluídos nos assuntos de herança. A solidariedade econômica da família foi debilitada por leis como a que estabelecia a divisão da herança em partes iguais, entre todos os filhos. O governo assumiu a responsabilidade pela educação dos indivíduos, antes tarefa da família e igreja. Esta foi submetida ao Estado e suas propriedades confiscadas.

PENSADOR SOCIAL E HOMEM PÚBLICO


Vivendo de 1805 a 1859, Alexis de Tocqueville teve uma intensa participação na vida pública francesa. Filho de família nobre, foi nomeado juiz no tribunal de Versailles em 1827. Cinco anos depois, foi enviado pelo governo Francês aos Estados Unidos, para analisar seu sistema penitenciario, apontando como modelar. Tocqueville impressionou-se com a jovem nação, encontrando nela, já solucionados, vários dos problemas com que a velha Europa se debatia a mais de 40 anos. Ao regressar escreveu "A democracia na América", primeiro estudo sistemático e empírico que tinha como tema os efeitos da democracia sobre as tradições, os valores e as estruturas sociais procedentes da sociedade medieval. Em sua  segunda obra "O antigo regime e a Revolução Francesa", publicada em 1856, ele examina as fontes do poder político moderno e seu duplo aspecto de centralização e burocratiazação.

Entre as publicações  destas duas grandes obras, Tocqueville tornou-se membro da Academia de Ciências Morais e exerceu a função de deputado por La Manche. Em 1849 assumiu o posto de ministro de Negócios Estrangeiros. Mas o golpe de Luís Bonaparte, ao qual se opunha, acabou por afastá-lo  da vida pública. Tocqueville foi expulso do país, vivendo na Itália e na Alemanha, antes de regressar a seu país onde morreu. Embora tenha sido um politico de certa importância, Tocqueville foi, antes de tudo um teórico. É correta a visão de si mesmo que transmite a um amigo, em uma carta de 1850: "Parece-me que meu verdadeiro valor está sobretudo nos trabalhos do espirito; que valho mais no pensamento que na ação; e, que se algo ficar de mim neste mundo, sera muito mais a marca do que escrevi do que a lembrança do que haja feito".

Tocqueville foi o primeiro pensador a sistematizar a relação entre igualitarismo e centralização do poder. Para ele, a nivelação das camadas sociais é uma tendencia unânime da historia moderna. E nesta tendencia está a fonte do poder do poder democrático, pois a igualdade significa a destruição dos estamentos, grêmios, classes e outras associações que não só determinam a desigualdade entre os indivíduos, mas também limitam o poder do rei. Assim, tudo o que corroí as hierarquias tradicionais acelera a centralização do poder. E, por sua vez, toda a acumulação do poder estatal prolonga-se em um aumento da nivelação social. Mas os efeitos da centralização politica vão além da destruição do localismo e da hierarquia. O governo, antes exercido por empregados honorários e voluntários, transformam-se em administração pública, em mãos de empregados assalariados. A autoridade da família e de instituições como a profissão, a classe e a religião, declina ou desaparece: nas democracias, cada individuo subordina-se diretamente às leis gerais da sociedade. Passam a ter consciência de si mesmos como membros de uma nação e não como membros de uma igreja ou grêmio, ou de tal família ou província.

É justamente na ausência de intermediação entre o individuo e o estado que Tocqueville vê o grande perigo da democracia. Com a nivelação de todos os indivíduos, a opinião pública adquire um grande poder e a democracia transforma-se em uma "Tirania plebiscitaria". A comunidade é enfraquecida e o estado herda todos os prívilegios dos quais foram despojados a família o grêmio e o individuo. Não havendo associações civis, o individuo vê-se desprotegido frente ao estado. Não lhe é possível limitar a participação e a centralização governamental, restando-lhe submergir na massa. O império da opinião pública retira-lhe toda a liberdade. Apenas as associações intermediarias( sociais, culturais, econômicas e politicas) poderiam fornecer-lhe um reduto. E, na proliferação destas residiria a superioridade da democracia norte-americana. Nesta país, o poder centralizado era neutralizado por forças opostas como a independência do poder judiciário, a separação entre igreja e estado, a autonomia das profissões, a autoridade ainda intacta da comunidade local, a diversidade regional e, sobretudo, a liberdade de associação.

Já na Europa, todas as autoridades foram varridas pelo processos de centralização do poder e de democratização, mas não foram substituídas. Daí a razão do pessimismo de Tocqueville sobre o futuro europeu.


O FIM DAS CLASSES SOCIAS


Tocqueville sustenta que as revoluções deram fim as classes sociais. Embora havendo diferenças econômicas, a centralização politica e a norma de igualdade, destruíram o sentimento de pertencer á uma classe. Além disso Tocqueville acredita que a grande mobilidade social nas democracias impossibilita a constituição de classes, com sentimentos, esperanças comuns, propósitos e tradições. Como a riqueza adquire um caráter comercial e febril, não mais se baseando na posse da terra, os ricos surgem da multidão a cada dia

 e voltam a submergir-se nela, os pobres são poucos e entre os dois extremos, há uma multidão de homens quase iguais, nem ricos nem pobres. Quando a importância social do homem não é fixada pelo sangue e todos possuem direitos iguais, o dinheiro torna-se o simbolo da realização social e do prestigio, constituindo-se em objeto de incessante competição individual. Assim, a noção de classes sociais descontinuas e conflitantes é substituída por uma noção de continuidade hierárquica entre as diversas posições sociais. Todos podem alcançar um status, ou seja uma posição social mais elevada. E, como o dinheiro é o único elemento a determinar o status, todos procuram febrilmente ganha-lo. Mas a ascensão social fácil é ilimitada não passa de uma ilusão criada pela igualdade de direitos. Pois, com a abolição dos privilégios de alguns foram abertas as portas para uma competição desenfreada e uma rivalidade geral

A DEGRADAÇÃO DO HOMEM


Tocqueville aceita a realidade e a inevitabilidade das mudanças de seu tempo. Não rechaça os elementos ideológicos da igualdade e dos direitos individuais, nem vive obcecado pelo espectro da desorganização social e moral. Mas teme que a democracia possa sufocar a criação artística e intelectual. A multidão de seres conformados, um a semelhança do outro, cria uma uniformidade da qual nada se destaca. Todos estão submersos no império da opinião pública, a "maioria invisível", que torna impossível a verdadeira independência da mente. O amor à igualdade gera suspeita com relação aos mais brilhantes e capazes. Domina a preocupação geral com relação ao utilitário, ao finito, ao medíocre. A massificação e a busca de novidades por um público continuamente crescente determina a mediocridade da criação cultural, que visa não mais que adular o homem comum. Assim a democracia, sistema ostensivamente consagra o individuo, terminaria por diminuir sua estatura e restringir sua amplitude de seu pensamento e de sua conduta. O individuo estaria perdido em meio ao enorme número de seus iguais. No dizer de Tocqueville, nas democracias "o homem é exaltado nos preceitos, mas é degradado na prática".